Em conversa sobre a eleição de 2018, Jeffrey Epstein trocou elogios sobre Bolsonaro com Steve Bannon: ‘Mudou o jogo’

Jeffrey Epstein

Jeffrey Epstein - Foto: Reprodução/Netflix

Novos documentos divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos nesta última sexta-feira, 30 de janeiro, trouxeram à tona uma série de interações e discussões envolvendo Jeffrey Epstein, o financista condenado por crimes sexuais e falecido em 2019.

Entre os arquivos expostos, uma troca de comunicações entre Epstein e Steve Bannon, ex-estrategista político e conselheiro do ex-presidente americano Donald Trump, chamou a atenção por fazer menções elogiosas ao então candidato à presidência do Brasil, Jair Bolsonaro, no contexto das eleições de 2018.

As revelações oferecem um vislumbre sobre como figuras influentes do cenário internacional observavam a política brasileira da época, destacando opiniões e comentários que podem impactar a compreensão de eventos passados e as redes de contato de personagens polêmicos.

Elogios e a disputa eleitoral de 2018

Uma mensagem atribuída a Jeffrey Epstein, datada de 8 de outubro de 2018, expressava forte aprovação a Bolsonaro. “Bolsonaro mudou o jogo. Nenhum refugiado quer entrar. Bruxelas não lhe diz o que fazer. Ele só precisa reativar a economia. MASSIVO”, dizia a comunicação.

Essa troca de mensagens ocorreu na véspera do segundo turno da eleição presidencial brasileira, quando Bolsonaro havia garantido a maior parte dos votos no primeiro turno, com 49,2 milhões de eleitores (46% dos válidos), superando Fernando Haddad, que obteve 31,3 milhões (29,28%), assegurando sua vitória posterior.

Conexão entre figuras políticas e o círculo de Epstein

Steve Bannon, que à época já era conhecido por sua proximidade com movimentos de direita global, respondeu a Epstein indicando sua ligação com o grupo do então candidato. “Eles me querem como conselheiro. Devo fazer isso?”, questionou Bannon.

Epstein, por sua vez, teria ponderado sobre a proposta de Bannon, levantando o questionamento “É meio o argumento ‘reino no inferno’ de novo”. Bannon havia declarado apoio explícito a Bolsonaro naquele período, embora negasse qualquer participação formal na campanha.

Em entrevistas concedidas à época, o ex-estrategista de Donald Trump descreveu Bolsonaro com termos como “líder”, “brilhante” e “sofisticado”, traçando paralelos com o próprio Trump. A menção de Epstein sobre Bannon visitar o Brasil para reforçar a “marca” em caso de vitória de Bolsonaro também estava presente nos diálogos.

Diálogos controversos com Noam Chomsky e Lula

Os documentos recém-divulgados também revelam conversas em que Epstein afirmava que o filósofo e ativista político Noam Chomsky teria ligado para ele “da prisão”, ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Contudo, essa afirmação foi categoricamente negada tanto pela esposa de Chomsky, Valeria, quanto pelo Palácio do Planalto.

Em um dos diálogos, Bannon supostamente respondeu a Epstein: “Diga a ele que o meu candidato vai ganhar no primeiro turno”, em uma clara referência a Bolsonaro. Epstein complementou, usando a expressão “the real deal”, para se referir ao político brasileiro.

Outro ponto de interesse é o conselho de Epstein a Bannon para evitar o tema Bolsonaro em um eventual encontro com Noam Chomsky, facilitado pelo próprio financista no Arizona. A preocupação se baseava no fato de a esposa de Chomsky ser brasileira e a proximidade do casal com Lula, sugerindo um potencial choque ideológico em pautas sociais e econômicas.

Epstein alertou Bannon que Chomsky estaria interessado em saber se ele “está do lado dos pequenos: corte de impostos, ataques à saúde pública e as ameaças bolsonaristas aos trabalhadores organizados”, destacando o contraste entre as visões políticas.

Bastidores da campanha de 2018 e segurança

Os arquivos mostram que Jeffrey Epstein não teria aprovado a postura de Bolsonaro ao classificar como “fake news” uma associação com Steve Bannon, apesar de Eduardo Bolsonaro, filho do então candidato, ter previamente sinalizado à imprensa a disponibilidade de Bannon para a família. Em novembro de 2018, Eduardo chegou a participar de um jantar de aniversário de Bannon, conforme noticiado pela imprensa.

A declaração de Jair Bolsonaro na época, negando a parceria, levou Bannon a comentar: “Tenho que manter essa coisa do Jair nos bastidores. Meu poder vem do fato de não ter ninguém para me defender”. Bannon expressou ter ficado “impressionado” com a dinâmica da campanha de Bolsonaro e ofereceu conselhos, principalmente sobre segurança.

Desdobramentos da divulgação dos arquivos

A contínua liberação de documentos relacionados ao caso Jeffrey Epstein pelo Departamento de Justiça dos EUA mantém a atenção do público e da mídia global. Esses arquivos fornecem informações cruciais sobre as interações de Epstein com uma vasta rede de indivíduos de alto perfil, que vão além do círculo imediato de suas atividades criminosas. Cada nova leva de documentos contribui para um entendimento mais completo das relações políticas, sociais e econômicas que cercavam o financista, revelando detalhes que podem alterar a percepção de eventos históricos e figuras públicas. A transparência buscada com essas divulgações visa elucidar as complexidades do caso e as conexões que permearam as altas esferas, reforçando o compromisso com a elucidação de fatos e a responsabilização.

Relação entre Chomsky e Epstein

Noam Chomsky mantinha uma relação de proximidade com Jeffrey Epstein. Documentos indicam que o financista teria oferecido assistência financeira e hospedagem em suas propriedades, o que levanta questionamentos sobre a natureza de seus laços e o alcance da influência de Epstein em diferentes esferas intelectuais e políticas.

Implicações das revelações

A cada nova leva de documentos, as repercussões das interações de Jeffrey Epstein se estendem, gerando debates sobre ética, poder e responsabilidade. As revelações dos diálogos envolvendo Bolsonaro e Bannon, embora datadas de 2018, ressaltam como figuras políticas globais eram monitoradas ou interagiam com o círculo de Epstein. Tais informações podem recontextualizar análises sobre alianças políticas e estratégias de comunicação da época, forçando uma reflexão sobre a imagem pública e os bastidores de campanhas eleitorais em um cenário internacional interconectado.

A análise desses documentos continua a ser um esforço contínuo, com implicações potenciais para a compreensão de como certos discursos e figuras ganharam proeminência global. A investigação sobre os contatos de Epstein, mesmo após sua morte, demonstra a importância da transparência para a história e a integridade pública.

A comunidade internacional e analistas políticos seguem atentos à medida que mais detalhes são processados e compreendidos. A complexidade do caso e a variedade de personalidades envolvidas garantem que as discussões sobre o legado de Epstein e suas conexões ainda perdurarão por muito tempo, influenciando o jornalismo investigativo e a análise histórica.

Carolina Costa: Carolina Costa é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2019. Formação: Administração