Francisco Cuoco, ícone de novelas como Pecado Capital, falece em São Paulo aos 91 anos de idadePor Luís Henrique Costa
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A teledramaturgia brasileira perdeu um de seus maiores nomes. O ator Francisco Cuoco morreu aos 91 anos na quinta-feira, 19 de junho de 2025, na cidade de São Paulo. A causa do falecimento, ocorrido às 14h54 no Hospital Israelita Albert Einstein, foi falência múltipla de órgãos, conforme confirmado pela família em comunicado oficial.
Com uma carreira que ultrapassou seis décadas, Cuoco se tornou um dos rostos mais conhecidos e admirados da televisão nacional. O artista estava internado na unidade de saúde localizada na zona sul da capital paulista e, segundo seus familiares, partiu de maneira serena, acompanhado por parentes próximos em seus momentos finais.
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O velório foi programado para a sexta-feira, 20 de junho, no Funeral Home, na Bela Vista, e foi aberto ao público para que fãs e colegas pudessem prestar suas últimas homenagens. A cerimônia de sepultamento, no entanto, foi restrita apenas a familiares e amigos íntimos, atendendo a um pedido da família por privacidade.
Uma jornada iniciada no teatro paulistano
Nascido em 29 de novembro de 1933 no bairro do Brás, em São Paulo, Francisco Cuoco era filho de um feirante italiano e de uma dona de casa, crescendo em um ambiente simples. Desde a infância, seu fascínio pelas artes era evidente, manifestado em pequenas apresentações que improvisava, inspirado pelos circos que visitavam sua vizinhança. Aos 20 anos, tomou a decisão que mudaria sua vida: abandonou o curso de Direito para ingressar na prestigiada Escola de Arte Dramática de São Paulo (EAD). Após quatro anos de intensa formação, seu talento o levou a integrar companhias de grande renome, como o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) e, posteriormente, o Teatro dos Sete, em 1959, onde dividiu o palco com futuras lendas da dramaturgia, como Fernanda Montenegro e Sérgio Britto. Foi nos palcos que ele aprimorou sua técnica, destacando-se em peças icônicas como “O Beijo no Asfalto”, de Nelson Rodrigues, e recebendo prêmios por suas atuações, construindo uma base sólida que definiria sua inteligência cênica e a profundidade de seus personagens ao longo de toda a carreira.
A consolidação como galã na televisão
A transição de Francisco Cuoco para a televisão ocorreu de forma natural, começando com participações nos teleteatros ao vivo do Grande Teatro Tupi. Esse formato exigia uma capacidade de improvisação e uma presença de palco que ele já dominava, preparando-o para os desafios da teledramaturgia seriada. Sua estreia em novelas aconteceu em 1964, com “Marcados pelo Amor”, na TV Record, mas foi em “Redenção”, na TV Excelsior, que ele alcançou grande notoriedade, participando de uma das produções mais longas e bem-sucedidas da época.
A chegada à Globo em 1970, com a novela “Assim na Terra Como no Céu”, marcou o início de uma era de ouro em sua carreira. No papel do padre Vitor, ele já demonstrava o carisma e a força interpretativa que o transformariam em um dos principais galãs da emissora. Sua voz grave e seu olhar expressivo cativaram o público, e ele rapidamente se tornou a escolha ideal para protagonistas complexos e apaixonantes, solidificando uma imagem que o acompanharia por décadas.
Personagens que marcaram uma geração
A parceria com a autora Janete Clair foi fundamental para consolidar o status de Cuoco como um ícone da televisão. Ela escreveu diversos protagonistas pensando especificamente nele, resultando em uma sequência de sucessos estrondosos. Em 1972, ele deu vida ao ambicioso Cristiano Vilhena em “Selva de Pedra”, formando um par romântico inesquecível com Regina Duarte e paralisando o país com a trama.
