Etanol de lixo supera cana em testes e promete revolução sustentável

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gasolina, combustive - Irina Wilhauk/Shutterstock.com

Um novo tipo de etanol, produzido a partir de resíduos alimentícios como balas, chocolates e sucos, está chamando a atenção no Brasil por sua promessa de sustentabilidade e desempenho equiparável ao combustível tradicional. Desenvolvido pela Ambipar, o Ambiálcool foi testado em um Citroën Basalt, revelando resultados animadores em consumo e performance. Iniciado em 2021, durante a escassez de etanol causada pela pandemia, o projeto transforma lixo da indústria alimentícia em combustível automotivo, reaproveitando toneladas de resíduos que iriam para aterros. A iniciativa, conduzida em Nova Odessa (SP), utiliza parcerias com gigantes como a Mondelēz e usinas de fermentação para criar um etanol hidratado com até 95% de pureza, aprovado pela ANP. O objetivo é oferecer uma alternativa ecológica, reduzindo desperdícios e emissões, enquanto mantém a eficiência dos motores flex.

O projeto da Ambipar surge em um momento estratégico, quando a busca por combustíveis renováveis ganha força globalmente. A produção do Ambiálcool destaca-se pela capacidade de converter 500 toneladas de resíduos em até 300 mil litros de etanol, superando a produtividade da cana-de-açúcar em alguns casos. Com testes instrumentados, o combustível reciclado mostrou-se praticamente idêntico ao etanol de posto, tanto em consumo quanto em desempenho, abrindo portas para uma matriz energética mais limpa.

  • Principais características do Ambiálcool:
    • Produzido a partir de resíduos como balas, chocolates e sucos.
    • Aproveita insumos descartados por questões de validade ou padronização.
    • Alta pureza, com até 95% de etanol hidratado.
    • Utilizado em frota experimental de 22 carros em Nova Odessa (SP).

Processo inovador de produção

A criação do Ambiálcool começa com a coleta de resíduos da indústria alimentícia, como lotes fora de padrão ou com prazo de validade expirado. Esses materiais, ricos em açúcar e amido, passam por fermentação biológica e destilação em parceria com usinas especializadas. Gabriel Estevam, diretor de pesquisa da Ambipar, explica que o processo é semelhante ao da produção de etanol de cana, mas com maior eficiência em alguns casos, devido à alta concentração de açúcar em resíduos como balas refrescantes. O resultado é um combustível que atende às normas da ANP e é compatível com qualquer veículo flex ou a álcool.

O projeto também explora subprodutos, como soluções de limpeza, dependendo do nível de diluição do etanol. A Ambipar planeja dobrar sua capacidade produtiva até o final de 2025, ampliando parcerias com indústrias alimentícias. A iniciativa já conta com o apoio da Mondelēz, mas negociações com outras empresas estão em andamento para escalar a produção.

  • Etapas do processo produtivo:
    • Coleta de resíduos alimentícios descartados.
    • Fermentação biológica para extrair açúcares.
    • Destilação para obter etanol hidratado.
    • Controle de qualidade para atender normas da ANP.

Testes mostram desempenho competitivo

O Ambiálcool foi submetido a testes rigorosos pela Autoesporte, utilizando um Citroën Basalt 1.0 flex manual. O experimento comparou o etanol reciclado com o combustível de posto em circuitos urbanos, rodoviários e em pista de provas. Os resultados, analisados por Rogério Gonçalves, da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), indicaram um “empate técnico” em consumo e desempenho. No trajeto urbano, o Basalt registrou 9,3 km/l com Ambiálcool contra 10,1 km/l com etanol comum. Na rodovia, o consumo foi de 11,9 km/l contra 12,5 km/l, superando as médias do Inmetro em ambos os casos.

Na aceleração, o Ambiálcool apresentou diferenças mínimas: o 0 a 100 km/h foi concluído em 15,7 segundos, contra 15,2 segundos do etanol de posto, uma variação de apenas 3,8%. Em retomadas e velocidade final, as discrepâncias foram ainda menores, com o Basalt atingindo cerca de 140 km/h em ambos os combustíveis. Segundo o piloto de testes Alexandre Silvestre, o comportamento dinâmico do veículo permaneceu praticamente idêntico, sem alterações perceptíveis em torque ou reatividade.

