Infrações de trânsito disparam no Brasil, enquanto suspensões de CNH atingem mínima em 10 anos

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CNH Detran carteira de habilitação Foto: RafaPress/Istockphoto.com

Em 2024, o Brasil registrou um número recorde de 74,9 milhões de infrações de trânsito, marcando a sexta alta consecutiva, segundo dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran). Apesar desse aumento expressivo, apenas 290 mil Carteiras Nacionais de Habilitação (CNHs) foram suspensas, o menor índice desde 2013, exceto pelo ano atípico de 2020, durante a pandemia. As mudanças no Código de Trânsito Brasileiro (CTB), implementadas entre 2021 e 2022, são apontadas como a principal causa dessa discrepância, com flexibilizações que elevaram o limite de pontos para suspensão e introduziram vantagens para motoristas profissionais e empresas. Essas alterações, em vigor desde abril de 2021, reduziram a aplicação da penalidade mais severa, mesmo com o crescimento das infrações. O fenômeno, reportado por portais como UOL e G1 em julho de 2025, levanta debates sobre a eficácia do sistema de penalidades no país.

A disparidade entre o volume de multas e a queda nas suspensões reflete um cenário onde a fiscalização aumentou, mas as punições mais rigorosas perderam força. O avanço tecnológico, como o uso de radares eletrônicos, contribuiu para o registro de infrações, enquanto as novas regras do CTB dificultaram a suspensão de carteiras.

  • Limite de pontos elevado: Passou de 20 para até 40 pontos, dependendo da gravidade das infrações.
  • Vantagens para motoristas EAR: Profissionais podem zerar pontos com curso de reciclagem.
  • Prazos estendidos para empresas: Pessoas jurídicas têm até 30 dias para indicar infratores.

Novas regras do CTB em foco

As alterações no Código de Trânsito Brasileiro, sancionadas em 2020 e implementadas a partir de 2021, trouxeram mudanças significativas no sistema de pontuação. Antes, o limite de 20 pontos em 12 meses era suficiente para suspender a CNH, independentemente do tipo de infração. Agora, o teto varia: 40 pontos sem infrações gravíssimas, 30 pontos com uma infração gravíssima e 20 pontos com duas ou mais. Essa flexibilização permite que motoristas acumulem mais infrações médias e graves sem perder o direito de dirigir.

Motoristas que exercem atividade remunerada (EAR), como motoristas de aplicativos e caminhoneiros, receberam benefícios adicionais. Eles mantêm o limite de 40 pontos, mesmo com infrações gravíssimas, e podem realizar um curso preventivo de reciclagem ao atingir 30 pontos, zerando a pontuação uma vez por ano. Essas medidas visam proteger a fonte de renda desses profissionais, mas também contribuem para a redução das suspensões.

Fiscalização intensificada

O aumento de 74,9 milhões de autuações em 2024 reflete uma fiscalização mais rigorosa, impulsionada por tecnologias como radares eletrônicos e sistemas de monitoramento. Cidades como São Paulo e Natal dobraram o número de equipamentos de fiscalização entre 2021 e 2024, segundo dados do G1. Infrações como excesso de velocidade e avanço de sinal vermelho, frequentemente captadas por esses dispositivos, lideram o ranking de autuações.

Em 2023, a Senatran já registrava 21 milhões de infrações, com destaque para:

  • Excesso de velocidade: Infração média (até 20% acima do limite) ou grave (acima de 20% até 50%), com multas de R$ 130,16 e R$ 195,23, respectivamente.
  • Avanço de sinal vermelho: Infração gravíssima, com multa de R$ 293,47 e 7 pontos.
  • Desrespeito ao rodízio: Infração média, com multa de R$ 130,16 e 4 pontos.

A automação da fiscalização facilita a aplicação de multas, mas não necessariamente resulta em suspensões, já que muitas infrações são de menor gravidade.

Detran Multas CNH
Detran Multas CNH – Foto: rafastockbr/Shutterstock.com

Benefícios para pessoas jurídicas

Empresas que possuem veículos registrados em seus nomes também foram impactadas pelas mudanças no CTB. Antes de 2021, elas tinham 15 dias para indicar o condutor responsável por uma infração, sob pena de receberem a multa por Não Indicação de Condutor (NIC), que dobrava o valor da penalidade original. Com a nova lei, o prazo foi estendido para 30 dias, dando mais tempo para evitar a associação do condutor à infração.

Essa flexibilização criou uma brecha no sistema. Veículos registrados em nome de pessoas jurídicas não acumulam pontos se o condutor não for identificado, o que reduz a chance de suspensão. Em 2024, cerca de 30% das multas aplicadas a empresas não resultaram em identificação de motoristas, segundo estimativas do Portal do Trânsito. Esse mecanismo contribui diretamente para a queda no número de CNHs suspensas.

