Vacina contra VSR no SUS: 1,8 milhão de doses para gestantes protegem bebês de bronquiolite em novembroPor Carolina Costa
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O Ministério da Saúde anunciou nesta quarta-feira, 10 de setembro de 2025, em Brasília, a assinatura de uma parceria estratégica entre o Instituto Butantan e a farmacêutica Pfizer para a produção nacional da vacina contra o vírus sincicial respiratório, conhecido como VSR, principal causador de bronquiolite e pneumonias graves em bebês. Essa iniciativa visa oferecer o imunizante gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde a partir da segunda quinzena de novembro, direcionado inicialmente a gestantes a partir da 28ª semana de gestação, transferindo anticorpos para os recém-nascidos durante os primeiros seis meses de vida, período de maior risco de complicações respiratórias. A medida responde à alta incidência do vírus, que responde por 80% dos casos de bronquiolite e 60% das pneumonias em crianças menores de dois anos, com potencial para evitar cerca de 28 mil internações anuais no país. As primeiras 1,8 milhão de doses serão entregues até o fim do ano, começando com 832,5 mil unidades em novembro e mais um milhão em dezembro, beneficiando aproximadamente dois milhões de bebês nascidos vivos. O acordo de transferência de tecnologia fortalece a soberania em saúde pública, garantindo inovação local e acesso equitativo, especialmente após lições da pandemia de Covid-19 sobre dependência de insumos importados.
Autoridades destacam que o VSR circula com maior intensidade no inverno, mas surtos recentes ocorreram em épocas atípicas devido à redução de imunidade infantil durante o isolamento social. Essa vacina, aprovada pela Anvisa em abril de 2024 sob o nome Abrysvo, representa um avanço significativo, complementando opções existentes como o anticorpo monoclonal palivizumabe, até então limitado a prematuros extremos e crianças com comorbidades graves.

- Entre 2018 e 2024, o vírus levou a 83 mil internações de bebês prematuros no Brasil.
- Anualmente, cerca de 20 mil crianças menores de um ano demandam hospitalização por complicações do VSR.
- Prematuros enfrentam risco sete vezes maior de mortalidade comparado a bebês a termo.
O imunizante atua estimulando a resposta imune materna, que passa pela placenta, oferecendo proteção passiva e imediata aos filhos. Estudos globais confirmam eficácia de até 82% contra formas graves em bebês de até três meses, mantendo 69% até os seis meses.
Parceria Butantan-Pfizer impulsiona produção local
A assinatura do acordo ocorreu no Ministério da Saúde, com a presença do ministro Alexandre Padilha, que enfatizou a importância da cooperação entre instituições públicas e privadas para incorporar inovações ao SUS. Essa transferência de tecnologia permite que o Brasil manufacture o imunizante, reduzindo custos a longo prazo e gerando empregos qualificados em São Paulo, sede do Butantan. A iniciativa alinha-se às recomendações da Organização Mundial da Saúde, que orienta a aplicação de uma dose única entre a 28ª e 36ª semana de gestação, sem necessidade de reforços em gestações subsequentes por enquanto, embora o comitê assessor do ministério planeje avaliações futuras baseadas em dados locais.
Padilha destacou que a vacina representa uma proteção dupla, salvaguardando tanto a mãe quanto o bebê, e reforça o compromisso com a equidade no acesso a tratamentos avançados. O processo de incorporação começou em fevereiro de 2025, via Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS, que analisou evidências de eficácia e custo-benefício, optando por priorizar gestantes como estratégia principal de prevenção.
Além da vacina, o Ministério avança em outra frente: a produção nacional do natalizumabe, medicamento biológico para esclerose múltipla de alta atividade, por meio de parceria entre Butantan e Sandoz. Essa droga, disponível no SUS desde 2020, atende 85% dos casos da doença, que afeta principalmente adultos entre 18 e 55 anos, mas enfrenta limitação de fornecedores. A PDP visa ampliar a oferta, evitando interrupções no tratamento.
O foco na produção local surge de vulnerabilidades expostas pela pandemia, quando tarifas abusivas em exportações brasileiras comprometeram suprimentos. Agora, o governo coordena esforços multipartidários, envolvendo estados como São Paulo, para garantir autonomia em vacinas e biológicos essenciais.
