Tragédia equestre: 284 cavalos mortos por ração com substância proibida

Cavalo Foto: Cavalo - Foto: MarioGuti/istock

Uma crise sanitária sem precedentes abala o setor equestre brasileiro, com a morte de 284 cavalos em quatro estados devido ao consumo de ração contaminada produzida pela Nutratta Nutrição Animal Ltda. O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) confirmou os óbitos, registrados em Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Alagoas, após investigações iniciadas em 26 de maio de 2025. A contaminação, causada pela presença de alcaloides pirrolizidínicos, como a monocrotalina, decorre de falhas no controle de matérias-primas, que incluíram resíduos de plantas do gênero Crotalaria. A fábrica da Nutratta foi interditada, e uma decisão judicial que permitia a retomada parcial da produção foi revogada em 23 de julho, proibindo a fabricação de rações para todas as espécies até a correção das irregularidades. O caso, considerado inédito pelo Mapa, gerou prejuízos financeiros e emocionais devastadores para criadores.

A gravidade da situação levou o Ministério a intensificar fiscalizações, com o objetivo de proteger a saúde animal e garantir a segurança da cadeia produtiva. A Nutratta, por sua vez, expressou solidariedade às vítimas e afirmou colaborar com as autoridades, mas não respondeu a questionamentos recentes sobre a revogação judicial.

  • Principais estados afetados: Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Alagoas.
  • Substância tóxica identificada: Monocrotalina, presente em plantas Crotalaria.
  • Medida do Mapa: Suspensão total da produção da Nutratta até correção de falhas.
  • Prejuízo estimado: Milhões de reais, incluindo animais valiosos como Quantum de Alcatéia.

Origem da contaminação

A investigação conduzida pelo Ministério da Agricultura revelou que a contaminação da ração equina da Nutratta ocorreu devido a falhas no controle de qualidade das matérias-primas. Resíduos de plantas do gênero Crotalaria, amplamente usadas como adubo verde em plantações de soja e milho, foram identificados como a fonte dos alcaloides pirrolizidínicos. Essas substâncias, como a monocrotalina, são altamente tóxicas para equinos, causando danos graves ao fígado e ao sistema neurológico.

O problema foi detectado após a primeira denúncia, recebida em 26 de maio, por meio da ouvidoria do Mapa. Inspeções realizadas entre 2 e 4 de junho na fábrica da Nutratta, em Itumbiara, Goiás, confirmaram irregularidades nos processos de produção. Análises laboratoriais, concluídas em 25 de junho, detectaram a presença da substância proibida, marcando a primeira vez que monocrotalina foi encontrada em rações para cavalos no Brasil.

  • Crotalária: Planta usada para fixar nitrogênio no solo, mas tóxica se não removida.
  • Monocrotalina: Causa lesões hepáticas e neurológicas, com risco de hemorragias.
  • Falhas identificadas: Uso de matérias-primas não aprovadas e falta de rastreabilidade.

Impacto nos criadores

A morte de 284 cavalos gerou um impacto devastador no setor equestre, tanto financeiro quanto emocional. Criadores relatam prejuízos que chegam a milhões de reais, com animais valiosos, como o garanhão Quantum de Alcatéia, avaliado em R$ 12 milhões, entre as vítimas. Proprietários enfrentam não apenas a perda de investimentos, mas também o trauma de ver animais de estimação e competição sucumbirem à intoxicação.

Os sintomas observados nos cavalos incluem prostração, perda de apetite, desorientação e alterações neurológicas, como dificuldade de locomoção. Em casos graves, a falência hepática levou à morte em poucas horas, muitas vezes acompanhada de hemorragias devido à queda de plaquetas. A advogada Maria Alessandra Agarussi, que representa criadores afetados, estima que o número real de mortes pode ser ainda maior, com mais de 700 casos relatados em grupos de apoio.

  • Prejuízo médio por animal: Cerca de R$ 40 mil, segundo criadores.
  • Casos relatados: Mais de 400 mortes apenas no estado de São Paulo.
  • Ações judiciais: Proprietários buscam indenizações por danos materiais e morais.
  • Animais afetados: Incluem campeões de competições e cavalos de estimação.

