O papa Leão XIV publicará sua primeira encíclica em 25 de maio, anunciou o Vaticano nesta segunda-feira (18). Intitulado “Magnifica Humanitas” (Magnífica Humanidade), o documento foi formalmente assinado pelo pontífice na sexta-feira (15) e deverá abordar a ascensão da inteligência artificial e os desafios aos direitos dos trabalhadores. O texto também denunciará as guerras que assolam o mundo, conforme informações ligadas à instituição.
A encíclica marca um momento incomum na história católica. Leão XIV, o primeiro papa dos Estados Unidos, participará pessoalmente de uma apresentação do texto no Vaticano no dia de sua publicação — uma atitude rara entre pontífices. O evento contará com a presença de Christopher Olah, cofundador da empresa de inteligência artificial Anthropic.
A encíclica como ferramenta de ensinamento papal
Encíclicas são documentos papais dirigidos a bispos de todo mundo e, consequentemente, aos fiéis, informando a posição da Igreja Católica sobre determinados assuntos. Consideradas uma das formas mais importantes de ensinamento de um papa, alcançam os 1,4 bilhão de católicos no planeta. O primeiro texto desse tipo geralmente serve para mostrar as prioridades do pontífice e os temas sociais e morais que ele considera mais urgentes no mundo moderno, segundo análise de John Thavis, jornalista especializado no Vaticano que acompanhou três papados.
A escolha da data não é casual. Leão XIV assinou o documento em 15 de maio, data que marca os 135 anos de uma encíclica histórica publicada pelo papa Leão XIII no fim do século XIX. Esse documento anterior defendia melhores salários e condições de trabalho para operários. O atual pontífice, que completou um ano de papado em 8 de maio, conecta seu primeiro ensinamento papal com essa tradição de défesa dos direitos trabalhistas. O novo documento deverá trazer a orientação mais ampla da Igreja Católica sobre direitos trabalhistas em décadas, tema que vinha sendo preparado há meses.
Foco em inteligência artificial e conflitos globais
A presença de Christopher Olah no Vaticano é significativa. A Anthropic, empresa que cofunda, se apresenta como uma organização que coloca segurança e mitigação de riscos no centro de suas pesquisas em inteligência artificial. Essa escolha sugere que a posição do papa americano sobre IA pode se tornar um novo ponto de atrito com o governo Trump.
Nas últimas semanas, Leão XIV tem feito discursos duros sobre o rumo da política internacional e já alertou várias vezes sobre os riscos da inteligência artificial. Na semana passada, durante discurso na maior universidade da Europa, criticou o uso da tecnologia em guerras e citou os conflitos na Ucrânia, em Gaza, no Líbano e no Irã como exemplos de uma “evolução desumana da relação entre guerra e novas tecnologias em uma espiral de aniquilação”. O papa também irritou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, após críticas à guerra envolvendo o Irã.
Temas centrais da encíclica
A encíclica abordará os seguintes pontos:
- Ascensão da inteligência artificial e seus impactos sociais e morais
- Direitos dos trabalhadores e condições de trabalho dignas
- Conflitos armados em curso no mundo
- Orientação da Igreja Católica sobre tecnologia e humanidade
- Responsabilidade moral das nações e empresas
A decisão do Vaticano de convidar um cofundador de empresa de IA para o lançamento do documento reforça a importância que o papa atribui ao debate sobre tecnologia. Leão XIV demonstra disposição em engajar diretamente com líderes do setor privado e com questões contemporâneas que afetam bilhões de pessoas.
Posicionamento papal em contexto geopolítico
O pontífice assume uma posição firme em temas que historicamente dividem a opinião pública internacional. Sua crítica às guerras contemporâneas e à aplicação de tecnologia em conflitos coloca a Igreja Católica numa postura que pode amplificar divergências com administrações governamentais, particularmente a dos Estados Unidos.
A escolha de lançar sua primeira encíclica com ênfase em direitos trabalhistas conecta Leão XIV com a tradição social da Igreja iniciada há mais de um século. O documento será entregue num contexto de intensa polarização política global, onde questões de tecnologia, trabalho e conflito armado figuram entre as mais debatidas. A presença do líder americano no cargo papal e sua disposição em confrontar temas sensíveis indicam uma mudança na forma como Roma aborda a política internacional e a relação entre fé e tecnologia.

