Um projeto inovador da Ambipar, multinacional brasileira de gestão ambiental, está transformando resíduos alimentares, como balas, chocolates e biscoitos, em etanol automotivo, batizado de Ambiálcool. Iniciado em 2021, o combustível sustentável abastece a frota de 22 veículos da empresa em Nova Odessa, São Paulo, e promete revolucionar a matriz energética com uma alternativa ecológica ao etanol de cana-de-açúcar. Testes realizados pela Autoesporte com um Citroën Basalt compararam o Ambiálcool ao etanol tradicional, mostrando desempenho e consumo praticamente idênticos. A iniciativa, que já processou mais de 500 toneladas de resíduos por mês, reduz impactos ambientais e promove a economia circular. Com parcerias como a Mondelēz, a Ambipar planeja dobrar sua capacidade produtiva até o fim do ano, destacando-se como uma solução para o desperdício da indústria alimentícia.
O projeto ganhou destaque ao vencer o Green Product Awards 2025, na Alemanha, reforçando sua relevância global. A produção utiliza resíduos com alto teor de açúcar, gerando até 350 litros de etanol por tonelada, e já alcançou 500 mil litros desde seu início.
- Matéria-prima inovadora: Resíduos como balas, chocolates e pães, descartados por validade ou padronização.
- Processo eficiente: Fermentação biológica e destilação em parceria com usinas especializadas.
- Aplicação prática: Abastece frota da Ambipar, compatível com qualquer carro flex.
Produção do etanol sustentável
A criação do Ambiálcool começou com testes no Porto de Santos, reaproveitando resíduos açucarados descartados. Hoje, a Ambipar processa sobras de indústrias alimentícias, como chocolates, biscoitos e sucos, que seriam incinerados ou levados a aterros. Gabriel Estevam, diretor de pesquisa e inovação da empresa, explica que resíduos com alto teor de açúcar ou amido, como balas refrescantes, podem superar a cana-de-açúcar em produtividade. Cada 500 toneladas de matéria-prima geram, em média, 300 mil litros de etanol com até 95% de pureza, aprovado pela Agência Nacional do Petróleo (ANP).
O processo ocorre em parceria com uma usina no interior paulista, onde os resíduos passam por fermentação biológica e destilação. Além do etanol automotivo, a Ambipar produz álcoois com 46% e 70% de concentração para limpeza e higienização. A empresa já processou mais de 500 mil litros desde 2021, com capacidade mensal de 500 toneladas de resíduos.
- Alta produtividade: Até 350 litros de etanol por tonelada de resíduo com 35% de açúcar.
- Parcerias estratégicas: Colaboração com a Mondelēz e outras indústrias alimentícias.
- Sustentabilidade: Reduz emissão de gases e custos logísticos de descarte.
- Versatilidade: Produz etanol automotivo e produtos de limpeza.
Testes de desempenho do Ambiálcool
A Autoesporte conduziu testes com o Ambiálcool em um Citroën Basalt 1.0 flex, comparando-o ao etanol de posto. Realizados em circuitos urbanos, rodoviários e na pista Rota 127, os experimentos avaliaram consumo e desempenho. No ciclo urbano, o Ambiálcool registrou 9,3 km/l, contra 10,1 km/l do etanol tradicional. Na estrada, os valores foram 11,9 km/l e 12,5 km/l, respectivamente, superando os padrões do Inmetro (8,4 km/l urbano e 9,6 km/l rodoviário).
Na aceleração de 0 a 100 km/h, o Ambiálcool marcou 15,7 segundos, ante 15,2 segundos do etanol de cana, uma diferença de 3,8%. Em retomadas e velocidade máxima, as variações foram inferiores a 4%, indicando desempenho praticamente idêntico. Alexandre Silvestre, piloto de testes, destacou que o comportamento dinâmico do veículo foi semelhante com ambos os combustíveis, sem diferenças perceptíveis em torque ou reatividade.
Rogério Gonçalves, da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, elogiou os resultados: “É um empate técnico. O etanol reciclado prova que é possível transformar resíduos em combustível eficiente.”

Características únicas do combustível reciclado
Uma particularidade notada no Ambiálcool é seu odor, semelhante ao álcool hospitalar, devido à alta pureza (95%) e à ausência de água na diluição, comum no etanol de posto. Estevam explica que a matéria-prima, como balas e chocolates, influencia o cheiro, assim como ocorre com bebidas alcoólicas. Já o etanol de cana, por sua origem, lembra cachaça.
A produção do Ambiálcool evita processos adicionais do etanol tradicional, mantendo custos equiparáveis, com preço médio de R$ 4,27 por litro, segundo a ANP. Por enquanto, o combustível é usado apenas na frota da Ambipar, mas há potencial para créditos de carbono subsidiarem custos futuros.
- Odor distinto: Lembra álcool hospitalar, diferindo do etanol de cana.
- Custo competitivo: Equivale ao preço de posto, sem incentivos governamentais.
- Impacto ambiental: Evita descarte de resíduos em aterros ou incineração.
Economia circular e reconhecimento global
O Ambiálcool se alinha à economia circular, transformando resíduos em recursos valiosos. A iniciativa reduz a pegada de carbono ao evitar emissões de aterros e incineração, além de demandar menos água e solo que a produção de cana ou milho. Países como Brasil, China e Índia, grandes produtores de alimentos, poderiam adotar o modelo para gerenciar resíduos.
O projeto conquistou o Green Product Awards 2025, na categoria Audiência, superando 1,5 mil concorrentes de 45 países. A Ambipar planeja expandir parcerias com indústrias alimentícias e usinas, dobrando a produção até dezembro. Embora não esteja à venda, o combustível é compatível com qualquer carro flex, como comprovado nos testes.
Futuro do etanol sustentável
A Ambipar não planeja comercializar o Ambiálcool no curto prazo, mas estuda ampliar a produção para frotas corporativas e, futuramente, postos comerciais. A logística de coleta de resíduos e a padronização da qualidade são desafios, mas parcerias com o setor público e privado podem viabilizar a escalabilidade. O Brasil, líder em biocombustíveis, pode reforçar sua posição com essa inovação.
O etanol de resíduos complementa tecnologias como veículos elétricos e híbridos, oferecendo uma solução imediata para a descarbonização. Estudos da USP exploram o uso de etanol em reatores de hidrogênio, sugerindo que o Ambiálcool pode integrar futuras inovações energéticas.
- Expansão planejada: Dobrar a capacidade produtiva até o fim do ano.
- Compatibilidade: Funciona em qualquer motor flex ou a álcool.
- Inovação energética: Pode integrar reatores de hidrogênio no futuro.
- Desafios logísticos: Coleta e padronização de resíduos exigem parcerias.