Brasileiros no Paraguai enfrentam bloqueio de contas após quebra do Ueno e debatem rotina migratória sem CLTPor Luís Henrique Costa
3 min de leitura
![]() |
A quebra do Ueno Bank e o agravamento da instabilidade política no Paraguai travaram recursos essenciais e geraram apreensão entre milhares de brasileiros que residem no país vizinho em novembro de 2026. A instituição financeira teve o processo de liquidação instaurado pelo Banco Central do Paraguai após a detecção de rombos decorrentes de empréstimos concedidos a empresas associadas ao seu controlador, o Grupo Vázquez. O episódio deixou cerca de 3 milhões de clientes sem acesso a depósitos, incluindo fundos estatais estimados em US$ 850 milhões, e desencadeou a abertura de processo de impeachment contra o presidente Santiago Peña pelo Congresso paraguaio.
Em comunidades digitais que reúnem dezenas de milhares de imigrantes, a crise financeira passou a pautar conversas que habitualmente tratam de documentação, moradia e oportunidades de negócios. Participantes comparam a paralisação das contas bancárias a episódios de confisco monetário e expressam desespero diante da impossibilidade de movimentar salários para pagar aluguel e alimentação básica.
Profissionais formados e atuantes no território paraguaio relatam dificuldades imediatas provocadas pelo colapso da instituição.
A médica Katrye Lucena, de 27 anos, natural de Minas Gerais e residente no Paraguai há uma década desde o início da graduação, teve o pagamento mensal totalmente retido com o fechamento das agências. Ela declarou que está privada de recursos para suprir despesas elementares e utiliza grupos de troca de mensagens para acompanhar o impacto entre outros trabalhadores na mesma condição.
Para além do episódio financeiro, os veteranos da comunidade brasileira utilizam as redes como mecanismo de moderação contra expectativas irreais de novos postulantes à mudança. A frase “Paraguai não é para CLT” sintetiza o aviso frequente contra o chamado “kit ilusão”, rótulo dado a conteúdos virtuais que retratam a vida local com facilidades inexistentes no mercado de trabalho formal.
Relatos compartilhados por profissionais estabelecidos há anos no país apontam obstáculos rotineiros que costumam surpreender quem emigra sem planejamento sólido:
- Rigidez nas normas de regularização migratória e lentidão nos trâmites burocráticos para validação profissional
- Predomínio absoluto de relações autônomas e escassez de empregos estruturados com direitos similares à legislação brasileira
- Custo de vida variável com exigência de reserva financeira expressiva para abertura de pequenos comércios ou restaurantes
- Adaptação cultural e sanitária complexa, incluindo dificuldades na compra de insumos básicos e produtos alimentícios seguros
A busca por oportunidades de graduação em Medicina e empreendimentos comerciais impulsionou a imigração verde-amarela nos últimos anos, movimento reforçado por políticas de atração econômica desenvolvidas pelas autoridades paraguaias. Conforme a Direção Nacional de Migrações do Paraguai, cidadãos brasileiros receberam 34.794 autorizações de residência entre janeiro e outubro de 2026, montante que corresponde a 67% do total de permissões concedidas a estrangeiros no período.
O cenário institucional permanece sob monitoramento das representações consulares e de lideranças comunitárias. Santiago Peña manteve sociedade com grupo ligado ao banco até março de 2025, circunstância que motivou acusações de conflito de interesses. O Senado do Paraguai conduz os trâmites do processo político, enquanto o Banco Central atua na verificação das disponibilidades para honrar salários e aplicações retidas de trabalhadores e correntistas.







