Budapeste apreende milhões e ouro de ucranianos, reacendendo disputa por oleoduto com KievPor Luís Henrique Costa
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As autoridades húngaras confirmaram a detenção de sete cidadãos ucranianos, incluindo um ex-oficial de inteligência, e a apreensão de dois carros-fortes que supostamente transportavam grandes quantias em dinheiro e ouro pelo território húngaro, sob a grave suspeita de lavagem de dinheiro. O incidente, que se desenrolou na semana anterior à divulgação das informações, imediatamente acirrou as já delicadas relações entre a Hungria e a Ucrânia, levantando acusações de “terrorismo de Estado e extorsão” por parte de Kiev e aprofundando uma série de desentendimentos diplomáticos. A ação se deu enquanto os veículos transitavam entre a Áustria e a Ucrânia, carregando valores pertencentes a um banco estatal ucraniano, segundo relatos.
A detenção ocorreu em um momento de escalada de tensões entre os dois países, marcadas por uma prolongada disputa sobre o acesso da Hungria ao petróleo russo, que chega através do oleoduto Druzhba, que atravessa o território ucraniano. Esta apreensão de ativos financeiros, que somam aproximadamente 40 milhões de dólares americanos, 35 milhões de euros e 9 quilos de ouro, avaliados em cerca de 1,5 milhão de dólares, adiciona um novo e explosivo capítulo a um cenário já complexo, com implicações políticas e econômicas significativas para a região.
Incidentes e valores apreendidos
A Administração Nacional de Impostos e Alfândegas da Hungria detalhou que os veículos blindados estavam sendo utilizados para o transporte de valores quando a detenção dos cidadãos ucranianos foi realizada. Foi instaurado um processo criminal sob suspeita de lavagem de dinheiro, uma acusação grave que pode acarretar sérias consequências legais e financeiras. Embora os detalhes específicos da operação permaneçam em sigilo, o volume dos ativos apreendidos sugere uma investigação de alta complexidade.
O banco estatal ucraniano Oschadbank emitiu um comunicado oficial, confirmando que os sete detidos são seus funcionários e que o transporte dos valores fazia parte de serviços regulares entre bancos estatais. Os dados de GPS dos veículos indicavam sua presença no centro de Budapeste, próximo a uma das agências de segurança pública do país. No entanto, o banco expressou preocupação com a localização e o bem-estar de seus colaboradores, cuja situação permanecia incerta, adicionando um elemento humano delicado à crise diplomática em curso.
O ponto de fricção do oleoduto Druzhba
A principal fonte de discórdia entre Hungria e Ucrânia tem sido o fornecimento de petróleo russo via oleoduto Druzhba, vital para a Hungria. Desde 27 de janeiro, o fluxo de petróleo por essa importante rota está interrompido. A Ucrânia atribui a interrupção a um ataque de drone russo que teria danificado a infraestrutura do oleoduto, e argumenta que o reparo é arriscado para os técnicos, além de manter o oleoduto vulnerável a futuras agressões.
O governo húngaro, por sua vez, tem uma visão divergente, acusando a Ucrânia de reter deliberadamente o fornecimento de petróleo bruto russo. Esta acusação é acompanhada por promessas de “contramedidas” contra Kiev até que o fluxo de petróleo seja plenamente restabelecido. Esta tensão demonstra a fragilidade da infraestrutura energética na Europa e a interdependência entre os países em um contexto de conflito.
Posição de Viktor Orbán e cenário político
O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, tem mantido uma postura notoriamente próxima ao Kremlin, o que tem gerado atritos com a União Europeia e, mais intensamente, com a Ucrânia. Sua retórica anti-Ucrânia intensificou-se consideravelmente antes das eleições cruciais de abril na Hungria. Orbán chegou a descrever a Ucrânia como uma “inimiga” da Hungria, acusando o presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, de tentar fabricar uma crise energética para influenciar o pleito.
Em declarações recentes à rádio estatal, Orbán, sem mencionar diretamente a apreensão dos carros-fortes, fez alusão ao incidente ao afirmar que a Hungria impediria a passagem de “coisas importantes para a Ucrânia” até que os carregamentos de petróleo fossem aprovados por Kiev. Essa posição populista busca mobilizar eleitores ao retratar a Ucrânia como uma ameaça à segurança e estabilidade econômica da Hungria, alegando que a derrota nas eleições poderia levar à falência do país e ao envio de jovens húngaros para o combate na Ucrânia.
Desdobramentos diplomáticos e alertas
Em resposta às ações húngaras e à retórica inflamada, o Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia emitiu um alerta formal. O ministério pediu aos cidadãos ucranianos que se abstivessem de visitar a Hungria, sublinhando que sua segurança não poderia ser garantida em meio a “ações arbitrárias das autoridades húngaras”. Esta medida reflete a gravidade da situação e o aprofundamento da desconfiança entre os dois países.
A tensão diplomática tem se manifestado de diversas formas, para além do incidente atual. Historicamente, Orbán já suspendeu embarques de diesel para a Ucrânia e vetou rodadas de sanções da UE contra a Rússia, além de bloquear um empréstimo significativo para Kiev, em clara retaliação a disputas anteriores. A mobilização de forças militares para proteger infraestruturas energéticas húngaras, sob a alegação de planos ucranianos de interrupção, demonstra a escalada das preocupações de segurança.
Implicações mais amplas na União Europeia
A Hungria, ao lado da Eslováquia, tem sido um dos poucos membros da União Europeia a resistir aos esforços para diminuir a dependência de combustíveis fósseis russos, mantendo-se como um comprador ativo mesmo após a invasão da Ucrânia por Moscou. Essa postura tem gerado fricções significativas dentro do bloco, que busca uma frente unida contra a agressão russa. A tensão entre Budapeste e Kiev, exacerbada pelo incidente dos carros-fortes, coloca a UE em uma posição delicada, necessitando equilibrar o apoio à Ucrânia com a manutenção da coesão interna.
As declarações de Orbán, que ameaça usar “ferramentas políticas e financeiras” para obrigar a Ucrânia a retomar os embarques de petróleo, são vistas por Kiev como uma tática de chantagem. A crise não é apenas bilateral; ela se insere em um contexto geopolítico mais amplo, onde a segurança energética e a solidariedade entre os membros da UE são testadas. A comunidade internacional observa com atenção os desdobramentos, pois a estabilidade regional e as relações diplomáticas futuras podem ser profundamente afetadas por esta escalada de confrontos entre a Hungria e a Ucrânia.







