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Em um domingo marcado por alta expectativa, as urnas em Portugal confirmaram a continuidade do governo da Aliança Democrática (AD), liderada pelo primeiro-ministro Luís Montenegro. A coalizão de centro-direita assegurou a vitória nas eleições parlamentares, mas sem conquistar maioria absoluta, o que aponta para negociações futuras no Parlamento. A surpresa, no entanto, veio com o desempenho do partido ultradireitista Chega, que empatou tecnicamente com o Partido Socialista (PS) em número de deputados. A votação, realizada em 18 de maio de 2025, revelou um cenário político fragmentado, com abstenção entre 36% e 42%, segundo dados preliminares.

O Chega, liderado por André Ventura, consolidou-se como uma força significativa, quadruplicando sua bancada desde 2019 e alcançando cerca de 25% dos votos, segundo projeções da Pitagórica para a CNN Portugal. Esse resultado colocou o partido em empate com o PS, que amargou uma das piores derrotas de sua história recente. A eleição também expôs tensões sociais, com o discurso anti-imigração ganhando espaço em um país que abriga 1,5 milhão de estrangeiros, incluindo a maior comunidade brasileira da Europa.

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Para entender o que está em jogo, alguns pontos destacam o impacto dessa votação:

  • A Aliança Democrática obteve entre 30,3% e 35,1% dos votos, segundo diferentes sondagens.
  • O Chega pode eleger até 58 deputados, igualando o PS, mas depende da apuração de votos do exterior.
  • A abstenção elevada reflete descontentamento com a instabilidade política, após três eleições em três anos.
  • O discurso anti-imigração foi central na campanha, gerando protestos de comunidades como a cigana.

A apuração final, incluindo os votos de portugueses no exterior, como no Brasil, será decisiva para definir o desempate entre Chega e PS, com resultados oficiais aguardados após as 22h do dia da eleição.

Cenário político antes da votação

A campanha eleitoral de 2025 foi marcada por uma polarização crescente. A Aliança Democrática, composta principalmente pelo Partido Social Democrata (PSD), entrou na disputa com a vantagem de liderar as pesquisas, mas enfrentou críticas por adotar um discurso mais duro sobre imigração, em uma tentativa de atrair eleitores do Chega. Luís Montenegro, que assumiu o governo após a vitória em 2024, buscou destacar avanços econômicos e estabilidade, mesmo após a queda de seu Executivo em março de 2025, devido a um escândalo envolvendo sua empresa familiar.

O Partido Socialista, liderado por Pedro Nuno Santos, chegou às eleições enfraquecido. Após décadas de influência, incluindo uma maioria absoluta em 2022, o PS sofreu com desgastes acumulados, como acusações de corrupção no governo de António Costa e a perda de apoio entre eleitores de centro-esquerda. A campanha socialista focou em políticas sociais e críticas à aproximação da AD com pautas ultradireitistas, mas não conseguiu reverter a desvantagem nas urnas.

Por outro lado, o Chega capitalizou o descontentamento popular. André Ventura, conhecido por declarações polêmicas contra imigrantes e minorias, intensificou sua retórica durante a campanha, associando imigração a problemas como criminalidade, apesar de dados mostrarem uma queda de 23% no número de presos estrangeiros em Portugal nos últimos dez anos. O partido enfrentou protestos, especialmente da comunidade cigana, que acusou Ventura de racismo, mas manteve um crescimento constante, atraindo eleitores desiludidos com o bipartidarismo tradicional.

Ascensão meteórica do Chega

Fundado em 2019, o Chega passou de um partido marginal para a terceira maior força no Parlamento português em poucos anos. Na eleição de 2024, já havia quadruplicado sua bancada, elegendo 50 deputados. Em 2025, as projeções indicam que o partido pode chegar a 58 deputados, um salto histórico que reflete sua habilidade em explorar insatisfações sociais. Ventura celebrou o resultado parcial, declarando que o Chega “matou o bipartidarismo” em Portugal.

O crescimento do partido está ligado a uma estratégia clara:

  • Discurso antissistema: O Chega se posiciona contra a elite política tradicional, criticando tanto a AD quanto o PS.
  • Foco na imigração: A retórica anti-imigração, embora baseada em premissas questionáveis, ressoou entre eleitores preocupados com o aumento de 248 mil estrangeiros no país desde 2024.
  • Presença nas redes sociais: Ventura utiliza plataformas como o X para amplificar mensagens, muitas vezes baseadas em desinformação, como a associação entre imigração e criminalidade.
  • Protestos como combustível: Confrontos com manifestantes, como os da comunidade cigana, foram usados para reforçar a narrativa de vítima do sistema.
Luis Montenegro primeiro ministro de Portugal
Luis Montenegro primeiro ministro de Portugal – Foto: Alexandros Michailidis / Shutterstock.com

Apesar do sucesso, o Chega enfrenta desafios. A dependência de Ventura como figura central e episódios controversos, como seu mal-estar durante um comício em Tavira, levantam dúvidas sobre a sustentabilidade do partido a longo prazo. Além disso, a falta de dados concretos para sustentar suas principais bandeiras, como a suposta ligação entre imigração e criminalidade, tem sido alvo de críticas de organizações como a Casa do Brasil em Lisboa.

