Tesouro argentino intervém no câmbio após crise com denúncias contra Karina MileiPor Luís Henrique Costa
8 min de leitura
![]() |
O governo argentino anunciou uma intervenção no mercado de câmbio para estabilizar o peso, que sofreu desvalorização de 1,6% em um único dia, enquanto os títulos soberanos do país despencaram, atingindo o menor nível desde abril de 2025. A medida, liderada pelo Tesouro sob comando do secretário de Finanças, Pablo Quirno, ocorre em um momento de turbulência política desencadeada por denúncias de corrupção envolvendo Karina Milei, irmã do presidente Javier Milei e secretária-geral da Presidência. As acusações, baseadas em áudios vazados do ex-diretor da Agência Nacional para Pessoas com Deficiência (Andis), Diego Spagnuolo, apontam que Karina recebia propinas de até 3% em contratos de medicamentos. A crise se intensifica às vésperas das eleições legislativas na província de Buenos Aires, marcadas para 7 de setembro de 2025, vistas como um teste crucial para o governo. A intervenção busca conter a instabilidade econômica e política, enquanto o mercado reage com desconfiança, agravada pela recente derrota eleitoral em Corrientes.
A decisão de intervir no câmbio marca uma mudança significativa na política econômica de Milei, que defendia um peso com flutuação livre dentro de bandas estabelecidas. A ação reflete a pressão sobre a moeda, que já vinha enfrentando uma “flutuação suja” com intervenções pontuais no mercado futuro. O governo também aumentou as taxas de juros para rolagem de dívidas e reforçou restrições cambiais aos bancos, visando recuperar a confiança dos investidores.
- Medidas incluem elevação drástica das taxas de juros para dívida pública.
- Exigências de reservas bancárias foram ampliadas para conter a desvalorização.
- Restrições ao acesso de bancos ao mercado de câmbio foram impostas.
- Intervenção ocorre em meio a denúncias que abalam a imagem do governo.

Reação do mercado à crise política
A desvalorização do peso e a queda nos títulos soberanos, que perderam US$ 0,016 em papéis com vencimento em 2035, refletem a desconfiança do mercado diante do escândalo de corrupção. Analistas da Grit Capital Group, como Walter Stoeppelwerth, apontam que a crise expõe a fragilidade da confiança dos investidores após 18 meses de governo Milei. A moeda, que chegou a perder 2,8% antes de recuperar parte do valor, enfrenta pressão adicional devido à proximidade das eleições. O risco-país argentino subiu para mais de 800 pontos, dificultando o acesso a mercados internacionais. A incerteza política, agravada pelas denúncias contra Karina Milei, contribuiu para o aumento da percepção de risco. O mercado argentino também reagiu negativamente após a divulgação dos áudios, com quedas generalizadas em ativos financeiros.
O escândalo envolvendo Karina Milei, acusada de receber 3% de propinas em contratos de medicamentos com a Drogaria Suizo Argentina, ganhou proporções significativas. Diego Spagnuolo, ex-diretor da Andis, foi demitido após os áudios serem tornados públicos pelo canal de streaming Carnaval Stream. As gravações sugerem um esquema que movimentaria entre US$ 500 mil e US$ 800 mil mensais, com Karina como uma das principais beneficiárias. A Justiça argentina, em resposta, proibiu a divulgação de novos áudios gravados na Casa Rosada, alegando que as gravações foram feitas ilegalmente e podem desestabilizar o país.
Impacto nas eleições de Buenos Aires
As eleições legislativas na província de Buenos Aires, marcadas para 7 de setembro, são vistas como um termômetro para as eleições nacionais de 26 de outubro, quando metade da Câmara dos Deputados e um terço do Senado serão renovados. Buenos Aires, que concentra quase 40% da população argentina, é um reduto tradicional do peronismo, liderado pela ex-presidente Cristina Kirchner. O governo Milei enfrenta dificuldades para consolidar apoio, especialmente após a derrota em Corrientes, onde o candidato apoiado pelo partido A Liberdade Avança ficou em quarto lugar.
- Eleições em Buenos Aires elegem 23 senadores e 46 deputados.
- Província representa um terço do eleitorado argentino.
- Derrota em Corrientes sinaliza fragilidade da estratégia de Milei.
- Escândalo de corrupção pode afastar eleitores indecisos.
A estratégia de concorrer sem alianças locais, impulsionada por Karina Milei, tem gerado críticas. Incidentes recentes, como pedradas contra a comitiva de Milei em um ato de campanha na Grande Buenos Aires e a retirada de Karina de um evento em Corrientes devido a confusões, intensificaram a tensão política. O governo, que já enfrenta 51% de desaprovação, segundo pesquisa da AtlasIntel, vê sua imagem desgastada pelo escândalo, que contradiz o discurso anticorrupção de Milei.
