Interpol prende brasileira foragida por homicídio de ex-marido em Pernambuco após 20 anos na ItáliaPor Bruna
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Autoridades italianas detiveram Flávia Alves Musto na província de Pisa no último sábado, 13 de setembro, em uma operação coordenada pela Interpol que encerra anos de buscas internacionais. A mulher, de 48 anos, enfrentava mandado de prisão desde 2019 por ser considerada a mandante do assassinato de Isaías de Lira, ocorrido em 14 de agosto de 2005, no bairro Maranguape II, em Paulista, Pernambuco. O crime, classificado como homicídio qualificado com motivo fútil e impossibilidade de defesa da vítima, resultou em uma condenação inicial de 29 anos de reclusão, reduzida para 21 anos após recurso.
O caso ganhou repercussão ao revelar um relacionamento marcado por turbulências, com sete separações em apenas dois anos de casamento. Isaías, então com 27 anos, foi vítima de um sequestro encenado por pistoleiros disfarçados de policiais, que o levaram de um bar na Zona Norte do Recife e o executaram a tiros em uma estrada de terra. A prisão de Flávia ocorre em meio a um pedido formal de extradição enviado pela Justiça pernambucana, que agora aguarda análise pelo Tribunal de Apelação de Florença.
- Motivação central: recusa em reatar o relacionamento pela oitava vez, agravada por ciúmes e descoberta de novo namoro da vítima.
- Método do crime: invasão a um estabelecimento comercial com algemas e arma, simulando prisão por tráfico de drogas.
- Pena aplicada: 21 anos por homicídio qualificado, com agravantes de futilidade e recurso que impediu defesa.
- Local da detenção: província de Pisa, onde Flávia vivia discretamente com um cidadão italiano desde pelo menos 2015.
A captura destaca a eficiência da lista vermelha da Interpol, mecanismo que alerta forças policiais globais sobre foragidos procurados para extradição. Flávia, natural de Sobradinho, na Bahia, havia assumido identidades variadas ao longo dos anos, incluindo Flávia Alves de Souza e Flávia Alves de Lira, antes de adotar o sobrenome Musto após novo casamento.
Dinâmica do relacionamento turbulento
O casamento entre Flávia e Isaías começou em 2001, quando o casal se instalou no bairro de Aldeia, em Camaragibe, na Região Metropolitana do Recife. Testemunhas da época descreveram o vínculo como instável desde o início, com discussões frequentes que culminavam em separações repetidas. Flávia exibia traços de possessividade extrema, frequentemente questionando os passos do companheiro e reagindo com agressividade a qualquer sinal de independência dele.
Isaías, por sua vez, optou pelo divórcio definitivo após descobrir uma traição cometida por Flávia, fato que aprofundou o rancor mútuo. Durante mais de um ano, ele relatou perseguições constantes da ex-esposa, que se recusava a aceitar o término e monitorava seus movimentos em locais públicos. Registros processuais indicam que, dias antes do crime, Flávia foi vista indagando sobre os hábitos de Isaías em Dois Irmãos, bairro onde ele frequentava um bar para encontros sociais.
A tensão escalou quando Flávia soube de um novo relacionamento dele, o que serviu como estopim para o planejamento da execução. Investigadores apontaram que ela contratou profissionais para o ato, pagando valores não divulgados em troca da simulação de uma abordagem policial. O episódio ocorreu na madrugada de 13 de agosto de 2005, véspera do aniversário de 27 anos de Isaías, transformando uma comemoração em tragédia.

Sequestro encenado e execução na estrada
Dois homens armados invadiram o bar em Dois Irmãos, Recife, por volta das 2 horas da manhã, identificando-se como agentes da Delegacia de Entorpecentes de Casa Amarela. Eles alegaram que Isaías estava envolvido em um esquema de tráfico ligado a um amigo chamado Dennis, já detido. A vítima, confusa, questionou a acusação, mas foi algemada e forçada a entrar em um carro Polo prata.
Amigos presentes tentaram intervir, exigindo identificação oficial, mas um dos sequestradores disparou contra o pé de um deles para intimidar o grupo. Isaías resistiu ao ser arrastado para o veículo, ouvindo sussurros ameaçadores que o coagiram a obedecer. O carro acelerou pela BR-101, deixando os testemunhas para trás, que tentaram seguir de carro mas perderam o rastro na escuridão.
O corpo de Isaías foi localizado na manhã seguinte, 14 de agosto, pela polícia na Estrada de Jaguarana, uma via de terra poeirenta no bairro Maranguape II, Paulista. Peritos confirmaram múltiplos tiros à queima-roupa, com sinais de execução premeditada. A cena do crime revelou pegadas e marcas de pneus que ligavam o veículo usado no sequestro, fortalecendo as provas contra Flávia como mandante.