  • Resultados dos testes:
    • Consumo urbano: 9,3 km/l (Ambiálcool) vs. 10,1 km/l (etanol de posto).
    • Consumo rodoviário: 11,9 km/l (Ambiálcool) vs. 12,5 km/l (etanol de posto).
    • Aceleração 0-100 km/h: 15,7 s (Ambiálcool) vs. 15,2 s (etanol de posto).
    • Diferença máxima de desempenho: 3,8% na aceleração.

Vantagens ambientais e econômicas

A principal inovação do Ambiálcool está na sustentabilidade. Ao reaproveitar resíduos que seriam descartados, o combustível reduz a pegada de carbono da indústria alimentícia, que movimentou R$ 1,3 trilhão no Brasil em 2024. Estima-se que o setor gere milhares de toneladas de lixo diariamente, grande parte destinada a aterros ou incineração. O Ambiálcool oferece uma alternativa, reinserindo esses materiais na cadeia produtiva e diminuindo a dependência de culturas agrícolas como cana e milho.

Economicamente, o custo do Ambiálcool é equiparável ao do etanol de posto, com preço médio de R$ 4,27 por litro, segundo a ANP. A Ambipar destaca que a ausência de certos processos produtivos, comuns no etanol tradicional, compensa os custos de coleta e processamento dos resíduos. Além disso, a empresa prevê a possibilidade de comercializar créditos de carbono, o que pode baratear o combustível no futuro.

  • Benefícios do Ambiálcool:
    • Redução de resíduos em aterros e incineração.
    • Menor dependência de monoculturas agrícolas.
    • Potencial para geração de créditos de carbono.
    • Custo competitivo com etanol tradicional.
gasolina – Foto: bluedog studio/Shutterstock.com

Desafios para comercialização

Embora os resultados sejam promissores, o Ambiálcool ainda não está disponível para venda ao público. A Ambipar utiliza o combustível exclusivamente em sua frota de 22 veículos em Nova Odessa (SP), como parte de um projeto experimental. A escalabilidade depende de novos acordos com indústrias alimentícias e usinas, além de incentivos governamentais que ainda não foram concedidos. A empresa também enfrenta o desafio de ajustar a percepção do consumidor, já que o combustível tem um odor característico, semelhante ao álcool hospitalar, devido à sua alta pureza e origem variada.

Especialistas, como Rogério Gonçalves, da AEA, destacam que o Ambiálcool pode inspirar outras inovações no setor automotivo. A compatibilidade com motores flex e a possibilidade de integração com tecnologias híbridas, como as do Toyota Corolla, reforçam seu potencial. Pesquisas na USP também exploram o uso de etanol em reatores de hidrogênio, o que pode ampliar ainda mais as aplicações do combustível reciclado.

  • Obstáculos a superar:
    • Escassez de incentivos governamentais.
    • Necessidade de novas parcerias industriais.
    • Ajuste na percepção do consumidor sobre o odor.
    • Ampliação da infraestrutura de produção.

Futuro da matriz energética

O Ambiálcool representa um marco na evolução dos combustíveis renováveis no Brasil, que já tem uma longa história com o etanol. Desde o lançamento do Fiat 147 a álcool em 1979, o país se consolidou como líder em biocombustíveis. A tecnologia flex, desenvolvida localmente, completa mais de 20 anos em 2023, e a introdução de combustíveis reciclados pode ser o próximo passo. A iniciativa da Ambipar alinha-se a uma tendência global de economia circular, em que resíduos são transformados em recursos valiosos.

Com a indústria alimentícia entre as maiores do mundo, países como Brasil, China e Estados Unidos podem se beneficiar de tecnologias semelhantes. A Ambipar planeja expandir seus testes e parcerias, mas a comercialização em larga escala ainda depende de avanços logísticos e regulatórios. Enquanto isso, o Ambiálcool prova que é possível combinar sustentabilidade e desempenho, pavimentando o caminho para uma matriz energética mais verde.

  • Inovações em andamento:
    • Pesquisas para uso de etanol em células de hidrogênio.
    • Expansão de parcerias com indústrias alimentícias.
    • Testes para aumentar a escala de produção.
    • Exploração de novos subprodutos, como soluções de limpeza.
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