Escritora descobre que babá de infância dirigiu rede de espionagem soviética no UruguaiPor Maria
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A escritora argentina Laura Ramos publicou o livro Mi niñera de la KGB. A obra reconstrói a vida de uma mulher que cuidou dela e do irmão na infância em Montevidéu. Anos depois, a autora descobriu que a babá escondia uma identidade diferente.
África de las Heras usou o nome María Luisa no Uruguai. Ela se apresentava como costureira e pessoa sem interesse em política. A espanhola chegou a Montevidéu no fim de 1947 ao lado do escritor uruguaio Felisberto Hernández. O casamento serviu para obter cidadania uruguaia e montar uma base de operações.
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Infância marcada por rotina simples
Laura Ramos tinha cerca de sete ou oito anos em 1964. Ela e o irmão frequentavam a Escuela Francia, que ficava na mesma quadra da casa de María Luisa. A mulher esperava as crianças na porta da escola e as levava para lanchar.
As visitas incluíam doces de marcas como Oro del Rhin ou La Mallorquina. Ramos lembra de um café com leite servido no sofá da sala. A babá contava histórias de um livro sobre uma soviética chamada Gulia Koroliova. A voz era tranquila, mas o jeito era seco, sem demonstrações de afeto excessivo.
A família de Ramos tinha ligação com Montevidéu por causa da mãe. Anos antes, a mãe conheceu María Luisa em círculos de intelectuais uruguaios. Depois da mudança para a Argentina, o contato foi retomado quando os filhos ainda eram pequenos.
Operações de inteligência na América do Sul
África de las Heras atuou como agente da KGB com o codinome Patria. Ela construiu uma rede de espionagem a partir do Uruguai ao longo de duas décadas. O país serviu como base porque ficava fora do radar principal durante o início da Guerra Fria.
Uma das tarefas envolvia obter documentos falsos. A agente visitava cemitérios do interior uruguaio em busca de certidões de nascimento de crianças falecidas. Com esses papéis, produzia identidades para outros agentes soviéticos. O foco incluía informações sobre o programa nuclear dos Estados Unidos.
Antes disso, De las Heras participou de ações na Europa e no México. Registros indicam que ela trabalhou como telegrafista contra forças nazistas na Ucrânia durante a Segunda Guerra Mundial. Ela também integrou operações ligadas ao planejamento do assassinato de León Trotsky.

Casamentos usados como fachada
A espanhola se casou primeiro com Felisberto Hernández em Paris. A união durou até que ela obtivesse a cidadania uruguaia. Depois da separação, casou-se com o italiano Valentino Marchetti, outro agente enviado por Moscou.
O casal viveu em uma casa na rua Williman, em Montevidéu. O imóvel era o mesmo onde as crianças Ramos iam lanchar depois da aula. A fachada incluía trabalhos de costura e relações amigáveis com intelectuais locais.
De las Heras se apresentava como apolítica diante dessas pessoas. Ela oferecia ajuda com filhos e serviços domésticos para manter a aparência de dona de casa comum.
- A agente obteve cidadania uruguaia por meio do primeiro casamento
- Fabricou documentos falsos a partir de certidões de crianças mortas
- Coordenou operações de inteligência a partir de Montevidéu por cerca de 20 anos
- Manteve contato com círculos de escritores e artistas uruguaios
Descobertas durante investigação de cinco anos
Laura Ramos iniciou a pesquisa após o irmão revelar a verdadeira identidade da babá. A autora reuniu testemunhos, documentos e gravações ao longo de cinco anos. O resultado virou o livro lançado recentemente.
Uma fita cassete traz o depoimento de uma mulher uruguaia que atuou como colaboradora. A gravação menciona duas mortes ligadas a De las Heras. Uma envolve o marido italiano e outra um professor universitário uruguaio chamado Arbelio Ramírez.
Segundo o relato na gravação, De las Heras envenenou Valentino Marchetti. A mesma pessoa pediu ajuda para mover o corpo dentro da casa. O incidente ocorreu no sofá usado anos depois pelas crianças para o lanche.
Ligações entre duas mortes investigadas
O professor Arbelio Ramírez morreu em 1961 durante um ato com Ernesto Che Guevara em Montevidéu. A gravação sugere que ele havia sido cooptado para tarefas secretas com a agente.
Ramos destaca um detalhe que conecta os casos. O médico chamado para atestar a morte de Marchetti é o mesmo que fez a autópsia de Ramírez três anos antes. A autora apresenta esses elementos como parte da documentação no livro.
A espanhola morreu em Moscou em 1988, pouco antes do fim da União Soviética. Ela carregou a patente de coronel e várias condecorações. Muitos segredos da carreira nunca foram revelados publicamente.
Legado de uma vida dupla
A história de África de las Heras cruza diferentes períodos do século 20. Ela começou como militante comunista na Espanha contra o regime de Francisco Franco. Depois, atuou em frentes variadas a serviço dos interesses soviéticos.
No Uruguai, a fachada de costureira permitiu construir contatos sem levantar suspeitas. A rotina incluía cuidados com crianças de famílias conhecidas. Ninguém do círculo próximo imaginava o papel real na rede de inteligência.
Laura Ramos descreve a descoberta como um choque. A mulher que parecia comum escondia uma trajetória de operações internacionais. O livro mistura memórias pessoais com a reconstrução biográfica baseada em fontes variadas.
A obra traz à tona detalhes da Guerra Fria na América Latina. Ela mostra como bases discretas em países neutros serviram para coordenar ações maiores. Ramos evitou sensacionalismo e priorizou a verificação de fatos ao longo da pesquisa.















