Michel Misse, referência em criminalidade, falece aos 74 anos no Rio de Janeiro

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Michel Misse Foto: Michel Misse - Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

O sociólogo Michel Misse, renomado por seus estudos sobre violência urbana e criminalidade, faleceu aos 74 anos na manhã desta quinta-feira, 14 de agosto de 2025, no Rio de Janeiro. Internado desde o final de julho no Hospital Unimed Rio, na Barra da Tijuca, Zona Oeste, ele lutava contra um câncer de pulmão. A causa oficial de sua morte não foi divulgada. Professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e fundador do Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana (NECVU), Misse deixou um legado acadêmico e social que influenciou gerações de pesquisadores e políticas públicas. Sua trajetória, marcada por militância política e paixão cultural, reflete um compromisso profundo com a compreensão da sociedade brasileira. O velório está marcado para sexta-feira, 15 de agosto, no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS), no Centro do Rio, seguido de uma cerimônia de cremação reservada a familiares e amigos.

Nascido em Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo, em 12 de abril de 1951, Misse era filho de imigrantes libaneses e chegou ao Rio de Janeiro em 1967, aos 16 anos, para estudar. Sua formação em Ciências Sociais pela UFRJ foi o ponto de partida para uma carreira que combinou rigor acadêmico com engajamento social. Durante os anos de chumbo da ditadura militar, em 1972, foi preso e torturado por sua militância no Partido Comunista do Brasil (PCdoB), experiência que marcou sua visão crítica sobre o Estado e a repressão.

Luto
Luto – Foto: Jacob Wackerhausen/Istock.com
  • Principais contribuições de Michel Misse:
  • Fundador do NECVU, referência em estudos sobre violência urbana.
  • Autor de obras como “Malandros, marginais e vagabundos” (1999).
  • Coordenador do Grupo de Trabalho de Segurança da UFRJ até 2023.

Trajetória acadêmica de Michel Misse

Michel Misse ingressou na UFRJ em 1970, onde se formou em Ciências Sociais em 1974. Mais tarde, obteve mestrado (1979) e doutorado (1999) em Sociologia pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ). Sua trajetória na UFRJ foi marcada por papéis de destaque, como a direção do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) entre 1990 e 1993 e a liderança da Editora UFRJ de 2012 a 2019. Como professor titular aposentado, continuou ativo no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA), orientando mais de 50 dissertações e teses.

O pesquisador também se destacou internacionalmente, sendo professor visitante em instituições como a Universidade de Chicago (2022), Universidade do Texas em Austin (2017) e Universidade de Lille, na França (2009). Sua produção acadêmica, com mais de 7 mil citações segundo o Google Scholar, reflete a relevância de suas análises sobre violência, justiça criminal e teoria social. Misse fundou a revista “Dilemas: Estudos de Conflito e Controle Social”, consolidada como uma das mais importantes publicações na área de crime e violência no Brasil.

  • Marcos da carreira acadêmica:
  • Fundador da revista “Dilemas”, Qualis A2, desde 2008.
  • Pesquisador 1-B do CNPq e Cientista do Nosso Estado pela FAPERJ.
  • Publicação de livros como “O Inquérito Policial no Brasil” (2010).
  • Coordenação de acordos internacionais, como o Capes-Cofecub com a França.

Legado do NECVU na segurança pública

Em 1999, Michel Misse fundou o Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana (NECVU) na UFRJ, que se tornou um marco nos estudos sobre segurança pública no Brasil. Sob sua coordenação até 2023, o NECVU produziu pesquisas que influenciaram políticas públicas e o debate acadêmico sobre violência urbana. O núcleo investigou temas como a relação entre cidadania e criminalidade, os impactos das operações policiais e a construção social do conceito de “cidadão de bem”.

O trabalho de Misse no NECVU trouxe à tona questões estruturais, como a marginalização de comunidades e o papel das instituições na perpetuação da violência. Sua abordagem crítica destacou como o sistema de justiça criminal muitas vezes reforça desigualdades, em vez de mitigá-las. Em 2023, ele coordenou o Grupo de Trabalho de Segurança da UFRJ, que buscou criar protocolos para proteger a comunidade acadêmica de operações policiais nos campi, reduzindo os impactos sobre alunos, professores e funcionários.

  • Contribuições do NECVU sob liderança de Misse:
  • Pesquisas sobre mercados ilegais e criminalização.
  • Análise da violência policial em comunidades vulneráveis.
  • Estudos sobre a construção social da criminalidade no Rio.
  • Publicação de coletâneas como “Quando a Polícia Mata” (2013).

