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Buenos Aires, 3 de setembro de 2025 – O governo argentino, liderado por Javier Milei, anunciou uma mudança drástica na política cambial, com o Tesouro passando a intervir diretamente no mercado de dólares para estabilizar o peso. A decisão, oficializada em 2 de setembro, marca uma reviravolta em relação ao discurso de livre flutuação da moeda, defendido por Milei desde sua posse em dezembro de 2023. A medida responde à crescente volatilidade cambial, agravada pela falha na meta de reservas do Banco Central e denúncias de corrupção envolvendo o núcleo do governo, incluindo a irmã do presidente, Karina Milei. A ação ocorre em um momento crítico, às vésperas das eleições legislativas na província de Buenos Aires, que representam um teste para a popularidade do governo. A intervenção já estava em curso desde 20 de agosto, com vendas de cerca de 300 milhões de dólares, mas o anúncio público busca restabelecer a confiança dos investidores e conter a desvalorização do peso.

A guinada na política econômica gerou reações mistas no mercado e na sociedade. Enquanto alguns analistas veem a medida como um ajuste necessário diante da crise, outros apontam que ela contradiz a agenda liberal de Milei, que prometia reduzir a intervenção estatal. A pressão sobre o peso intensificou-se desde junho, com fatores como a proximidade das eleições e a deterioração da confiança devido a escândalos políticos.

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  • Principais motivações da intervenção:
    • Falha na meta de reservas líquidas, que ficou em -4,7 bilhões de dólares em junho, contra a meta de -1,1 bilhão acordada com o FMI.
    • Denúncias de corrupção envolvendo figuras próximas ao governo, como Karina Milei.
    • Aumento da volatilidade cambial, com o peso oscilando entre 1.000 e 1.400 por dólar.
    • Necessidade de restabelecer a confiança antes das eleições legislativas.

Reviravolta na política cambial

A decisão de intervir no mercado de câmbio representa um marco na gestão de Milei, que, durante meses, defendeu a flutuação livre do peso como pilar de sua política econômica. Em julho, o presidente e sua equipe chegaram a ridicularizar a ideia de intervenção, com a célebre frase “flotaaaaa, el dólar flotaaaaaa”, dita em coro durante uma coletiva. No entanto, a pressão sobre a moeda, agravada por fatores externos e internos, forçou uma mudança de curso. Patrícia Krause, economista-chefe da Coface, destacou que a volatilidade cambial já era esperada, especialmente com a aproximação das eleições legislativas, marcadas para ocorrer em Buenos Aires, onde reside cerca de 40% da população argentina. A economista apontou que a intervenção visa conter a desvalorização do peso, que caiu 1,6% em 2 de setembro, após perdas de até 2,8% na semana anterior.

O Tesouro, sob comando do secretário de Finanças, Pablo Quirno, justificou a medida como uma forma de garantir “liquidez e funcionamento normal” do mercado. Desde 20 de agosto, o governo já havia vendido cerca de 300 milhões de dólares para sustentar a moeda, mas a formalização da intervenção sinaliza um compromisso mais firme. A decisão, no entanto, não foi acompanhada de um plano detalhado, o que gerou incertezas entre investidores.

Impactos no mercado financeiro

A intervenção cambial teve reflexos imediatos no mercado financeiro argentino. Os títulos soberanos com vencimento em 2035 caíram 0,016 dólar, atingindo o menor nível desde abril, segundo dados da Bloomberg. A bolsa argentina, por outro lado, mostrou resiliência, com o índice S&P Merval registrando alta de 4,7% em 14 de abril, após o anúncio do fim do controle cambial. A desvalorização do peso, que chegou a 12% em um único dia em abril, reflete a corrida da população por dólares, um movimento comum em momentos de incerteza.

  • Reações do mercado:
    • Queda nos preços dos títulos soberanos, sinalizando desconfiança dos investidores.
    • Aumento na procura por dólares, pressionando ainda mais o peso.
    • Alta no índice S&P Merval, indicando otimismo com medidas liberalizantes.
    • Expectativa de maior entrada de capital estrangeiro com a flexibilização cambial.

Analistas alertam que a intervenção pode ser um paliativo. Walter Stoeppelwerth, diretor da Grit Capital Group, afirmou que as denúncias de corrupção, incluindo o caso envolvendo Karina Milei, expõem a fragilidade da confiança no governo. A eleição em Corrientes, onde o candidato apoiado por Milei ficou em quarto lugar, reforçou a percepção de que a estratégia do presidente de evitar alianças políticas pode custar caro.

