Tarifaço de Trump paralisa 2 mil toneladas de mel brasileiro para os EUA

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Mel Foto: Mel - Foto: Materio/Shutterstock.com

Mais de 2 mil toneladas de mel brasileiro destinadas aos Estados Unidos estão paradas desde 9 de julho, quando Donald Trump anunciou uma tarifa de 50% sobre produtos do Brasil. A medida, que impactou as exportações de julho em cerca de 50% abaixo do esperado, segundo a Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel), ameaça a renda de milhares de apicultores, especialmente da agricultura familiar. Cerca de 80% do mel exportado pelo Brasil tem os EUA como destino, o que torna o setor altamente dependente desse mercado. A situação, agravada pela dificuldade de redirecionar o produto para outros países, exige estratégias urgentes para minimizar prejuízos. Pequenos produtores, que representam a maioria do setor, enfrentam desafios para manter a sustentabilidade financeira, enquanto o mercado interno não absorve o excedente.

O impacto da tarifa atinge diretamente a cadeia produtiva do mel, que envolve entre 200 mil e 300 mil apicultores no Brasil. A produção, concentrada em estados como Piauí, Rio Grande do Sul e Paraná, depende de exportações para gerar renda estável. A paralisação de estoques força o setor a buscar alternativas em um cenário de baixa demanda interna e exigências rigorosas em outros mercados.

  • Dependência dos EUA: 80% das exportações brasileiras de mel vão para o mercado norte-americano.
  • Agricultura familiar: 82% dos apicultores são pequenos produtores, com renda média de R$ 4 mil por mês.
  • Excedente de produção: Estoques parados podem levar a uma queda de preços no mercado interno.

Negociações para minimizar perdas

O setor apícola brasileiro intensifica negociações com importadores norte-americanos para reduzir o impacto da tarifa de 50%. Segundo Renato Azevedo, presidente da Abemel, o mel orgânico, preferido no segmento de “mel de mesa” nos EUA, tem maior chance de manter exportações, pois é valorizado por sua qualidade. Já o mel convencional enfrenta concorrência de países como Argentina e Uruguai, que oferecem preços mais competitivos. A certificação orgânica, que exige colmeias a 3-4 km de plantações com agrotóxicos, é um diferencial, mas os custos elevados dificultam a expansão para outros mercados.

A tentativa de manter o relacionamento com clientes americanos é crucial. Azevedo destaca que o mel pode ser estocado por até três meses sem perder qualidade, o que dá margem para negociações. No entanto, a falta de um plano imediato para absorver o excedente preocupa o setor. A Central de Cooperativas Apícolas do Semiárido Brasileiro (Casa Apis), no Piauí, já adiou o envio de 585 toneladas de mel orgânico, buscando dividir os custos da tarifa com importadores.

  • Mel orgânico: Preferido nos EUA, pode manter exportações com ajustes de preço.
  • Concorrência internacional: Argentina, Uruguai e Ucrânia oferecem mel convencional a preços mais baixos.
  • Estocagem: Estoques podem ser mantidos por até três meses, mas com risco de perda de características.
  • Negociações: Divisão da tarifa com importadores é uma estratégia em andamento.

Dificuldade de acesso a novos mercados

Redirecionar o mel para outros países, como a União Europeia, é um desafio logístico e regulatório. A Europa, segundo maior destino do mel brasileiro, exige certificações individuais para cada apicultor, o que encarece o processo. Há três anos, a legislação europeia tornou-se mais rígida, inviabilizando projetos coletivos de certificação que eram comuns no Brasil. Fábia de Mello, da Embrapa, explica que as exigências de qualidade variam entre países, dificultando a adaptação rápida do produto.

O Brasil, quarto maior exportador de mel para os EUA e quinto no ranking mundial, segundo a FAO, enfrenta barreiras para acessar mercados como Japão e Canadá. A necessidade de análises laboratoriais e certificações específicas, como as exigidas pela Food and Drug Administration (FDA) nos EUA, exige investimentos que muitos pequenos apicultores não conseguem arcar. A falta de infraestrutura e suporte técnico agrava a situação, especialmente no Nordeste, onde 90% dos apiários estão no semiárido.

