Colômbia e Peru intensificam disputa por ilha amazônica com tropas na fronteira

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Militares do Peru chegam ao rio Amazonas Foto: Militares do Peru chegam ao rio Amazonas - Foto: Rede Social

A disputa pela ilha de Santa Rosa, localizada na tríplice fronteira entre Colômbia, Peru e Brasil, no rio Amazonas, escalou de um conflito diplomático para uma tensão militar em agosto de 2025. O governo colombiano, liderado pelo presidente Gustavo Petro, acusa o Peru de apropriar-se indevidamente da ilha, que surgiu por sedimentação natural após tratados de fronteira do século passado. Em julho, o Peru criou o distrito de Santa Rosa de Loreto, incorporando a ilha, o que desencadeou protestos de Bogotá. Nesta semana, ambos os países enviaram militares à região, com Petro visitando Letícia e autoridades peruanas reforçando sua presença na ilha. A escalada reflete a importância estratégica do rio Amazonas para o comércio e a soberania. A situação ameaça a estabilidade regional, enquanto os dois países trocam acusações sobre a validade de acordos históricos.

A ilha de Santa Rosa, com cerca de 3 mil habitantes, está no centro de uma controvérsia que combina mudanças geográficas, interesses econômicos e disputas históricas. A Colômbia argumenta que a formação da ilha é recente e não está contemplada no Tratado Salomón-Lozano de 1922, exigindo uma nova negociação. Já o Peru defende que a ilha faz parte de seu território, com administração estabelecida desde a década de 1970.

  • Fatores geográficos: O rio Amazonas mudou seu curso, aproximando a ilha de Letícia.
  • Interesses econômicos: Letícia, porto comercial colombiano, depende do acesso ao rio.
  • Histórico de tensão: Relações estremecidas desde a destituição de Pedro Castillo em 2022.

Origem da controvérsia territorial

A disputa pela ilha de Santa Rosa começou a ganhar destaque em 2024, quando autoridades colombianas questionaram a ocupação peruana durante uma reunião bilateral. Na época, a questão foi temporariamente resolvida por vias diplomáticas. No entanto, a decisão do Peru, em junho de 2025, de oficializar a ilha como parte do distrito de Santa Rosa de Loreto reacendeu o conflito. A lei peruana, aprovada por unanimidade no Congresso, estabeleceu a ilha como um município, com um prefeito local, Jack Iván Yovera Peña, e serviços públicos sob administração de Lima. A medida foi vista por Bogotá como uma apropriação unilateral de um território que, segundo a Colômbia, deveria ser negociado bilateralmente, conforme estipulado pelo Tratado Salomón-Lozano.

O presidente Gustavo Petro, em pronunciamento em Letícia no dia 7 de agosto, afirmou que a Colômbia não reconhece a soberania peruana sobre a ilha e classificou a criação do distrito como uma violação do Protocolo do Rio de Janeiro de 1934, que definiu a fronteira com base no canal mais profundo do rio Amazonas. Ele ameaçou recorrer a tribunais internacionais caso não haja acordo.

Por outro lado, o governo peruano sustenta que a ilha está localizada na Ilha de Chinería, atribuída ao Peru em 1929 pela Comissão Mista Demarcadora. A chancelaria peruana emitiu uma nota rejeitando as acusações colombianas, afirmando que exerce soberania sobre a área de forma contínua há mais de um século.

Mudanças geográficas no rio Amazonas

O rio Amazonas, conhecido por sua instabilidade geográfica, desempenha um papel central na disputa. A formação de novas ilhas, como Santa Rosa, é resultado de sedimentações naturais que alteram o curso do rio. Estudos de institutos colombianos e peruanos indicam que, até 2030, o fluxo do rio pode desviar-se completamente para o lado peruano, deixando Letícia sem acesso direto ao Amazonas.

  • Alteração do curso: A redução do caudal do rio, intensificada por mudanças climáticas, aproximou a ilha da margem colombiana.
  • Impacto econômico: Letícia, um importante porto comercial, pode perder sua relevância sem acesso ao rio.
  • Projeções futuras: Especialistas preveem que o rio Amazonas continuará a mudar, criando novos desafios territoriais.
  • Presença local: Cerca de 2.500 a 3.000 pessoas vivem na ilha, a maioria se identificando como peruana.

