A presença do bacalhau à mesa na Sexta-Feira Santa é uma tradição profundamente enraizada em muitas famílias católicas brasileiras, um costume que, por vezes, levanta questionamentos acerca de seu significado e pertinência em tempos contemporâneos. A observância de não consumir carne vermelha durante a Quaresma, ou especificamente na Semana Santa, culmina no dia que antecede a Páscoa com a emblemática iguaria salgada, cuja escolha, para alguns, parece contrastar com o espírito de abstinência e sacrifício devido ao seu custo mais elevado. Esse cenário instiga uma reflexão sobre as origens desse hábito culinário, que se tornou um pilar das celebrações religiosas anuais no país, e como ele se consolidou ao longo dos séculos, transcendendo as simples práticas alimentares e mergulhando em complexas camadas históricas e culturais.
A discussão sobre o consumo do bacalhau, muitas vezes mais caro do que determinadas carnes, evidencia uma percepção de que a abstinência deveria estar alinhada a atos de caridade, como a doação do que se economizou aos mais necessitados. Tal perspectiva sugere que a prática religiosa deve ir além da simples privação alimentar, conectando-se a um propósito maior de solidariedade e auxílio. Essa visão crítica ressoa em um período de desafios econômicos, onde o acesso a alimentos básicos já é uma dificuldade para uma parcela da população.
Contudo, a história por trás dessa tradição é multifacetada e complexa, com raízes que se estendem por séculos e se entrelaçam com influências culturais e religiosas. Para desvendar o porquê do bacalhau ter assumido esse papel de protagonista na Sexta-Feira Santa, é preciso mergulhar em aspectos que vão além da economia, explorando os pilares que sustentam essa prática tão particular.
O papel da colonização portuguesa e a prática do jejum
A forte influência de Portugal como país colonizador do Brasil é um dos pilares centrais para compreender a inserção do bacalhau na cultura gastronômica nacional, especialmente no contexto religioso. No entanto, a explicação não se restringe apenas à herança cultural lusa. Há também a característica inerente ao bacalhau de ser um produto que pode ser conservado por longos períodos sem a necessidade de refrigeração, o que era um diferencial crucial em épocas anteriores à tecnologia moderna.
Historicamente, a prática do jejum é o ponto de partida para entender a abstenção de carne. Desde os primeiros séculos do cristianismo, a privação alimentar era observada, mas sem um foco em um alimento específico. A pesquisadora de história do catolicismo na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, Mirticeli Medeiros, explica que é na Idade Média que os preceitos do jejum começam a tomar uma forma mais definida, estabelecendo uma prática de ascese e autocontrole.
A ideia de jejuar representava uma forma de austeridade e controle dos prazeres humanos, em dimensão ao sacrifício de Jesus na cruz. Essa compreensão é reforçada pelo historiador, teólogo e filósofo Gerson Leite de Moraes, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, que conecta o jejum católico ao sacramento da penitência, ou seja, um sacrifício feito para a remissão dos pecados e a reconciliação com Deus. A Quaresma, como período de perdão e reconstrução, torna-se o palco ideal para essa experiência de abstinência.
Simbologia do peixe e a restrição da carne vermelha
A permissão para o consumo de peixe durante o jejum católico também possui uma rica simbologia. No contexto do Jesus histórico, os peixes eram um alimento fundamental para as comunidades do Oriente Médio há cerca de dois mil anos, e muitos dos primeiros seguidores de Jesus eram pescadores. Embora não haja uma relação explícita direta entre esses fatos e a troca da carne pelo peixe, a conexão se estabelece em outras camadas.
No grego antigo, a palavra peixe era “ichthys”. Cristãos primitivos, que viviam sob perseguição, adotaram o peixe como um símbolo secreto, atribuindo à palavra um acrônimo poderoso: Iesous Christos Theou Yios Soter, que significa “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”. Assim, o consumo do peixe transcendeu a mera nutrição, incorporando um profundo significado cristológico e de identidade para os fiéis. A complexidade de definir “peixe” no contexto religioso levou a interpretações curiosas ao longo do tempo.