Infrações autossuspensivas em destaque

Apesar da redução geral nas suspensões, as infrações autossuspensivas, que geram suspensão imediata da CNH, continuam sendo aplicadas. O CTB lista cerca de 20 infrações desse tipo, associadas a condutas de alto risco.

  • Dirigir sob efeito de álcool: Multa de R$ 2.934,70 e suspensão por 12 meses.
  • Ultrapassar em local proibido: Multa de R$ 293,47 e suspensão por até 12 meses.
  • Velocidade acima de 50% do limite: Multa de R$ 880,41 e suspensão por até 12 meses.
  • Interromper vias públicas sem autorização: Multa de até R$ 17.608,20 e suspensão por até 12 meses.

Essas infrações, por sua gravidade, não dependem do acúmulo de pontos e são aplicadas diretamente, mas representam uma fração pequena do total de autuações.

Educação no trânsito em debate

A queda nas suspensões de CNH ocorre em um momento de aumento nas mortes no trânsito. Entre 2021 e 2024, o número de óbitos em acidentes cresceu 12%, atingindo cerca de 42 mil em 2024, segundo o G1. Especialistas, como Danielle Hoppe, do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento, apontam que a flexibilização das regras enfraqueceu o caráter educativo das penalidades.

Campanhas educativas, como as realizadas em Natal, que reduziram mortes em 18% em 2024, mostram que ações preventivas podem ser eficazes. No entanto, a falta de coordenação nacional dificulta a implementação de políticas unificadas. A proposta de uma Agência Nacional de Segurança Viária ganha força, com o objetivo de centralizar dados e estratégias para reduzir acidentes.

Novas penalidades em 2025

Em 2025, novas regras de trânsito entraram em vigor, com foco em infrações gravíssimas. A proposta de lei sobre ultrapassagens perigosas, em análise na Câmara, prevê multas de R$ 3 mil e suspensão da CNH por um ano. Infrações que interrompem vias públicas, reguladas pelo Artigo 253-A do CTB, agora têm multas de até R$ 5.869,40, podendo chegar a R$ 35.216,40 em casos de reincidência organizada.

Essas medidas buscam aumentar a dissuasão, mas ainda não impactaram os dados de 2024. Motoristas devem estar atentos, já que o limite de pontos pode ser reduzido rapidamente com infrações gravíssimas, tornando a suspensão uma possibilidade real.

Perfil das infrações mais comuns

O ranking de infrações em 2024 mostra que a maioria das autuações está relacionada a comportamentos evitáveis. Excesso de velocidade lidera, seguido por desrespeito à sinalização e uso irregular de vagas especiais. A automação da fiscalização, com radares e fotossensores, capturou a maior parte dessas infrações, mas a falta de identificação de condutores em veículos de empresas limita a aplicação de pontos.

A proporção de infrações leves e médias, que geram menos pontos, também explica a dificuldade em atingir o limite de suspensão. Infrações leves, como estacionar em local proibido, adicionam 3 pontos, enquanto as médias, como dirigir com calçado inadequado, somam 4 pontos.

Desafios da fiscalização

A fiscalização eletrônica, embora eficiente na aplicação de multas, enfrenta críticas por sua impessoalidade. Muitos motoristas só descobrem as infrações ao receberem notificações, o que reduz o impacto educativo. Além disso, a fragmentação de dados entre órgãos estaduais, municipais e federais dificulta a criação de políticas integradas.

Cidades como São Paulo, com 808 radares em operação, registraram 8 milhões de autuações em 2024, mas apenas 1% resultaram em suspensões. A combinação de fiscalização intensiva com regras mais flexíveis cria um sistema onde as multas são frequentes, mas as penalidades mais severas, raras.

Prevenção como solução

A educação no trânsito é apontada como uma alternativa para reduzir infrações e acidentes. Iniciativas locais, como as 128 ações educativas em escolas de Natal em 2024, mostram resultados positivos. Programas nacionais, como o Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (Pnatrans), buscam coordenar esforços, mas avançam lentamente.

Motoristas podem evitar penalidades adotando práticas simples:

  • Respeitar limites de velocidade e sinalização.
  • Evitar o uso de celular ao dirigir.
  • Manter a documentação do veículo e da CNH em dia.
  • Realizar manutenções regulares no veículo.

Essas ações, combinadas com uma fiscalização estratégica, podem equilibrar o aumento de multas com a segurança nas vias.

Maria Clara é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Atriz.

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