Medidas econômicas sob pressão
O Tesouro argentino, liderado por Pablo Quirno, anunciou a intervenção no mercado de câmbio como uma medida para garantir “liquidez e funcionamento normal”. A decisão contraria o compromisso assumido com o FMI, que previa intervenções apenas se o dólar atingisse o piso (951 pesos) ou o teto (1.471 pesos) da banda de flutuação. A moeda, no entanto, já vinha sofrendo intervenções no mercado futuro, especialmente quando se aproximou de 1.300 pesos. O governo também elevou as taxas de juros para rolagem de dívida pública, uma tentativa de conter a fuga de capitais e estabilizar os mercados.
A crise econômica se soma a um cenário de estagnação. Apesar do controle da inflação, que caiu significativamente desde o início do mandato de Milei, a atividade econômica recuou 0,7% em junho, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec). O consumo e a indústria ainda não se recuperaram, e os investimentos estrangeiros, esperados pelo governo, não chegaram na escala prevista.
- Inflação foi reduzida, mas economia enfrenta estagnação.
- Atividade econômica caiu 0,7% em junho, segundo dados oficiais.
- Investimentos estrangeiros seguem abaixo das expectativas.
- Setor exportador reclama de impostos ainda em vigor.
Denúncias e respostas do governo
O escândalo envolvendo Karina Milei começou em 20 de agosto, com a divulgação de áudios atribuídos a Diego Spagnuolo. Ele acusou Karina e Eduardo “Lule” Menem, subsecretário de Gestão Institucional, de liderarem um esquema de propinas que rendia até US$ 800 mil por mês. Spagnuolo alega ter alertado Javier Milei sobre as irregularidades, mas o presidente nega as acusações, chamando-as de “mentiras” e prometendo ação judicial contra o ex-diretor. A Justiça argentina realizou buscas em sedes da Andis e da Suizo Argentina, apreendendo US$ 266 mil em espécie e documentos.
Karina Milei, que mantém um perfil discreto e evita entrevistas, não se pronunciou diretamente sobre as denúncias. O governo, por meio do porta-voz Manuel Adorni, classificou os áudios como uma “operação de inteligência ilegal” para desestabilizar o país antes das eleições. A proibição judicial de divulgar gravações da Casa Rosada, decretada em 1º de setembro, reforça a estratégia de contenção de danos do governo.
Repercussão e desafios políticos
A crise abalou a imagem do governo Milei, que se elegeu com a promessa de combater a “casta política” corrupta. A consultoria M&F apontou que 94,5% dos argentinos conhecem o escândalo, com 73,2% considerando-o grave. Mais de 60% atribuem responsabilidade direta a Javier e Karina Milei, o que pode impactar o desempenho do partido A Liberdade Avança nas urnas. A oposição, liderada pelo peronismo, aproveitou o momento para questionar a credibilidade do governo e reativar investigações sobre o caso da criptomoeda $Libra, outro escândalo associado a Milei.
O governo enfrenta dificuldades no Congresso, onde perdeu 16 de 17 votações desde abril. A falta de maioria legislativa e a dissolução de alianças com a direita tradicional dificultam a aprovação de reformas. A eleição de outubro será crucial para determinar se Milei conseguirá ampliar sua base no Legislativo ou enfrentará dois anos de maior instabilidade política.
- Escândalo é conhecido por 94,5% dos argentinos, segundo M&F.
- 73,2% consideram as denúncias graves.
- Governo perdeu apoio de aliados tradicionais no Congresso.
- Oposição reativa investigação sobre criptomoeda $Libra.
Cenário econômico e perspectivas eleitorais
A intervenção no câmbio e o aumento das taxas de juros são tentativas de conter a crise, mas analistas do Morgan Stanley apontam que as eleições representam um obstáculo imediato para a economia. Apesar disso, eles consideram que as reformas de Milei ainda têm potencial de atrair investidores, desde que o governo supere o impacto do escândalo. A província de Buenos Aires, com sua forte influência peronista, será um teste decisivo para a popularidade de Milei, que caiu para 41%, segundo a consultoria Proyección.
A crise atual, combinada com a estagnação econômica e a perda de apoio político, coloca o governo em uma posição defensiva. A estratégia de Milei de manter um discurso anticorrupção enquanto enfrenta denúncias no círculo próximo ameaça sua legitimidade. A capacidade de recuperar a confiança dos eleitores e investidores dependerá das próximas semanas, com a votação em Buenos Aires como um marco crucial.