Três anos depois, em 1975, ele interpretou o taxista Carlão em “Pecado Capital”, um personagem que se conectou profundamente com o público por sua generosidade e dilemas morais. Carlão representava o homem comum brasileiro, e a atuação de Cuoco conferiu uma humanidade que transformou a novela em um clássico instantâneo.
Outro papel memorável foi o do vidente Herculano Quintanilha em “O Astro”, de 1977. O personagem misterioso e carismático rendeu ao ator ainda mais reconhecimento e se tornou tão marcante que ele foi convidado a participar do remake da obra em 2011, em uma participação especial que homenageou seu trabalho original.
Além das novelas: incursões no cinema e no palco
Embora a televisão tenha sido seu principal campo de atuação, Francisco Cuoco também deixou sua marca no cinema nacional. Entre o final dos anos 1990 e o início dos anos 2000, ele diversificou sua carreira, participando de filmes importantes que exploraram outras facetas de seu talento como ator.
Produções como “Traição” (1998), “Gêmeas” (1999) e “A Partilha” (2001) mostraram sua versatilidade ao trabalhar com diretores renomados, como Daniel Filho, e em gêneros que iam do drama à comédia, provando que seu talento não se limitava ao formato das novelas.
Após um longo período dedicado exclusivamente às telas, Cuoco retornou aos palcos em 2005, na peça “Três Homens Baixos”, demonstrando que sua paixão pelo teatro permanecia viva. Sua última aparição na TV aconteceu em 2023, em uma participação na série “No Corre”, do Multishow, encerrando uma carreira multifacetada.
Essa capacidade de transitar entre diferentes mídias e linguagens artísticas reforçou sua imagem como um ator completo, cuja dedicação ao ofício serviu de inspiração para inúmeras gerações de artistas que vieram depois dele, consolidando seu legado na cultura brasileira.
Vida pessoal e os últimos anos
Nos últimos anos de sua vida, Francisco Cuoco optou por um estilo de vida mais reservado, afastado dos holofotes. Ele morava com sua irmã na capital paulista, onde recebia os cuidados necessários devido às complicações de saúde decorrentes da idade avançada. Mesmo com as limitações, mantinha o bom humor e as memórias de uma trajetória profissional intensa e vitoriosa.
O ator deixou três filhos, Tatiana, Rodrigo e Diogo, além de cinco netos. A família, que sempre foi seu porto seguro, destacou a serenidade do artista em seus momentos finais, reforçando o perfil discreto que ele cultivou em sua vida pessoal, apesar da imensa fama.
Legado e homenagens da classe artística
A notícia de seu falecimento gerou uma onda de comoção no meio artístico. Colegas de profissão, diretores e autores usaram as redes sociais e deram entrevistas para exaltar o talento e o profissionalismo de Francisco Cuoco. O autor Walcyr Carrasco o descreveu como um “ícone que ajudou a construir a história da nossa televisão”, enquanto a TV Globo exibiu um tributo especial em sua programação, relembrando seus papéis mais marcantes e sua contribuição inestimável para a dramaturgia.
A voz inconfundível e a técnica apurada
Um dos traços mais marcantes de Francisco Cuoco era sua voz grave e inconfundível, que se tornou uma de suas assinaturas como ator. Essa característica, aliada a uma dicção perfeita, conferia uma autoridade e uma profundidade únicas a seus personagens, fossem eles heróis ou vilões. Sua formação teatral foi crucial para o desenvolvimento de uma técnica apurada, baseada na construção interna dos personagens e na inteligência cênica para dominar tanto o palco quanto o estúdio de televisão.
Diferentemente de muitos galãs de sua época, Cuoco não dependia apenas da aparência física. Ele emprestava complexidade e verdade a cada papel, estudando minuciosamente os textos e as motivações de seus personagens. Essa dedicação ao ofício o transformou não apenas em um sucesso de público, mas também em uma referência de qualidade e profissionalismo para seus pares, deixando um legado que vai muito além dos tipos que interpretou.