Impacto do VSR em crianças vulneráveis
O vírus sincicial respiratório infecta praticamente todas as crianças antes dos dois anos, segundo dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, adaptados ao contexto brasileiro. Na maioria dos casos, os sintomas se assemelham a um resfriado comum, com recuperação espontânea, mas em bebês prematuros ou com baixa imunidade, evolui para bronquiolite, inflamação dos brônquios que obstrui vias aéreas, dificultando alimentação e respiração. Hospitais registram picos de atendimento em UTIs pediátricas durante esses episódios, sobrecarregando equipes médicas.
No Brasil, a sazonalidade mudou pós-Covid-19: o isolamento reduziu a exposição inicial, deixando uma geração de crianças suscetíveis a surtos fora do inverno tradicional. Registros de 2024 mostram aumento de 15% em internações não sazonais, com maior prevalência em regiões Sul e Sudeste, onde o clima úmido favorece a transmissão. Médicos relatam que uma em cada cinco crianças infectadas requer atendimento ambulatorial, e uma em cada 50 enfrenta hospitalização no primeiro ano.
A bronquiolite manifesta-se com chiado no peito, febre baixa e falta de ar, exigindo oxigênio suplementar em casos moderados. Prematuros, que representam 12% dos nascimentos no país, sofrem mais, com taxa de mortalidade sete vezes superior. A vacina materna mitiga isso ao fornecer anticorpos prontos, sem ativar o sistema imune do bebê prematuramente.
Especialistas observam que o VSR não só causa morbidade imediata, mas pode predispor a infecções recorrentes, afetando o desenvolvimento pulmonar a longo prazo. A introdução da imunização no SUS alivia essa carga, especialmente em áreas rurais com acesso limitado a UTIs.
Opções preventivas além da vacinação
Embora a vacina marque um avanço, medidas cotidianas complementam a proteção contra o VSR, especialmente em ambientes familiares. A higiene surge como barreira inicial, com ênfase na lavagem frequente de mãos por todos os contatos próximos ao bebê. Evitar aglomerações em épocas de circulação viral reduz o risco de transmissão, que ocorre por gotículas respiratórias ou superfícies contaminadas.
Pais recebem orientações para monitorar sinais precoces, como irritabilidade excessiva ou recusa alimentar, permitindo intervenção rápida em unidades básicas de saúde. Amamentação exclusiva nos primeiros meses fortalece a imunidade natural, transferindo fatores protetores via leite materno. Evitar exposição a fumantes ou pessoas com sintomas gripais mantém o ambiente seguro.
- Mantenha distância de indivíduos com coriza ou tosse perto de recém-nascidos.
- Limpe brinquedos e superfícies com desinfetantes suaves diariamente.
- Incentive a vacinação completa da gestante contra outras infecções respiratórias, como influenza.
- Monitore bebês em creches para isolamento imediato de casos suspeitos.
- Consulte pediatras sobre uso de umidificadores em quartos secos para aliviar vias aéreas.
Essas práticas, aliadas à imunização, formam uma rede de defesa robusta, reduzindo a pressão sobre o sistema hospitalar. Comunidades urbanas, com alta densidade populacional, beneficiam-se mais, mas campanhas educativas estendem o alcance a periferias.
Tecnologias complementares no SUS
A incorporação da vacina Abrysvo ao SUS ocorre ao lado de outras inovações contra o VSR, ampliando o arsenal preventivo. O anticorpo monoclonal nirsevimabe, aprovado pela Anvisa em 2023 e conhecido como Beyfortus, da Sanofi, oferece proteção direta a recém-nascidos e crianças até 24 meses, em dose única intramuscular. Diferente da vacina, ele fornece anticorpos prontos, ideais para prematuros ou bebês com cardiopatias congênitas, sem depender da resposta imune ativa.
A Conitec avaliou essas tecnologias em fevereiro de 2025, optando por estratégias combinadas: a vacina para gestantes cobre a população geral, enquanto o nirsevimabe atende grupos de alto risco, potencializando a cobertura para 300 mil crianças adicionais anualmente. O palivizumabe, opção anterior, limita-se a prematuros com até 28 semanas de gestação, demandando múltiplas doses sazonais, o que encarecia o programa.
