Vaca de estimação Veronika surpreende pesquisadores com uso de ferramentas para se coçar

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Vaca de estimação Veronika Foto: Vaca de estimação Veronika - Reprodução/Youtube

Uma vaca suíça marrom de 13 anos chamada Veronika, que vive como animal de estimação em uma vila montanhosa no sul da Áustria, desenvolveu a habilidade de usar objetos do ambiente para se coçar de forma precisa. Pesquisadores da Universidade de Medicina Veterinária de Viena documentaram o comportamento, classificando-o como o primeiro caso confirmado de uso de ferramentas em bovinos. O estudo destaca a capacidade da vaca de adaptar diferentes partes de um mesmo objeto conforme a região do corpo.

Veronika reside em um pasto cercado por florestas e montanhas cobertas de neve, em condições que permitem ampla interação com o entorno. Seu dono, um padeiro local, mantém a vaca e sua mãe como pets há anos. Essa liberdade contribuiu para que ela aperfeiçoasse técnicas ao longo do tempo.

O comportamento ganhou atenção científica após a publicação de um vídeo que mostrava a vaca manipulando um ancinho. Especialistas visitaram o local e realizaram testes controlados para validar as observações. Os resultados indicam que Veronika não apenas pega objetos, mas os utiliza de modo intencional e mecânico para alcançar objetivos específicos.

Vida idílica de Veronika

Veronika passa os dias em um ambiente rico em estímulos naturais e objetos disponíveis no pasto. Gravetos, ferramentas de jardinagem e escovas ficam acessíveis, permitindo experimentação constante.

Desde os três anos de idade, a vaca começou a usar varas para aliviar coceiras. Com o tempo, refinou os movimentos, demonstrando aprendizado progressivo. A presença constante de moscas-varejeiras no verão intensifica a necessidade de autocuidado, motivando o desenvolvimento dessas habilidades.

O local onde vive, caracterizado por paisagens alpinas, oferece espaço amplo para movimentação. Essa configuração difere de criações comerciais, onde animais enfrentam restrições ambientais maiores.

Descoberta do comportamento

Alice Auersperg, bióloga cognitiva, recebeu relatos variados após lançar livro sobre uso de ferramentas em animais. A maioria descrevia ações comuns de pets domésticos. Um vídeo específico, porém, mostrou uma vaca manipulando um ancinho para coçar as costas.

A equipe viajou até a propriedade para observar Veronika diretamente. Antonio Osuna-Mascaró, pesquisador pós-doutoral, acompanhou as sessões iniciais. As gravações confirmaram a precisão nos movimentos, com a vaca ajustando a posição dos objetos antes da aplicação.

Testes subsequentes envolveram a colocação de uma escova de deck em posições aleatórias. Veronika demonstrou consistência ao selecionar e orientar o item adequado para cada situação.

Técnicas observadas por Veronika

Veronika inicia o processo estendendo a língua para enrolar o objeto e levá-lo à boca. Em seguida, fixa-o lateralmente entre os dentes, garantindo estabilidade durante o uso.

Ela direciona a extremidade escolhida para regiões posteriores do corpo, difíceis de alcançar de outra forma. Os movimentos incluem arrastar, empurrar e reposicionar conforme necessário.

  • Uso das cerdas para áreas superiores, como lombar e posterior, com ações de fricção intensa.
  • Emprego do cabo liso em regiões inferiores sensíveis, como úbere e abdômen, com toques mais delicados.
  • Ajustes de pegada para reorientar o objeto sem soltá-lo.
  • Antecipação de movimentos, reposicionando antes do contato para maior eficiência.

Essas variações demonstram adaptação às propriedades físicas do objeto e às características da pele em cada zona.

Definição aplicada de uso de ferramentas

O conceito adotado exige manipulação intencional de objeto externo para alterar o ambiente ou o corpo por meio de interface mecânica. Veronika atende aos critérios ao controlar precisamente a extremidade funcional em relação ao alvo.