Medidas do Ministério da Agricultura

O Ministério da Agricultura agiu rapidamente para conter a crise. Após a confirmação da contaminação, emitiu um alerta em 17 de junho para a suspensão imediata do consumo de rações da Nutratta. A fábrica foi interditada em 4 de julho, e a comercialização de todos os produtos, inicialmente apenas para equinos, foi suspensa. Em 25 de junho, a proibição foi estendida a rações para todas as espécies, devido à gravidade das falhas detectadas.

Uma decisão judicial que permitia à Nutratta retomar a produção de rações para vacas e ovelhas foi revogada em 23 de julho, após o Mapa apresentar novas evidências de risco sanitário. A pasta exige que a empresa comprove a correção de todas as irregularidades antes de retomar a fabricação. Fiscalizações seguem em andamento, e o Ministério aguarda resultados de análises adicionais para determinar a extensão da contaminação.

  • Ações do Mapa: Suspensão, fiscalização reforçada e recurso contra decisão judicial.
  • Exigências: Correção de falhas sistêmicas e rastreabilidade de lotes.
  • Investigação: Análises de novos lotes e matérias-primas em curso.

Resposta da Nutratta

A Nutratta Nutrição Animal, em nota emitida em 11 de julho, expressou solidariedade aos criadores e afirmou colaborar integralmente com as autoridades. A empresa destacou que suas linhas de produção para equinos e bovinos são independentes, negando evidências de contaminação em rações para outras espécies. Em 22 de julho, admitiu a possível presença de monocrotalina, associada a plantas Crotalaria, e reforçou que suspendeu preventivamente a comercialização de seus produtos equinos.

A companhia, que atua há 13 anos no mercado, enfatizou sua patente em tecnologia de extrusão de fibras e seu compromisso com a qualidade. Contudo, não respondeu a questionamentos recentes do g1 sobre a revogação da decisão judicial. Criadores e advogados criticam a demora na comunicação da empresa, exigindo maior transparência e indenizações pelas perdas.

  • Pronunciamento: Solidariedade e colaboração com o Mapa, mas sem respostas recentes.
  • Tecnologia: Patente em extrusão de fibras, usada em nutrição animal.
  • Críticas: Criadores apontam falta de agilidade e clareza nas respostas.

Riscos da Crotalária no agronegócio

A presença de Crotalária nas matérias-primas levanta preocupações sobre os controles no agronegócio brasileiro. A planta, valorizada por sua capacidade de fixar nitrogênio no solo, é comumente usada em rotação de culturas. No entanto, suas sementes e favas concentram alcaloides tóxicos, que devem ser rigorosamente eliminados antes do uso em rações. A falha da Nutratta em evitar a contaminação expõe fragilidades na rastreabilidade de ingredientes.

Veterinários alertam que os sintomas da intoxicação por monocrotalina podem surgir meses após o consumo, dificultando o diagnóstico precoce. A substância, ao se acumular no organismo, causa danos progressivos, especialmente em animais submetidos a exercícios intensos. O caso reforça a necessidade de regulamentações mais rigorosas e inspeções frequentes nas indústrias de nutrição animal.

  • Uso da Crotalária: Common em adubação verde, mas exige remoção antes da colheita.
  • Riscos: Substâncias tóxicas persistem em músculos e ossos, liberadas com esforço físico.
  • Prevenção: Controles rigorosos de matéria-prima e análises laboratoriais.

Próximos passos da investigação

As autoridades continuam analisando lotes de rações e matérias-primas para determinar a extensão da contaminação. O Mapa reforçou a fiscalização em propriedades e fábricas, com foco na retirada de produtos contaminados do mercado. Criadores, enquanto isso, organizam ações judiciais para buscar indenizações, alegando danos materiais, como o custo dos animais e tratamentos, e morais, devido ao impacto emocional.

A tragédia, que já vitimou cavalos de alto valor, como Quantum de Alcatéia, expõe a vulnerabilidade do setor equestre a falhas na cadeia produtiva. O Ministério da Agricultura promete manter a transparência, atualizando a sociedade sobre os desdobramentos. Enquanto isso, a Nutratta enfrenta o desafio de recuperar a confiança do mercado e cumprir as exigências sanitárias para retomar suas operações.

  • Análises em curso: Resultados de novos lotes devem orientar próximas medidas.
  • Ações judiciais: Criadores buscam reparação por prejuízos financeiros e emocionais.
  • Fiscalização: Mapa intensifica inspeções para evitar novos casos.

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