Reeleição da Aliança Democrática

A vitória da Aliança Democrática, embora sem maioria absoluta, garante a continuidade de Luís Montenegro como primeiro-ministro. A coalizão obteve entre 30,3% e 35,1% dos votos, segundo sondagens da SIC e da Pitagórica, consolidando sua posição como a principal força política do país. No entanto, a ausência de maioria obriga a AD a buscar alianças, seja com partidos menores, como a Iniciativa Liberal, que caiu de 8 para 2 deputados, seja em negociações pontuais com o Chega, algo que Montenegro prometeu evitar.

Durante a campanha, a AD destacou medidas econômicas, como incentivos a pequenas empresas e redução de impostos, mas foi criticada por sua abordagem à imigração. Montenegro defendeu a “regulação” da entrada de estrangeiros, prometendo expulsar imigrantes em situação irregular, uma pauta que ecoou o discurso do Chega. Essa estratégia, segundo analistas, visava conter o avanço da ultradireita, mas gerou tensões com comunidades imigrantes, incluindo os 400 mil brasileiros oficialmente documentados em Portugal.

A reeleição também traz desafios administrativos. A Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), responsável pela regularização de imigrantes, enfrenta caos operacional, com 347 mil pessoas, a maioria brasileiras, aguardando documentos. A greve de funcionários da AIMA, iniciada em 2024, deve se estender por meses, complicando ainda mais a situação.

Impacto da imigração na campanha

A imigração emergiu como o tema central das eleições de 2025, refletindo um fenômeno global de crescimento da retórica anti-imigrante. Portugal, que historicamente se beneficiou da mão de obra estrangeira, viu o debate se acirrar com a chegada de 1,5 milhão de imigrantes, um aumento de 248 mil em relação a 2024. Brasileiros, a maior comunidade estrangeira, contribuíram significativamente para a Previdência Social, com €668,9 milhões em 2022, mas enfrentam crescente hostilidade.

O Chega liderou a ofensiva contra imigrantes, propondo medidas como um plebiscito para limitar a entrada de estrangeiros e a revisão de benefícios sociais. A AD, por sua vez, anunciou notificações para que milhares de imigrantes deixassem o país voluntariamente, uma medida criticada como eleitoralista por partidos de oposição. O Partido Socialista acusou Montenegro de disputar votos com a ultradireita, enquanto organizações como o Grupo de Ação Conjunta Contra o Racismo e Xenofobia alertaram para o risco de políticas discriminatórias.

Alguns números ilustram a complexidade do tema:

  • Em 2023, 345 brasileiros receberam notificações de abandono voluntário, uma queda de 23% em relação a 2022.
  • A AIMA processa anualmente cerca de 18 mil pedidos de regularização, mas enfrenta atrasos crônicos.
  • Imigrantes contribuem para arrecadações recordes da Previdência Social, desafiando a narrativa de “dependência”.
  • Casos de discriminação contra brasileiros aumentaram, segundo relatórios de ONGs locais.

Protestos marcaram a campanha, com a comunidade cigana confrontando Ventura em cidades como Viana do Castelo. Brasileiros também se mobilizaram, com iniciativas como “O Brasil também é aqui”, que buscou engajar eleitores luso-brasileiros contra a ultradireita.

Derrota histórica do Partido Socialista

O Partido Socialista enfrentou uma das piores derrotas desde os anos 1980, com projeções indicando 25,4% a 25,8% dos votos. O empate técnico com o Chega, ambos com cerca de 58 deputados, representa um golpe para o partido que dominou a política portuguesa por décadas. A liderança de Pedro Nuno Santos tentou recuperar eleitores com promessas de políticas sociais, mas não conseguiu superar o desgaste acumulado.

A queda do PS começou em 2024, quando António Costa renunciou em meio a investigações de corrupção. A dissolução do Parlamento e a convocação de eleições antecipadas enfraqueceram ainda mais o partido, que perdeu apoio para a AD e o Chega. A apuração dos votos do exterior, incluindo os dois deputados eleitos pelo círculo fora da Europa, será crucial para determinar se o PS conseguirá superar o Chega no número final de assentos.

Instabilidade política persiste

Portugal realizou sua terceira eleição parlamentar em três anos, um reflexo da instabilidade política que marcou o país desde 2022. A queda do governo de Montenegro em março de 2025, após a revelação de irregularidades em sua empresa familiar, levou à convocação do pleito. O presidente Marcelo Rebelo de Sousa dissolveu o Parlamento, mas alertou para a necessidade de estabilidade, um apelo que parece distante com a fragmentação do novo Parlamento.