Inquérito prolongado e avanços judiciais
As investigações iniciais enfrentaram obstáculos, com o inquérito se estendendo por sete anos e passando por seis delegados diferentes. A demora gerou frustração na família de Isaías, especialmente entre as irmãs, que acompanhavam o processo de perto. Allira Lira, assistente jurídica e irmã da vítima, decidiu cursar Direito em 2011 para pressionar as autoridades e garantir que o caso não caísse no esquecimento.
O ponto de virada veio em 2012, quando Allira conectou-se com um promotor responsável pelo acompanhamento, acelerando a conclusão do inquérito. Isso levou à prisão preventiva de Flávia naquele ano, que permaneceu detida até 2014, quando o prazo legal expirou e ela foi liberada para responder em liberdade. No entanto, a ré deixou de comparecer às audiências subsequentes, configurando fuga em 2015.
Em 2019, o Tribunal do Júri de Paulista proferiu a condenação por homicídio qualificado, destacando o motivo fútil — ciúmes possessivo — e o uso de recurso que impossibilitou qualquer chance de defesa para Isaías. A sentença inicial de 29 anos foi ajustada para 21 após análise de recurso no Tribunal de Justiça de Pernambuco. Um novo apelo tramita na 1ª Vice-Presidência do TJPE, aguardando remessa ao Superior Tribunal de Justiça para verificação de requisitos.
- Duração do inquérito: sete anos, com trocas de delegados devido a lentidão administrativa.
- Prisão preventiva: decretada em 2012, revogada em 2014 por esgotamento de prazo.
- Condenação final: 21 anos de reclusão, com possibilidade de regime semiaberto após cumprimento inicial.
- Recursos pendentes: análise no STJ para eventual redução adicional da pena.
Descoberta casual e acionamento da Interpol
O paradeiro de Flávia permaneceu desconhecido por uma década, até o início de setembro de 2025, quando Allira Lira, ao finalizar um livro sobre o caso, consultou registros civis para enriquecer o relato. Com auxílio de um amigo detetive, ela acessou o CPF da ex-cunhada em um cartório de Petrolina, Sertão de Pernambuco, revelando uma certidão de casamento com um italiano sob o nome Flávia Alves Musto.
A pesquisa nas redes sociais confirmou que o marido residia em Pisa, uma cidade toscana conhecida por sua torre inclinada e fluxo turístico constante. Allira compilou as evidências e enviou ao Ministério Público de Pernambuco, exigindo ação imediata. O Gaeco, grupo especializado em organizações criminosas, articulou com a Promotoria para incluir Flávia na lista vermelha da Interpol, mecanismo que prioriza capturas internacionais.
A detenção ocorreu em 13 de setembro, em uma residência discreta na província de Pisa, onde Flávia levava uma vida rotineira, distante das origens pernambucanas. Autoridades locais a transferiram para uma unidade prisional, sob custódia do Departamento de Segurança Pública da Interpol em Roma. O Ministério da Justiça brasileiro, via DRCI, iniciou os trâmites de extradição, prevendo cooperação com o Tribunal de Apelação de Florença para agilizar o processo.
Procedimentos de extradição em andamento
Flávia Alves Musto permanece detida em território italiano, onde as leis locais garantem direitos processuais antes de qualquer transferência. O pedido de extradição, formalizado pela Vara Criminal de Paulista sob o juiz Thiago Fernandes Cintra, enfatiza a gravidade do crime e a necessidade de cumprimento da pena no Brasil. Documentos judiciais destacam que a ré violou condições de liberdade provisória ao fugir, justificando a cooperação bilateral.
A Interpol, por meio de sua difusão vermelha, facilitou a troca de informações entre o Núcleo de Cooperação Internacional da Polícia Federal brasileira e as forças da Toscana. Especialistas em direito internacional preveem que o processo pode durar semanas, dependendo de recursos da defesa de Flávia, cujo contato o g1 não conseguiu estabelecer até o momento.
O caso reforça a rede global de perseguição a foragidos, com mais de 7 mil nomes na lista vermelha anualmente, segundo dados da organização. No contexto pernambucano, ele ilustra como investigações familiares podem impulsionar ações oficiais, transformando uma busca pessoal em operação transnacional.
- Etapas da extradição: análise inicial em Florença, possível audiência de defesa e homologação pelo Ministério da Justiça italiano.
- Direitos da detida: acesso a intérprete, advogado e revisão de provas sob convenções bilaterais Brasil-Itália.
- Prazo estimado: de 30 a 90 dias, sujeito a apelações que prolonguem a estadia na Europa.
- Cooperação envolvida: Gaeco-PE, PF brasileira e polícia toscana, com suporte da Interpol em Lyon.
A família de Isaías expressa alívio cauteloso, enquanto aguarda o retorno de Flávia para o sistema prisional brasileiro. O episódio, que começou em uma estrada esquecida de Paulista, agora cruza oceanos, simbolizando a persistência da justiça em casos de violência doméstica extrema.







