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As forças armadas da Coreia do Norte, conhecidas como Exército Popular Coreano, que somam 1,28 milhão de soldados, são palco de extensas e graves violações de direitos humanos. Relatos recentes detalham um ambiente onde a brutalidade militar se entrelaça com a exploração generalizada, impactando profundamente a vida de seus membros.

As condições impostas aos soldados vão muito além da disciplina militar, abrangendo trabalho forçado, desnutrição crônica e uma escassez alarmante de suprimentos básicos. A situação é particularmente crítica para as mulheres, que enfrentam extorsões sexuais e a privação de itens essenciais de higiene.

Essas práticas desumanas expõem a fragilidade de um sistema que, apesar de sua vasta dimensão, demonstra falhas estruturais em garantir o mínimo de dignidade para seus próprios militares, utilizando-os como mera mão de obra para os projetos do regime em detrimento de seu bem-estar fundamental.

Sistema de exploração e brutalidade militar

O salário mensal de um soldado norte-coreano é irrisório, mal equivalendo a um maço de cigarros, enquanto até mesmo oficiais recebem o equivalente a menos de um quilo de arroz. Essa remuneração simbólica reflete a desvalorização da força de trabalho militar, que é constantemente desviada para outras finalidades.

Além das atividades militares, os soldados são rotineiramente mobilizados para trabalho forçado, uma prática explicitamente proibida pelas convenções da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Eles são obrigados a construir bases militares, apoiar áreas rurais no plantio e na colheita de arroz, e participar de grandes projetos de construção civil, como hotéis na área turística costeira de Wonsan-Kalma, o Hospital Geral de Pyongyang e os trabalhos de reconstrução após as enchentes de 2012. Tais atividades frequentemente resultam em acidentes fatais, que se tornam a principal causa de mortes.

Desnutrição generalizada e escassez de suprimentos

A escassez de alimentos é uma realidade crônica no exército norte-coreano, com o arroz branco ou milho, que deveriam ser a base da dieta, desaparecendo dos pratos entre julho e setembro, antes da colheita de outono, quando a dependência de milho e trigo se intensifica. O único acompanhamento consistentemente disponível é o rabanete salgado, tão emblemático que a pergunta “Você já comeu rabanete salgado?” serve como uma senha informal entre aqueles que serviram por longos períodos, ilustrando a monotonia e a miséria da alimentação militar. Numerosos casos de doenças por desnutrição e mortes decorrentes da fome são registrados anualmente. Para contornar a fome, soldados recorrem às suas famílias em busca de dinheiro, embora o envio e o recebimento desses valores sejam imprevisíveis e lentos, podendo levar de um a doze meses, com muitas cartas e remessas se perdendo no processo. A população civil que vive perto de bases militares e canteiros de obras também é frequentemente forçada a doar alimentos para suprir a deficiência nas rações dos soldados, evidenciando a extensão da crise alimentar que afeta não só os militares, mas a sociedade como um todo.

A triste realidade das soldadas

As mulheres que servem nas forças armadas norte-coreanas enfrentam uma realidade ainda mais sombria, marcada pela exploração sexual. Há denúncias consistentes de que mulheres são obrigadas a conceder “favores sexuais” para ter acesso a oportunidades como o ingresso no partido, uma forma brutal de extorsão que perpetua um ciclo de abuso.

Além da violência sexual, a ausência de produtos de higiene feminina é uma privação significativa e amplamente documentada. A escassez crônica desses itens força as soldadas a recorrerem a alternativas precárias ou até mesmo ao furto dentro das próprias tropas, evidenciando a falta de atenção básica às suas necessidades.

Essa carência de produtos fundamentais não só afeta a saúde e a dignidade das mulheres militares, mas também as coloca em situações de vulnerabilidade ainda maior. A negligência nesse aspecto sublinha um descaso institucional com o bem-estar e os direitos das soldadas.

A cultura de silêncio e impunidade no regime dificulta a denúncia e a reparação desses abusos, fazendo com que as vítimas permaneçam em uma situação de vulnerabilidade e sem perspectivas de mudança.

Subornos e desvio de recursos: a corrupção enraizada

A corrupção permeia as fileiras do Exército Popular Coreano, onde subornos são uma prática comum para obter promoções. Oficiais e soldados frequentemente pagam para avançar na carreira, criando um sistema meritocrático paralelo baseado em privilégios financeiros, e não em competência ou dedicação.

O desvio ilegal de suprimentos militares também é uma prática difundida para compensar a escassez de equipamentos e alimentos que deveriam ser fornecidos oficialmente. Uniformes, botas e até combustível são desviados e vendidos no mercado paralelo, com empresas especializadas na compra de materiais ilícitos.

A perspectiva dos observadores internacionais

Especialistas internacionais em direitos humanos na Coreia do Norte, como Lee Ki-chan, pesquisador sul-coreano, e Yoshihiro Makino, especialista em política internacional e autor de “Kim Jong-un: Ditadura à Beira do Abismo”, corroboram a gravidade das violações. Suas análises e depoimentos baseiam-se em relatos de desertores e em pesquisas detalhadas, oferecendo uma janela para a realidade interna do país.

As violações descritas são consideradas horríveis e sistemáticas, atingindo a base dos direitos humanos fundamentais. A comunidade internacional tem expressado preocupação, mas o regime norte-coreano mantém-se impermeável às pressões externas, preservando seu isolamento e a opacidade de suas práticas.

A dificuldade de acesso e a censura rigorosa imposta pelo regime tornam a verificação independente dessas informações um desafio constante, ressaltando a importância dos depoimentos de ex-militares e desertores como fontes cruciais para entender a extensão das violações.

O custo humano de uma nação militarizada

No final das contas, o vasto contingente militar da Coreia do Norte é sacrificado em prol do desenvolvimento nuclear e da manutenção do regime. Os soldados, incluindo as mulheres, são vistos como uma força de trabalho descartável, cujos direitos e bem-estar são secundários aos objetivos políticos e estratégicos de seus líderes. Essa realidade expõe o alto custo humano de uma nação militarizada.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2013. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

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