O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, agência federal de saúde pública dos Estados Unidos) e a Universidade de Washington divulgaram em 2 de outubro de 2026 que as detecções do fungo neurotrópico (que atinge o sistema nervoso) Cladophialophora bantiana quadruplicaram no país entre 2023 e 2025. A infecção ataca predominantemente o cérebro e apresenta taxa de letalidade entre 60% e 70%, mesmo quando os pacientes recebem tratamento agressivo com cirurgia e medicamentos antifúngicos.
O levantamento, publicado no boletim epidemiológico Morbidity and Mortality Weekly Report (MMWR), do CDC, analisou dados do laboratório de referência clínica da universidade, localizado em Seattle, no estado de Washington. Os cientistas identificaram que cerca de metade dos pacientes infectados não tinha histórico de imunossupressão (redução da atividade do sistema de defesa do organismo). “As razões para o aumento aparente são desconhecidas”, afirmaram os autores do relatório, em tradução livre.
Aumento de 210% na taxa de detecção da Cladophialophora bantiana no sistema nervoso
Entre janeiro de 2009 e julho de 2026, o laboratório da Universidade de Washington identificou casos da doença por meio de testes de PCR de amplo espectro (técnica molecular que detecta o material genético do patógeno). De 2009 a 2023, os diagnósticos anuais permaneceram estáveis, mas os registros subiram nos dois anos seguintes.
Para descartar a hipótese de que o crescimento fosse resultado apenas de um volume maior de exames encaminhados ao laboratório, a equipe liderada pela médica e pesquisadora da Universidade de Washington Maria T. Nelson, autora principal do relatório, ao lado do farmacêutico e pesquisador do CDC Dallas J. Smith e das pesquisadoras da universidade Thao T. Truong e Lori A. Bourassa, calculou a proporção de testes positivos em relação ao total de tecidos do sistema nervoso central analisados. A medição confirmou uma elevação real na circulação do microrganismo nos Estados Unidos.
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- Total de registros (janeiro de 2009 a julho de 2026): 49 casos, sendo 48 confirmados e 1 provável.
- Média anual entre 2009 e 2023: de 1 a 5 casos por ano.
- Registros em 2024: 8 casos detectados.
- Registros em 2025: 14 casos detectados.
- Taxa média entre 2017 e 2023: 8,4 detecções por 1.000 amostras de tecido do sistema nervoso central.
- Taxa em 2025: 26 detecções por 1.000 amostras do sistema nervoso central (alta de 210%).
- Localização das infecções: 43 casos (88%) em tecido intracraniano (cérebro) e 6 casos (12%) em amostras pulmonares.
- Perfil etário: idade mediana de 68 anos entre os pacientes diagnosticados.
- Distribuição geográfica: 22 jurisdições norte-americanas (21 estados e o Distrito de Colúmbia), com maior concentração na Califórnia (6 casos), Flórida (5), Texas (5) e Pensilvânia (4), além de 3 registros sem estado de origem informado.
Por que o fungo Cladophialophora bantiana preocupa médicos mesmo em pacientes saudáveis?
Diferentemente da maioria das infecções fúngicas invasivas, que costumam atingir pacientes transplantados, em tratamento oncológico ou com deficiências severas de imunidade, a Cladophialophora bantiana infectou pessoas com o sistema imunológico aparentemente saudável em metade dos registros analisados. Essa característica impede que médicos utilizem os critérios tradicionais de grupos de risco para descartar a doença durante o atendimento clínico.
O médico, microbiologista, professor associado de medicina laboratorial e patologia na Universidade de Washington e coautor do estudo, Joshua A. Lieberman, explicou a gravidade desse padrão epidemiológico. “O que diferencia essas infecções é que pessoas que têm sistemas imunológicos aparentemente saudáveis contraem a infecção e também correm alto risco de morte. É alarmante que isso ocorra fora daquelas populações típicas de alto risco que têm imunossupressão bastante profunda”, disse Lieberman. Em outra declaração sobre o patógeno, o pesquisador acrescentou: “Ele é capaz de infectar pessoas aparentemente saudáveis, não apenas pacientes imunocomprometidos com os quais normalmente nos preocupamos em relação a doenças fúngicas invasivas”.
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Quando chega ao cérebro, o fungo provoca a formação de abscessos cerebrais (acúmulos de pus e material infectado cercados por tecido inflamado). Na prática médica, essas lesões são frequentemente confundidas em exames de imagem com tumores cerebrais, o que atrasa o diagnóstico exato. Mesmo quando o patógeno é identificado, o protocolo exige a combinação de remoção cirúrgica da lesão (excisão cirúrgica) e terapia antifúngica combinada, mas a mortalidade permanece elevada.
Histórico da Cladophialophora bantiana e avanço de outras ameaças fúngicas nos EUA
A Cladophialophora bantiana é classificada como um bolor escuro (fungo dematiáceo) produtor de melanina, pigmento que protege o microrganismo e dificulta a ação do sistema imune humano. O patógeno é encontrado na natureza, presente no solo e em matéria orgânica em decomposição em diversas partes do mundo, e foi isolado pela primeira vez a partir de um abscesso cerebral humano em 1911 pelo patologista italiano Guido Banti.
O crescimento das infecções pelo bolor neurotrópico soma-se ao avanço de outros fungos monitorados pelas autoridades sanitárias norte-americanas. Em julho de 2026, um estudo divulgado pelo CDC já havia demonstrado que os casos clínicos de Candida auris, outro fungo de alta resistência hospitalar, mais que dobraram nos Estados Unidos no intervalo entre 2022 e 2024.
Lacunas na transmissão da Cladophialophora bantiana e orientações do CDC
Os cientistas ainda não sabem explicar o que provocou a multiplicação por quatro nas detecções entre 2023 e 2025. A possibilidade de que o aquecimento global ou as mudanças climáticas estejam ligados à expansão do fungo foi levantada pelos pesquisadores apenas como hipótese, sem evidências conclusivas até o momento. O reservatório ambiental exato e a rota definitiva de infecção também não estão comprovados, embora a presença do fungo em 12% das amostras pulmonares sustente a hipótese de contágio por inalação de esporos ou por inoculação através de feridas na pele.
“Além disso, a C. bantiana só raramente foi isolada de fontes ambientais, e muitos pacientes não têm históricos de exposição ou fatores de risco semelhantes. A vigilância nacional não existe, e nem o reservatório ambiental nem a rota de infecção são totalmente compreendidos”, declararam os autores do estudo no relatório do MMWR.
Como os Estados Unidos não contam com um sistema de vigilância nacional de rotina para monitorar a doença, o CDC pediu no documento a implementação de notificações sistemáticas em todo o país e recomendou que as equipes médicas passem a considerar a infecção por Cladophialophora bantiana durante a investigação diagnóstica de qualquer paciente que apresente abscesso cerebral.