A instabilidade do rio Amazonas complica a aplicação de tratados históricos. O Tratado Salomón-Lozano, assinado em 1922 e ajustado em 1929, estabeleceu que novas ilhas formadas após essa data devem ser negociadas bilateralmente. A Colômbia argumenta que a criação do distrito peruano ignora essa cláusula, enquanto o Peru insiste que a administração contínua da ilha legitima sua soberania.

Tensão militar e demonstrações de força

A escalada do conflito ganhou contornos militares em agosto de 2025. No dia 7, militares peruanos chegaram à ilha de Santa Rosa e hastearam dezenas de bandeiras do país, em resposta às declarações de Petro. No mesmo dia, as Forças Armadas colombianas reforçaram o efetivo em Letícia, e a imprensa peruana relatou um suposto sobrevoo de aviões militares colombianos no espaço aéreo do Peru, embora sem confirmação oficial.

Petro transferiu as comemorações da Batalha de Boyacá, tradicionalmente realizadas em Bogotá, para Letícia, em um gesto simbólico de reafirmação de soberania. Simultaneamente, o primeiro-ministro peruano, Eduardo Arana, acompanhado de ministros, visitou a região para demonstrar a presença do Estado.

  • Movimentação militar: Tropas peruanas e colombianas foram enviadas à tríplice fronteira.
  • Gestos simbólicos: A visita de Petro e a presença de autoridades peruanas intensificaram a disputa.
  • Reações locais: Habitantes da ilha, como Arnold Pérez, afirmam que a região é culturalmente peruana.

A presença militar de ambos os lados preocupa autoridades regionais, incluindo o Brasil, que monitora a situação sem se pronunciar oficialmente. A tríplice fronteira é uma área estratégica, com intenso comércio e trânsito de pessoas, o que eleva os riscos de um conflito mais amplo.

Relações bilaterais abaladas

As tensões entre Colômbia e Peru não são novas. Desde a destituição do ex-presidente peruano Pedro Castillo em 2022, classificada por Petro como um golpe de Estado, as relações diplomáticas entre os dois países estão fragilizadas. Na ocasião, Petro retirou o embaixador colombiano de Lima, e o Peru respondeu de forma recíproca, reduzindo as relações a encarregados de negócios.

Embora tentativas de reaproximação tenham ocorrido em 2025, com o envio de novos embaixadores, a disputa pela ilha de Santa Rosa reacendeu o atrito. A chancelaria colombiana pediu a reativação da Comissão Mista Permanente para a Inspeção da Fronteira Colombo-Peruana (COMPERIF), mas o Peru mantém sua posição de que não há pendências territoriais a discutir.

  • Histórico de tensão: A destituição de Castillo marcou o início de uma crise diplomática.
  • Diplomacia limitada: As relações são conduzidas por encarregados de negócios desde 2022.
  • Comissão bilateral: A Colômbia insiste na negociação, mas o Peru rejeita a rediscussão.

Implicações para a tríplice fronteira

A disputa pela ilha de Santa Rosa afeta diretamente a dinâmica da tríplice fronteira, uma região de grande importância ambiental e econômica. A área abriga comunidades indígenas, como grupos arawak, e é marcada por desafios como a extração ilegal de recursos e o tráfico transfronteiriço. A falta de infraestrutura básica na ilha, como água e energia elétrica, também foi destacada por autoridades locais, que apontam o abandono do Estado peruano, apesar de seu potencial turístico.

A Colômbia teme que a perda de acesso ao rio Amazonas prejudique Letícia, isolando-a economicamente. O Peru, por sua vez, vê a ilha como uma extensão natural de seu território e busca consolidar sua presença. A ausência de um acordo bilateral pode prolongar o conflito, com possíveis repercussões para o Brasil, que compartilha a fronteira.

  • Impacto econômico: Letícia depende do rio para comércio e turismo.
  • Questões ambientais: Mudanças climáticas agravam a instabilidade do rio Amazonas.
  • Comunidades locais: Habitantes da ilha enfrentam precariedade, apesar da disputa.
  • Riscos regionais: A escalada militar pode afetar a estabilidade da tríplice fronteira.

A situação exige diálogo urgente para evitar um conflito mais grave. A Colômbia insiste em canais diplomáticos, enquanto o Peru reafirma sua soberania. A resolução dependerá da capacidade de ambos os países de negociarem com base em tratados históricos e nas realidades geográficas atuais.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2013. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

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