Uma vaca de 13 anos chamada Veronika, da raça Brown Swiss, demonstrou capacidade de usar ferramentas de maneira flexível em uma propriedade rural na Áustria. Pesquisadores da Universidade de Medicina Veterinária de Viena confirmaram o comportamento por meio de experimentos controlados. O estudo, publicado na revista Current Biology, registra o primeiro caso documentado de uso de ferramentas em bovinos.
Veronika manipula objetos como vassouras, ancinhos e galhos com a boca e a língua preênsil para se coçar em regiões difíceis de alcançar. Ela diferencia as partes da ferramenta conforme a área do corpo, usando as cerdas para partes mais resistentes e o cabo liso para zonas sensíveis. Essa adaptação indica planejamento e compreensão das propriedades dos objetos.
O comportamento surgiu espontaneamente ao longo dos anos, em um ambiente enriquecido que permitiu à vaca explorar e aperfeiçoar a técnica. Diferente da maioria dos bovinos criados em sistemas intensivos, Veronika vive como animal de estimação, com acesso a objetos variados e tempo livre para interagir com o entorno.
Comportamento detalhado de Veronika
Veronika utiliza a língua para enrolar no cabo dos objetos e posicioná-los corretamente antes de segurá-los lateralmente na boca. Essa técnica permite controle preciso durante o movimento de coçar. Ela direciona a ferramenta principalmente para regiões posteriores do corpo, como garupa, lombo e úbere, áreas propensas a irritações por insetos no verão.
Em observações, a vaca ajusta a orientação da ferramenta antecipando o contato com a pele. Para costas e áreas de pele mais espessa, aplica movimentos de esfregar com as cerdas em ações de puxar para frente. Já para partes delicadas, como flaps abdominais e região anal, opta pelo cabo liso em toques suaves.
A habilidade de uma vaca virou tema de estudo científico na Áustria. Ela se chama Veronika, e aprendeu a usar instrumentos para se coçar. Durante dez anos, o comportamento da vaca foi registrado. pic.twitter.com/aOq7QdBUIQ
— Band Jornalismo (@BandJornalismo) January 21, 2026
Experimentos conduzidos pelos pesquisadores
Os cientistas realizaram sete sessões com dez tentativas cada, totalizando 76 usos registrados da ferramenta. Eles posicionaram uma vassoura de deck assimétrica de forma aleatória para testar a adaptação de Veronika. A vaca demonstrou preferência consistente pelas cerdas em áreas superiores, mudando para o cabo em regiões inferiores.
Análises estatísticas confirmaram que a escolha da extremidade dependia da parte do corpo alvo. Testes como qui-quadrado revelaram significância na preferência, enquanto modelos lineares indicaram interação entre área corporal e tipo de ferramenta usada. A duração dos eventos variou conforme a região, mas não pela extremidade escolhida.
Os pesquisadores gravaram todos os comportamentos em vídeo para análise detalhada. Veronika manteve eficiência alta em todas as tentativas, reajustando a pegada quando necessário para otimizar o contato.
Veronika iniciou o hábito por volta dos três ou quatro anos de idade, inicialmente de forma desajeitada. Com o tempo, refinou os movimentos, ganhando precisão ao longo de quase uma década de prática diária.
Contexto do ambiente de Veronika
Veronika vive em uma vila montanhosa no sul da Áustria, em propriedade de um padeiro orgânico que a trata como animal de companhia. O local oferece pastagens amplas, interação humana diária e acesso a objetos como galhos caídos, ancinhos e vassouras. Essa configuração difere radicalmente de criações comerciais, onde bovinos têm vida mais curta e ambiente restrito.
O dono observou o comportamento há cerca de dez anos e forneceu ferramentas adicionais para facilitar a coceira. A ausência de estresse produtivo e a longevidade da vaca contribuíram para o desenvolvimento da habilidade. Especialistas apontam que tais condições enriquecidas favorecem expressões cognitivas em animais domésticos.
Comparação com uso de ferramentas em outros animais
O uso flexível de ferramenta multiuso era conhecido de forma consistente apenas em chimpanzés até esta descoberta. Primatas utilizam extremidades diferentes de varas para tarefas variadas, como capturar insetos ou quebrar nozes. Veronika replica essa versatilidade ao explorar propriedades distintas de um mesmo objeto.
Casos semelhantes ocorrem em elefantes asiáticos, que manipulam mangueiras para banho, e em corvídeos, conhecidos por inovar com objetos. Ungulados como cavalos e búfalos apresentam relatos anedóticos, mas sem verificação experimental como no caso de Veronika.
- Chimpanzés: empregam varas modificadas para pesca de cupins;
- Corvos: dobram arames para alcançar alimentos;
- Elefantes: usam galhos como fly-swatter contra moscas;
- Golfinhos: protegem o focinho com esponjas ao forragear no fundo do mar.
Esses exemplos ilustram que a capacidade transcende linhagens evolutivas específicas.
A descoberta expande o escopo taxonômico do uso de ferramentas para além de primatas e aves de cérebro grande. Bovinos, domesticados há cerca de 10 mil anos, raramente eram avaliados sob perspectiva cognitiva devido ao foco em produção.
Implicações para cognição de animais de fazenda
O caso de Veronika sugere que bovinos possuem potencial para inovação em resolução de problemas físicos quando o ambiente permite. Ambientes empobrecidos em criações intensivas podem suprimir tais comportamentos, levando a subestimação da inteligência. Pesquisadores defendem reavaliação do bem-estar animal com base nessas capacidades.
Especialistas externos confirmam que o comportamento atende critérios rigorosos de uso de ferramenta intencional. A habilidade indica coordenação motora fina e compreensão mecânica das propriedades dos objetos.
A vaca não representa uma exceção genial, mas demonstra potencial latente na espécie. Outros bovinos poderiam desenvolver técnicas semelhantes em condições adequadas de espaço e estímulo.
Essa observação questiona vieses culturais que associam bovinos a baixa inteligência. O estudo incentiva buscas por casos similares em outras espécies subestimadas.
Descoberta e registro do comportamento
O comportamento ganhou atenção científica após publicação de livro sobre inovação animal por uma das pesquisadoras. Vídeos enviados pelo público, incluindo um de Veronika usando ancinho, motivaram visita à propriedade. A equipe confirmou a autenticidade e procedeu com testes estruturados.
Veronika aprendeu sozinha, sem treinamento humano direto. O hábito provavelmente surgiu para aliviar irritações por picadas de insetos no verão austríaco.
O estudo destaca importância de ambientes enriquecidos para expressão de capacidades cognitivas. Longevidade e liberdade de exploração foram fatores decisivos no desenvolvimento da técnica.