Esses imunobiológicos diferem em mecanismo: a vacina estimula produção endógena de anticorpos, enquanto monoclonais agem como terapia passiva. Juntos, eles visam reduzir em 70% as hospitalizações por VSR em bebês vulneráveis, conforme projeções baseadas em trials internacionais. O SUS distribui esses recursos via Programa Nacional de Imunizações, com logística adaptada a regiões remotas.
A transição para produção nacional, via Butantan, otimiza suprimentos, evitando escassez vista em anos anteriores. Equipes de saúde capacitam profissionais para aplicação correta, monitorando eventos adversos raros, como reações locais leves.
Custos na rede privada e acesso equitativo
Enquanto o SUS democratiza o imunizante, a rede particular já oferece a vacina desde abril de 2024, com preços variando por faixa etária e peso. Gestantes pagam em média R$ 1.810 por dose, enquanto para bebês até dois anos, o custo chega a R$ 3.550 para pesos até cinco quilos e R$ 3.680 acima disso. Adultos idosos acima de 60 anos arcam com R$ 1.640, refletindo a indicação bivalente da Abrysvo para esses grupos.
Esses valores posicionam a vacinação como opção premium, mas o lançamento no SUS nivela o campo, priorizando equidade. Famílias de baixa renda, que representam 40% dos atendimentos em emergências por VSR, ganham prioridade, aliviando desigualdades regionais. Em capitais como São Paulo e Rio de Janeiro, clínicas privadas registram alta demanda, mas o programa público estende cobertura a 5.570 municípios.
A Pfizer, em acordo com o Butantan, compromete-se com volumes iniciais importados, transitando para fabricação local em 2026. Isso corta custos em até 50% a médio prazo, beneficiando orçamentos públicos. Consumidores particulares devem consultar bula para contraindicações, como histórico de reações graves a componentes.
O modelo híbrido incentiva adesão ampla, com campanhas integradas entre redes pública e privada para maximizar imunização.
Histórico global de vacinas contra VSR
A jornada para uma vacina eficaz contra o VSR remonta aos anos 1960, quando trials iniciais falharam, causando piora da doença em vacinados. Décadas de pesquisa culminaram em 2023, com aprovações nos Estados Unidos para a Arexvy, da GSK, inicialmente para idosos acima de 60 anos. A Abrysvo seguiu, expandindo para imunização materna, aprovada pela FDA em agosto de 2023 e pela Anvisa em 2024.
Esses marcos refletem avanços em proteínas pré-fusão do vírus, chave para neutralização. No Brasil, a incorporação rápida demonstra agilidade regulatória, alinhada a nações como EUA e Europa. A Pfizer liderou com estudos de fase 3 envolvendo sete mil gestantes, comprovando redução de 81,8% em visitas médicas por VSR em bebês.
Globalmente, o VSR causa 3,4 milhões de hospitalizações infantis anuais, com 118 mil mortes, segundo a OMS. Vacinas como a Abrysvo cortam esse fardo em 70%, especialmente em países de renda média como o Brasil. A transferência tecnológica aqui acelera adoção em América Latina, via acordos com a OPAS.
Pesquisas continuam para formulações orais ou intranasais, mas o foco atual reside em escalar produção para cobrir 90% das gestantes elegíveis.
Medidas de vigilância e monitoramento
O Ministério da Saúde implementa rede de sentinelas para rastrear circulação do VSR, integrando dados de laboratórios regionais. Hospitais notificam casos graves via Sistema de Informação de Agravos de Notificação, permitindo ajustes no calendário vacinal. Equipes do Programa Nacional de Imunizações treinam agentes comunitários para educação pré-natal, enfatizando adesão.
Eventos adversos pós-vacinação seguem protocolo de farmacovigilância, com relatórios à Anvisa em até 72 horas para reações graves. Até o momento, trials globais reportam perfis seguros, com miálgias leves em 10% dos casos. O monitoramento longitudinal avaliará durabilidade da proteção em gestações múltiplas.
Regiões Norte e Nordeste, com maior prevalência de prematuridade, recebem lotes prioritários. Parcerias com sociedades médicas, como a Brasileira de Pediatria, disseminam guidelines para diagnóstico diferencial entre VSR e outros vírus, como influenza.
Essa estrutura assegura resposta ágil a variações epidemiológicas, mantendo o SUS como pilar de saúde coletiva.