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Contexto político e econômico

A mudança na política cambial ocorre em um momento delicado para Milei. Desde que assumiu, o presidente implementou uma agenda de austeridade, com cortes drásticos nos gastos públicos, redução de subsídios e demissão de 33 mil funcionários públicos. Essas medidas resultaram no primeiro superávit fiscal desde 2008, mas também geraram protestos e greves gerais, como a de 10 de abril, que paralisou o país. A inflação, que atingiu 289% em abril de 2024, caiu para 47,3% em maio de 2025, segundo o FMI, mas a pobreza ainda afeta 38,1% da população, com destaque para jovens e adolescentes.

A relação com o FMI também é central. O acordo de 20 bilhões de dólares, anunciado em abril, trouxe alívio temporário, mas a falha na meta de reservas líquidas em junho comprometeu a credibilidade do governo. A flexibilização das metas pelo FMI, permitindo que a Argentina termine 2025 com reservas negativas de até 2,6 bilhões de dólares, deu fôlego, mas não eliminou as pressões.

Desafios eleitorais à vista

As eleições legislativas em Buenos Aires, marcadas para 7 de setembro de 2025, são vistas como um referendo sobre os dois primeiros anos de Milei. A província, que concentra quase 40% da população, é historicamente dominada pelo movimento peronista, opositor ao governo. A derrota em Corrientes, aliada às denúncias de corrupção, aumenta a pressão sobre o presidente, que optou por não formar alianças políticas amplas.

  • Fatores que influenciam as eleições:
    • Desempenho econômico, com foco na estabilização do peso e da inflação.
    • Percepção pública sobre as denúncias de corrupção no governo.
    • Impacto dos cortes fiscais em serviços públicos, como saúde e educação.
    • Popularidade de Milei, que oscila entre 42% e 47% desde novembro de 2024.

A intervenção no câmbio, embora necessária, pode ser interpretada como um recuo ideológico, já que contradiz a promessa de um mercado livre. Analistas apontam que o sucesso da medida dependerá da capacidade do governo de comunicar os benefícios e evitar novas crises de confiança.

Perspectivas para o peso argentino

A estratégia de intervenção cambial busca estabilizar o peso em uma faixa entre 1.000 e 1.400 por dólar, mas o Banco Central já gastou 2,5 bilhões de dólares desde março para sustentar a moeda. A injeção de 12 bilhões de dólares do FMI, somada a empréstimos de bancos multilaterais e uma linha de swap com a China, reforça as reservas, mas a sobrevalorização do peso continua sendo um risco. A Capital Economics alerta que a moeda ainda está supervalorizada, o que pode prejudicar as exportações e agravar a escassez de dólares no longo prazo.

O governo também enfrenta o desafio de equilibrar a abertura econômica com a proteção da indústria local. A flexibilização das importações, adotada para reduzir preços, levou ao fechamento de empresas e aumento do desemprego, que se mantém acima de 7%. A promessa de Milei de eliminar o controle cambial em 2026 depende de um novo acordo com o FMI, mas a atual intervenção sugere que o caminho será mais complexo.

Reações da sociedade e do mercado

A sociedade argentina está dividida. Enquanto parte da população apoia as reformas de Milei, que reduziram a inflação mensal de 25,5% em dezembro de 2023 para 2,7% em outubro de 2024, outros criticam os cortes em serviços essenciais. A greve geral de abril, que afetou 20 mil passageiros e custou 3 milhões de dólares à Aerolíneas Argentinas, reflete a insatisfação com a austeridade. No mercado, a intervenção foi recebida com cautela, mas a alta do S&P Merval sugere otimismo com a possibilidade de maior entrada de capital estrangeiro.

  • Impactos sociais da política econômica:
    • Aumento do desemprego devido à abertura às importações.
    • Queda no consumo popular, com redução nas vendas de alimentos básicos.
    • Protestos contra cortes em aposentadorias e programas sociais.
    • Crescimento do turismo e vendas de carros, beneficiando setores de alto padrão.

A intervenção cambial é um teste para a credibilidade de Milei. A capacidade de estabilizar o peso sem comprometer a agenda liberal será crucial para manter o apoio popular e atrair investimentos.

Maria Clara é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Atriz.

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