Guerra no Rio de Janeiro eleva mortes a 128 com 64 corpos retirados da mata por moradoresPor Luís Henrique Costa
Atualizado 8 min de leitura
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Moradores do Complexo da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro, retiraram pelo menos 64 corpos de áreas de mata durante a madrugada desta quarta-feira (29) e os levaram para a Praça São Lucas, na Estrada José Rucas. A ação ocorre um dia após a megaoperação policial nos complexos da Penha e do Alemão, deflagrada para combater o Comando Vermelho e cumprir mandados de prisão. O governo estadual registrou inicialmente 60 criminosos e 4 policiais mortos, mas os novos achados elevam o total para 128 óbitos.
A operação, batizada de Contenção, mobilizou cerca de 2.500 agentes das polícias Civil e Militar em uma área equivalente a duas vezes o tamanho de Copacabana. Confrontos intensos aconteceram na Serra da Misericórdia, especialmente na região da Vacaria, onde os corpos foram encontrados. Autoridades confirmam que uma perícia determinará se esses óbitos estão ligados diretamente à ação policial.
- Principais alvos: 100 mandados de prisão contra líderes do Comando Vermelho, incluindo foragidos de outros estados como Pará.
- Apreensões: 93 fuzis, além de munições e explosivos usados em retaliações.
- Presos: 81 indivíduos, com dois baleados sob custódia no Hospital Estadual Getúlio Vargas.

O secretário de Segurança Pública, Victor Santos, destacou que a iniciativa visa conter a expansão territorial da facção, que controla 26 comunidades na região. O governador Cláudio Castro classificou a operação como a maior em 15 anos, mas lamentou a perda de agentes.
Retirada dos corpos facilita identificação
Moradores transportaram os corpos da mata para a praça com o objetivo de agilizar o reconhecimento por familiares. Os cadáveres, todos de homens, foram deixados sem camisas para expor tatuagens e cicatrizes. Muitos apresentavam ferimentos a bala, e alguns tinham o rosto alterado.
A Polícia Civil organizou o atendimento às famílias no prédio do Detran, ao lado do Instituto Médico-Legal (IML) no Centro do Rio, a partir das 8h. O acesso ao IML ficou restrito à polícia e ao Ministério Público durante os exames. Necropsias não relacionadas à operação foram transferidas para o IML de Niterói.
Perícia investiga relação com confrontos
Autoridades realizam análises balísticas nos 64 corpos encontrados na mata da Vacaria. O secretário da Polícia Militar, coronel Marcelo de Menezes Nogueira, informou que esses óbitos não integram o balanço inicial de 64 mortes. Se confirmada a ligação, o número total pode superar as projeções atuais, demandando mais recursos para investigações.
Relatos indicam que os confrontos se concentraram em trilhas estreitas da Serra da Misericórdia, onde traficantes usaram barricadas e drones para lançar explosivos. Equipes do Batalhão de Operações Policiais (BOPE) avançaram por essas áreas, resultando em trocas de tiros prolongadas. O Instituto de Segurança Pública (ISP) registrará os dados finais após a conclusão dos laudos.
O Ministério Público acompanha o processo para garantir transparência nos exames. Especialistas em balística examinarão trajetórias de projéteis e condições dos ferimentos. Até o momento, não há indícios de envolvimento de civis inocentes, mas a verificação prossegue.
Apreensões marcam saldo da operação
Agentes recolheram 93 fuzis durante incursões nos complexos da Penha e do Alemão, superando metas anuais de apreensões. Os armamentos incluíam modelos de calibre alto, usados em emboscadas contra as equipes policiais. Além disso, 81 prisões ocorreram em 180 endereços investigados por um ano.
Entre os detidos, destaca-se Thiago do Nascimento Mendes, conhecido como Belão do Quitungo, apontado como chefe local do Comando Vermelho. Outro preso, Nicolas Fernandes Soares, atuava como operador financeiro da facção. Dois suspeitos baleados recebem tratamento no Hospital da Penha sob custódia.
A operação também desmantelou depósitos de munição e explosivos artesanais. Criminosos retaliaram com bloqueios em vias da Zona Norte, Oeste e Sudoeste, afetando o transporte público. O Centro de Operações Rio elevou o estágio de alerta para nível 2.
Policiais mortos em ação recebem homenagens
Quatro agentes perderam a vida nos confrontos iniciais da megaoperação: dois civis e dois militares do BOPE. O delegado Marcus Vinícius Cardoso, conhecido como Máskara, de 51 anos, foi baleado na entrada do Complexo da Penha. Seu parceiro, Rodrigo Velloso Cabral, de 34 anos, morreu no mesmo incidente.