Engajamento político e resistência

A trajetória de Misse também foi marcada por seu engajamento político. Durante a ditadura militar, sua militância no PCdoB resultou em sua prisão e tortura em 1972, no Quartel do Exército da Barão de Mesquita, na Tijuca. Essa experiência moldou sua visão crítica sobre o autoritarismo e a repressão estatal, temas que permeiam suas obras. Em 1981, ele participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) no Rio de Janeiro, contribuindo para o fortalecimento do movimento democrático no estado.

Sua atuação política não se limitou à militância. Misse trouxe para o campo acadêmico uma perspectiva que conectava teoria social e prática, analisando como o Estado e suas instituições moldam a violência urbana. Sua obra “Malandros, marginais e vagabundos” (1999) explora a acumulação social da violência no Rio, destacando como estigmas sociais e políticas públicas influenciam a criminalidade.

Paixão pelo carnaval e cultura carioca

Além de sua dedicação acadêmica, Michel Misse era apaixonado pela cultura carioca, especialmente pelo carnaval de rua. Ele foi um dos criadores do bloco Maracangalha, que em 2025 completou 24 anos de desfiles em Botafogo, na Zona Sul do Rio. O bloco, conhecido por sua energia e conexão com a comunidade, reflete o lado festivo e agregador de Misse, que via no carnaval uma expressão de resistência e celebração da identidade carioca.

Sua participação no Maracangalha também revelou sua habilidade de conectar diferentes esferas da vida social. Para Misse, o carnaval não era apenas uma festa, mas um espaço de sociabilidade que desafiava hierarquias e promovia a cidadania. Ele frequentemente levava alunos e colegas para os ensaios do bloco, criando laços que extrapolavam a academia.

  • Curiosidades sobre Michel Misse:
  • Criou o bloco Maracangalha, um ícone do carnaval de rua do Rio.
  • Era conhecido por sua proximidade com alunos, incentivando debates abertos.
  • Recebeu o título de Cachoeirense Ausente Número Um em 2009.
  • Publicou “O Estigma do Passivo Sexual” (1979), um marco nos estudos de gênero.

Homenagens e velório

O falecimento de Michel Misse gerou comoção entre colegas, alunos e a comunidade acadêmica. O NECVU emitiu uma nota de pesar, destacando sua “contribuição poderosíssima” para a sociologia e a teoria social. O velório será realizado no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS), no Centro do Rio, na sexta-feira, 15 de agosto, das 10h às 15h, aberto ao público. A cremação, marcada para o mesmo dia, será restrita a familiares e amigos próximos.

Misse deixa sua companheira, a socióloga Joana Vargas, três filhos — André, Daniel e Michel Filho — e dois netos, Laila e Antonio. Sua obra continua a inspirar pesquisadores e ativistas que buscam compreender e enfrentar os desafios da violência urbana no Brasil. Sua dedicação à pesquisa e ao ensino formou uma geração de estudiosos comprometidos com a justiça social e os direitos humanos.

  • Detalhes do velório:
  • Local: Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS), Centro do Rio.
  • Horário: 10h às 15h, sexta-feira, 15 de agosto de 2025.
  • Cremação: Cerimônia reservada a familiares e amigos.

Influência duradoura na sociologia brasileira

A obra de Michel Misse transcende a academia, impactando políticas públicas e o debate sobre segurança no Brasil. Livros como “O Inquérito Policial no Brasil: Uma Pesquisa Empírica” (2010) ofereceram análises detalhadas sobre o funcionamento do sistema de justiça criminal, enquanto publicações coletivas, como “Mercados ilegais, violência e criminalização” (2018), organizadas com outros pesquisadores, ampliaram o escopo das discussões sobre crime organizado.

Sua abordagem interdisciplinar, que combinava sociologia, antropologia e ciência política, abriu novos caminhos para entender a violência como um fenômeno social complexo. Misse defendia que a criminalidade não podia ser reduzida a atos isolados, mas deveria ser analisada no contexto das desigualdades sociais e das práticas institucionais. Essa visão continua a orientar estudos no NECVU e em outras instituições.

  • Obras de destaque de Michel Misse:
  • “Malandros, marginais e vagabundos” (1999).
  • “O Inquérito Policial no Brasil” (2010).
  • “Mercados ilegais, violência e criminalização” (2018).
  • “Conflitos de grande interesse” (2012), com Alexandre Werneck.

Carolina Costa é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2019. Formação: Administração

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