A ausência de maioria absoluta para a AD complica a formação do governo. Embora Montenegro tenha rejeitado alianças formais com o Chega, a aprovação de orçamentos e projetos de lei pode depender de negociações com a ultradireita. Partidos menores, como a Iniciativa Liberal e o Bloco de Esquerda, também perderam força, reduzindo as opções de coalizão.

Papel dos votos no exterior

Os votos de portugueses no exterior, especialmente no Brasil, podem alterar o resultado final. O círculo fora da Europa elege dois deputados, e em 2024, AD e Chega dividiram essas cadeiras. Problemas logísticos, como a não entrega de cédulas de papel, impediram alguns eleitores no Brasil de votar, gerando críticas à organização eleitoral. A apuração desses votos, que deve ser concluída nos dias seguintes à eleição, será acompanhada de perto por PS e Chega, que disputam o segundo lugar.

A comunidade brasileira em Portugal, com 400 mil membros documentados, sentiu os efeitos da campanha anti-imigração. Muitos temem retrocessos em direitos, como o acesso à cidadania portuguesa, que o governo da AD prometeu dificultar, aumentando o tempo de residência exigido de cinco para sete anos. A regularização de imigrantes, já comprometida pela crise na AIMA, permanece como um dos maiores desafios do novo governo.

Tensões sociais em alta

As eleições de 2025 expuseram divisões profundas na sociedade portuguesa. O discurso anti-imigração, amplificado pelo Chega, gerou protestos de comunidades minoritárias e de imigrantes. Em cidades como Lisboa e Porto, manifestações contra a ultradireita reuniram milhares de pessoas, incluindo brasileiros que se opõem às políticas de Ventura. A comunidade cigana, frequentemente alvo de ataques do Chega, intensificou sua mobilização, enfrentando o líder ultradireitista em comícios.

Apesar das tensões, a violência foi contida pela polícia, que evitou confrontos maiores. Organizações de direitos humanos, como a Casa do Brasil, criticaram a criação de uma unidade policial para fiscalizar imigrantes, proposta pela AD e apoiada pelo Chega. A medida, que aguarda aprovação no Parlamento, reforça a associação entre imigração e segurança pública, um discurso que preocupa defensores dos direitos dos estrangeiros.

Cenário econômico em jogo

A reeleição da AD ocorre em um momento de desafios econômicos. Portugal enfrenta pressões inflacionárias e dificuldades no Sistema Nacional de Saúde (SNS), que sofre com greves e fechamento de emergências. A coalizão prometeu investimentos em infraestrutura e redução de impostos, mas a falta de maioria absoluta pode dificultar a aprovação de medidas no Parlamento.

O Chega, por sua vez, propôs cortes em benefícios sociais para imigrantes, uma medida que contraria a contribuição econômica dos estrangeiros. Dados recentes mostram que imigrantes, especialmente brasileiros, são essenciais para a sustentabilidade da Previdência Social, com arrecadações recordes nos últimos anos. A tensão entre crescimento econômico e políticas restritivas será um dos principais debates do novo governo.

Mobilização da comunidade brasileira

A comunidade brasileira, que representa a maior população estrangeira em Portugal, teve um papel ativo na eleição. Iniciativas como “O Brasil também é aqui” buscaram engajar eleitores luso-brasileiros, alertando para os riscos do avanço da ultradireita. Personalidades como a socióloga Thaís França destacaram a importância de envolver brasileiros na política portuguesa, especialmente em um contexto de crescente discriminação.

Embora a maioria dos brasileiros em Portugal não tenha direito a voto, aqueles com cidadania portuguesa participaram ativamente, divididos entre apoio ao PS e à AD. A campanha do Chega, que incluiu brasileiros como Marcus Santos em sua cúpula, tentou atrair luso-brasileiros com um discurso de integração, mas enfrentou críticas por suas posições xenófobas.

Desafios para o novo Parlamento

O Parlamento eleito em 2025 será um dos mais fragmentados da história recente de Portugal. A Aliança Democrática precisará navegar um cenário complexo, com o Chega pressionando por influência e o PS tentando se reconstruir como oposição. Partidos menores, como o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português, também buscarão espaço, embora tenham perdido relevância nas urnas.

Alguns pontos que devem dominar as discussões parlamentares incluem:

  • Reforma da imigração: A AD prometeu endurecer as regras de residência e cidadania, enquanto o Chega defende medidas ainda mais restritivas.
  • Orçamento de 2026: A aprovação do orçamento dependerá de negociações entre partidos, com o Chega condicionando seu apoio a pautas anti-imigração.
  • Crise na AIMA: A regularização de imigrantes exige reformas urgentes na agência, que enfrenta greves e atrasos.
  • Estabilidade política: Após três eleições em três anos, a pressão por um governo duradouro é alta.

A fragmentação do Parlamento e o fortalecimento da ultradireita sinalizam um período de intensos debates, com a imigração e a economia no centro das atenções.

Bruna Santos é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve e colabora para o portal desde 2024. Formação: Professora.

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