A restrição à carne vermelha, por sua vez, foi teorizada no século XIII pelo filósofo e teólogo São Tomás de Aquino. Ele apontou a carne como um dos alimentos mais prazerosos, associando seu consumo à luxúria e aos “pecados da carne”. A abstinência, nesse sentido, significava privar-se de algo que proporcionava grande satisfação, alinhando-se ao conceito de mortificação e renúncia. Essa teologia foi gradualmente incorporada às regras da Igreja.
Documentos como a Regra de São Bento, do século VI, já exigiam que monges só ingerissem carne em casos extremos de necessidade ou saúde. Ao longo dos séculos, sínodos da Igreja debateram intensamente o tema, chegando a questionar se carnes processadas, como a moída ou o presunto, perderiam suas “propriedades carnosas” e poderiam ser consumidas. A prática do “jejum magro”, com abstinência de carne em várias épocas do ano, foi comum na Idade Média, e as regras atuais constam dos documentos do Vaticano: o Código de Direito Canônico de 1917 e a Constituição de 1966 do Papa Paulo VI.
É interessante notar que as justificativas para diferenciar os tipos de carne e permitir o peixe muitas vezes evocam elementos como o “sangue frio” dos peixes em contraste com o “sangue quente” de bovinos e aves. As nuances na definição do que constitui um “peixe” no âmbito religioso podem ser bastante flexíveis e, por vezes, divergem da classificação científica. Existem relatos históricos de bispos que declararam animais como jacarés, capivaras e até castores como “peixes” para os fiéis de suas dioceses, permitindo seu consumo na Quaresma, demonstrando a adaptabilidade das regras em diferentes contextos culturais e geográficos.
A chegada do bacalhau ao Brasil e sua consolidação
Apesar da forte associação do bacalhau com a Sexta-Feira Santa, a Igreja Católica não possui nenhuma prescrição específica sobre seu uso. A disseminação e consolidação do bacalhau no Brasil como prato típico desse dia são atribuídas diretamente à influência dos costumes portugueses. A iguaria foi introduzida no país a partir do século XIX, e sua popularidade se deve, em grande parte, à sua capacidade de longa conservação.
Em uma era pré-refrigeração, especialmente no clima tropical brasileiro onde a Quaresma ocorre durante o verão, a durabilidade do bacalhau salgado e desidratado era uma vantagem inestimável. Isso permitia que os fiéis o consumissem durante toda a Quaresma sem preocupações com estragos, transformando-o em uma opção prática e acessível para a observância do jejum. Portanto, a escolha do bacalhau não foi primariamente por uma questão de fé na iguaria, mas por puro pragmatismo.
A chegada da corte portuguesa ao Rio de Janeiro em 1808 acelerou a introdução do bacalhau na culinária brasileira. Aos poucos, a iguaria passou a ser encontrada em empórios de secos e molhados, tornando-se mais disponível para a população. A penitência, vista como uma obediência voluntária a um momento de reflexão e sacrifício, encontrou no bacalhau uma substituição prática e tradicional para a carne vermelha.
Do ritual religioso à dinâmica de mercado
A tradição da abstinência de carne vermelha, trazida pelos colonizadores portugueses, acentuou-se com a chegada da corte ao Brasil. O bacalhau, sendo parte da culinária portuguesa e de fácil conservação, foi naturalmente inserido nesse contexto. Com o passar do tempo, essa prática foi ressignificada e se tornou parte intrínseca da identidade cultural e religiosa brasileira. A influência do catolicismo desde a colonização e a orientação dos padres locais reforçaram a observância dos fiéis.
O consumo do bacalhau, inicialmente ligado a aspectos religiosos e de conservação, rapidamente ganhou força no mercado. Em uma sociedade capitalista, quando um produto se torna parte de uma tradição cultural tão arraigada, ele se transforma em mercadoria. A demanda crescente por bacalhau na Quaresma e, em especial, na Sexta-Feira Santa, criou um nicho de mercado vigoroso, onde vendedores e consumidores perpetuam o ciclo. O que começou como uma necessidade prática e um preceito religioso, hoje também é impulsionado pela dinâmica comercial, para a alegria dos comerciantes de peixe que veem suas vendas dispararem nesse período.
A história do bacalhau na Sexta-Feira Santa é, assim, um emaranhado de fé, cultura, história e economia, mostrando como tradições se formam, adaptam e persistem através do tempo, mantendo sua relevância tanto no plano espiritual quanto no cotidiano das pessoas.