Impacto nos preços internos

Com a redução das exportações, o mercado interno pode enfrentar uma queda nos preços do mel devido ao aumento da oferta. Renato Azevedo prevê que o excedente de 2 mil toneladas pode pressionar os valores, mas Sérgio Farias, da Confederação Brasileira de Apicultura (CBA), alerta que isso representa um prejuízo para apicultores. A renda média de R$ 4 mil por mês, muitas vezes a única fonte de sustento, está ameaçada.

O consumo interno, historicamente baixo, com apenas 60 gramas per capita por ano contra a média mundial de 240 gramas, não absorve o volume exportado. Farias ilustra: “Para dar conta do mel que vai para os EUA, cada brasileiro precisaria triplicar o consumo.” A visão do mel como remédio, e não como alimento cotidiano, limita o mercado doméstico. Iniciativas para mudar esse cenário incluem campanhas de conscientização e propostas de inclusão do mel em programas governamentais.

  • Queda de preços: Excedente pode reduzir valores, mas prejudica apicultores.
  • Baixo consumo: Brasileiro consome 60 g de mel por ano, contra 240 g da média global.
  • Cultura alimentar: Mel é visto como remédio, não como alimento diário.

Estratégias para o futuro do setor

O setor apícola busca soluções de médio e longo prazo para superar a dependência do mercado norte-americano. A CBA propõe medidas como a inclusão do mel na cesta básica, com isenção de impostos como ICMS, PIS e COFINS, para estimular o consumo interno. Outra iniciativa é integrar o mel ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), fornecendo o produto para merendas escolares.

Além disso, o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) é pressionado a atualizar os regulamentos técnicos de identidade e qualidade do mel, permitindo o desenvolvimento de novos produtos, como cosméticos e bebidas. A promoção internacional do mel orgânico brasileiro, com foco em sua sustentabilidade e qualidade, também é uma prioridade. A Casa Apis, por exemplo, investe em projetos de reflorestamento apícola, premiados em 2023 no Congresso da Apimondia, para agregar valor ao produto.

  • Cesta básica: Proposta de isenção de impostos para aumentar consumo interno.
  • PNAE: Inclusão do mel na merenda escolar para absorver excedente.
  • Novos produtos: Atualização de regulamentos para criar itens à base de mel.
  • Promoção internacional: Foco no mel orgânico para mercados premium.

Cadeia produtiva em transformação

A apicultura brasileira, formada majoritariamente por pequenos produtores, enfrenta um momento de reestruturação. O Piauí, maior exportador nacional, com 36,6% das vendas externas em 2023, lidera esforços para manter a competitividade. Projetos como o Viva o Semiárido capacitam apicultores e investem em certificação orgânica, mas os custos elevados ainda limitam a escalabilidade.

A produção nacional, que atingiu 55,8 mil toneladas em 2021, tem potencial para crescer, mas depende de investimentos em manejo, formalização e polinização assistida. A relação com a agricultura, como a polinização de culturas como soja e maçã, pode gerar benefícios mútuos, reduzindo o impacto ambiental e aumentando a produtividade. A formalização do setor, com cadastro de colmeias nos órgãos estaduais, é outro passo para acessar políticas públicas e mercados externos.

Sustentabilidade como diferencial

O mel brasileiro é reconhecido por sua pureza, livre de resíduos, devido ao clima e à biodiversidade do país. Abelhas africanizadas, mais resistentes a doenças, dispensam o uso de medicamentos, reforçando a qualidade do produto. Iniciativas de reflorestamento, como as da Casa Apis, aliam produção à conservação ambiental, atraindo mercados que valorizam sustentabilidade.

A certificação orgânica, embora custosa, é um diferencial competitivo. No Piauí, 93% do mel vem da agricultura familiar, e programas como o PEIEX, da ApexBrasil, ajudam pequenos produtores a acessar mercados internacionais. A diversificação para produtos como própolis e geleia real também é uma aposta para ampliar a receita do setor.

Carolina Costa é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2019. Formação: Administração

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