Os sargentos Cleiton Serafim, de 42 anos, e Heber Fonseca, de 39 anos, foram atingidos durante avanço no Alemão. Familiares prestaram depoimentos sobre o compromisso dos policiais com a segurança pública. O governador Cláudio Castro decretou luto oficial de três dias e prometeu suporte às famílias.
Um delegado permanece em estado grave no Hospital Getúlio Vargas. A corporação suspendeu atividades administrativas para reforçar patrulhas nas ruas. Homenagens ocorrerão em cerimônias no Quartel do Comando Geral da PM.
Retaliações afetam mobilidade urbana
Bloqueios de ruas por criminosos paralisaram ônibus em mais de 50 pontos da cidade. A Linha Amarela e a Avenida Braz de Pina registraram interdições prolongadas, forçando pedestres a caminhadas longas. Corridas de aplicativo registraram aumentos de até 100% nos preços.
O transporte coletivo operou com 70% de frota reduzida na Zona Norte. Estudantes de universidades locais, como a UERJ, tiveram aulas suspensas. Comércio em bairros adjacentes fechou portas durante o dia.
Viaturas da PM foram posicionadas em 12 pontos estratégicos ao longo de 13 km na região. O fluxo de veículos diminuiu 40% em comparação à média semanal, segundo dados do Centro de Operações.
Entidades demandam apuração detalhada
Organizações de direitos humanos emitiram notas cobrando relatórios completos da operação. Elas destacam a necessidade de investigação sobre a letalidade policial no estado. O Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) protocolou pedido ao Supremo Tribunal Federal (STF) por explicações do governo.
O ministro Alexandre de Moraes concedeu 24 horas para manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR). A ação integra a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) das Favelas, que regula operações em comunidades. Grupos como Anistia Internacional e Justiça Global classificam o episódio como parte de um padrão histórico.
O Geni-UFF, grupo de estudos da Universidade Federal Fluminense, registrou 707 chacinas policiais desde 2007 na região metropolitana. Essas ações causaram 2.905 mortes civis e 31 de policiais. A entidade monitora o caso para atualizações estatísticas.
A megaoperação expõe tensões persistentes entre forças de segurança e facções criminosas na Zona Norte do Rio de Janeiro, com impactos diretos na rotina de cerca de 280 mil moradores dos complexos da Penha e do Alemão. Iniciada após investigações de um ano pela Delegacia de Repressão Especializada (DRE), a ação visava desarticular redes de tráfico que se expandem para outros estados. No entanto, os confrontos revelaram a complexidade do terreno, com trilhas íngremes e vegetação densa favorecendo emboscadas, o que prolongou os tiroteios por horas e elevou o risco para todos os envolvidos. Além dos óbitos confirmados, feridos civis foram atendidos em unidades de saúde próximas, e relatos de danos a residências surgiram de moradores que encontraram perfurações em paredes e eletrodomésticos. O governo estadual reforça que a operação segue em curso, com foco em prisões pendentes, enquanto o Ministério da Justiça monitora a situação sem intervenção direta solicitada.
Essa dinâmica reflete anos de disputas territoriais, onde o Comando Vermelho consolida controle por meio de arsenais pesados, contrabalançados por respostas policiais de grande escala. Dados do Instituto de Segurança Pública indicam que apreensões como as de fuzis contribuem para redução pontual de homicídios, mas especialistas apontam para a necessidade de políticas integradas de inteligência e prevenção social para mitigar ciclos de violência. No dia seguinte, a praça São Lucas serviu não apenas como ponto de identificação, mas como símbolo de demandas por transparência, com famílias aguardando laudos que possam esclarecer trajetórias de balas e horários exatos dos incidentes. Autoridades preveem que os resultados finais, incluindo balanço de presos e bens confiscados, serão divulgados em coletiva nos próximos dias, enquanto a cidade ajusta rotinas afetadas pelas retaliações.
Bloqueios e impactos no cotidiano
Moradores enfrentaram dificuldades para acessar serviços básicos após os bloqueios. Escolas e comércios na região operaram com capacidade reduzida.
O transporte público registrou atrasos de até duas horas em linhas principais.
Preparativos prévios à incursão
A operação demandou planejamento de 60 dias com uso de drones para mapeamento. Equipes treinaram simulações em terrenos semelhantes à serra.
Inteligência identificou 30 alvos interestaduais escondidos nas comunidades.