A flexibilidade observada inclui exploração de propriedades distintas de um mesmo item. Essa característica multiuso era conhecida principalmente em primatas e algumas aves. A vaca ampliou o escopo taxonômico para ungulados domésticos.

Estatísticas dos testes mostraram associação significativa entre a parte do objeto usada e a região corporal alvo. A duração dos eventos permaneceu similar independentemente da extremidade empregada.

Testes realizados pelos pesquisadores

As sessões envolveram 76 eventos registrados em sete rodadas de dez tentativas cada. A escova era posicionada de forma semialeatória para evitar padrões previsíveis.

Veronika respondeu consistentemente, pegando o objeto e aplicando-o em áreas posteriores. Análises estatísticas confirmaram preferência pelas cerdas em regiões superiores e pelo cabo em inferiores.

Gravações em câmera lenta revelaram detalhes do controle motor. A língua funcionou como elemento dextero para posicionamento inicial. Ajustes finos ocorreram durante a manipulação para otimizar o contato.

Implicações para cognição bovina

O caso de Veronika indica capacidades latentes em bovinos para resolução física de problemas. Condições ambientais enriquecidas favorecem a expressão dessas habilidades. Em criações intensivas, limitações espaciais e de objetos reduzem oportunidades semelhantes.

Pesquisas anteriores sobre cognição em gado focavam aspectos aplicados, como produtividade. Esse registro expande o entendimento sobre flexibilidade técnica em mamíferos não primatas.

Outros ungulados domésticos apresentam comportamentos comparáveis em contextos favoráveis. A descoberta sugere necessidade de reavaliação de ambientes para animais de produção.

Contexto de uso de ferramentas em animais

Diversas espécies empregam objetos externos para objetivos específicos ao longo da evolução. Primatas superiores exibem variações complexas, incluindo fabricação de itens. Aves como corvos demonstram planejamento em sequências de ações.

Elefantes utilizam galhos para afastar insetos ou coçar áreas inacessíveis. Búfalos-d’água e cabras registraram casos isolados em ambientes naturais. O comportamento de Veronika representa avanço ao mostrar adaptação multiuso sem mãos.

A domesticação de bovinos ocorreu há mais de 10 mil anos. Apesar da proximidade com humanos, registros de cognição avançada permaneciam escassos até o momento.

Detalhes do estudo publicado

A pesquisa apareceu na revista Current Biology com análises detalhadas dos eventos. Modelos lineares confirmaram interações entre região corporal e tipo de extremidade usada. Testes exatos de Fisher reforçaram a significância das associações.

Vídeos complementares ilustraram grip, antecipação e técnicas variadas. As observações ocorreram em campo, preservando condições naturais da vaca.

Os autores enfatizam que Veronika não representa exceção única entre bovinos. Fatores como tempo disponível e acesso a objetos explicam a manifestação do comportamento.

Observações adicionais sobre motivação

A presença sazonal de insetos atua como fator principal para o desenvolvimento das habilidades. Picadas geram irritação persistente em áreas posteriores. Veronika direciona esforços exclusivamente para essas zonas.

Movimentos naturais, como esfregar em árvores ou cercas, complementam o uso de objetos portáteis. A preferência por ferramentas manuais aumenta a precisão e o alcance.

Outras vacas na propriedade não exibem o mesmo nível de refinamento. A longevidade de Veronika e sua exposição contínua contribuem para o domínio observado.

Perspectivas sobre bem-estar animal

Ambientes enriquecidos permitem expressão de comportamentos naturais e cognitivos. Escovas mecânicas fixas já são usadas em algumas fazendas para higiene. O caso sugere potencial para implementações que estimulem interação ativa.

Restrições em sistemas intensivos limitam manifestações semelhantes. Aumentar variedade de estímulos pode beneficiar saúde física e mental dos animais.

Pesquisas futuras podem explorar ocorrência em outros contextos domésticos. Observações em diferentes raças e idades ajudarão a mapear prevalência.

Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.

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