A Organização Mundial da Saúde elevou na sexta-feira o nível de risco do surto de Ebola na República Democrática do Congo para “muito alto”. Os números dispararam: quase 750 casos suspeitos e 177 mortes em uma semana, comparado aos 246 casos e 65 óbitos registrados quando o surto foi reportado pela primeira vez.
Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, descreveu a situação como “profundamente preocupante”. A propagação do vírus ocorre em ritmo acelerado, especialmente na província de Ituri, com poucos casos também registrados em outras regiões do país e dois em Uganda, país vizinho.
Desconfiança comunitária impede resposta eficaz
O surto tem sido causado pela cepa Bundibugyo do Ebola, para a qual não existem vacinas ou tratamentos disponíveis atualmente. A resposta à epidemia enfrenta obstáculos significativos relacionados à confiança da população local. Tedros alertou que a “desconfiança significativa nas autoridades externas” entre os moradores está dificultando as operações.
Na quinta-feira, tendas e suprimentos médicos fora de um hospital em Rwampara, na província de Ituri, foram incendiados. A multidão estava furiosa por não poder recuperar o corpo de um homem local que morreu na unidade. Os corpos de pacientes com Ebola devem ser enterrados seguindo protocolos rigorosos de controle de infecção para evitar disseminação.
Dr. Anne Ancia, representante da OMS na República Democrática do Congo, afirmou que o incidente em Rwampara “prejudicaria significativamente” a operação de resposta na região. O centro de tratamento atacado foi projetado para separar pacientes com Ebola de outros em tratamento no mesmo hospital. Ancia expressou esperança de que a unidade pudesse retomar operações em 24 horas.
Recursos insuficientes amplificam desafios operacionais
Representantes de organizações humanitárias trabalhando em Ituri relataram não dispor de recursos adequados para uma resposta suficiente. Dr. Amadou Bocoum, diretor-país da Care International na República Democrática do Congo, afirmou que cortes orçamentários no ano anterior deixaram “o sistema incapaz de funcionar adequadamente por falta de equipamentos”. Redução de pessoal também dificultou atividades como rastreamento de contatos e identificação de casos, trabalhos que exigem muita mão de obra. Julie Drouet, diretora-país da Action Against Hunger, disse que todos trabalham para implementar a resposta o mais rapidamente possível, mas “ainda não está totalmente pronta para a emergência que temos no Congo neste momento”.
A OMS mantém avaliação de risco alto em nível regional e risco baixo globalmente.
Aumento de casos pode indicar melhor detecção
Oficiais da OMS afirmaram que a elevação nos números de casos pode paradoxalmente ser um “bom sinal”, sugerindo detecção mais eficaz. Uma pequena redução na proporção de amostras testando positivo indica que mais pessoas com possíveis sintomas estão sendo identificadas. Ancia, porém, foi direta: “Estamos atrasados, ainda não controlamos a situação”. Ela se mostrou confiante de que a resposta será bem-sucedida. “Posso garantir que juntos conseguiremos superar este surto o mais rápido possível”, afirmou.
Pesquisadores identificam possível medicamento preventivo
Um briefing de imprensa da OMS informou que cientistas identificaram um medicamento antiviral chamado obeldesivir, que pode ser capaz de prevenir contatos de pacientes com Bundibugyo de desenvolver a doença. Pesquisadores estão trabalhando para estabelecer ensaios clínicos nas áreas afetadas.
Elementos prioritários da resposta incluem:
- Estabelecimento de centros de tratamento adequados e seguros
- Rastreamento e isolamento de contatos confirmados
- Educação comunitária para reconstruir confiança local
- Disponibilização de equipamento de proteção individual
- Desinfecção de instalações de saúde
- Pesquisa clínica de medicamentos antivirais
A OMS considera a construção de confiança nas comunidades afetadas como crítica para uma resposta bem-sucedida e uma das prioridades mais altas da organização neste momento.

