O Brasil fechou 2024 com 42.590 homicídios oficialmente registrados, atingindo a menor taxa de assassinatos em uma década, segundo o Atlas da Violência 2026 divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) nesta terça-feira. A taxa de 20,1 mortes por 100 mil habitantes representa queda de 7,4% em relação a 2023, quando foram contabilizados 45.747 homicídios. Comparado aos dez anos anteriores, entre 2014 e 2024, a redução chega a 33,4% na taxa nacional de homicídios e 29,6% no número absoluto de vítimas.
A melhora, porém, carrega uma ressalva crucial levantada pelos pesquisadores. O crescimento expressivo de mortes violentas classificadas por causa indeterminada — aquelas sem identificação clara da intencionalidade — pode estar ocultando homicídios não registrados oficialmente. Essa metodologia alternativa, baseada em aprendizado de máquina, sugere que o Brasil pode ter enfrentado 49.673 homicídios estimados em 2024, reduzindo significativamente a queda anual para apenas 0,4%.
Mudanças nas políticas estaduais explicam redução de crimes
Os pesquisadores identificam três fatores principais por trás da redução de homicídios no país. Primeiro, mudanças nas políticas de segurança em âmbito estadual e municipal, baseadas em diagnósticos precisos de onde o crime ocorre e quais são seus padrões. Segundo, alterações nas dinâmicas do crime organizado, incluindo tréguas entre facções criminosas em algumas regiões, que diminuem confrontos entre grupos rivais. Terceiro, o envelhecimento da população brasileira, já que jovens representam o principal perfil das vítimas de homicídio.
Daniel Cerqueira, técnico de planejamento e pesquisa do Ipea e coordenador do Atlas da Violência, destaca a importância de ações baseadas em evidências. “Os remédios que aparentemente funcionam, ou pelo menos funcionaram em outras cidades e países, e que a ciência diz que funcionam, precisam ser considerados. É preciso fazer política baseada em evidência e montar um sistema de gestão que integre ações de curto prazo, com repressão qualificada da polícia, e ações intersetoriais de prevenção social à violência.” Complementa ainda: “Isso tem sido feito há alguns anos no Brasil, aqui e acolá, em alguns estados e municípios, e é um processo que está tomando cada vez mais fôlego.”
Nordeste concentra as maiores taxas de violência
A redução de homicídios apresenta distribuição desigual pelo território nacional. Enquanto estados do Sul, Sudeste e Distrito Federal registram os menores índices, a violência letal continua concentrada em partes das regiões Norte e Nordeste. Em 2024, 18 unidades da federação ultrapassaram a média nacional de 20,1 mortes por 100 mil habitantes.
Os estados com maiores taxas de homicídios foram:
- Amapá: 45,7 por 100 mil habitantes
- Bahia: 40,9 por 100 mil habitantes
- Pernambuco: 37,3 por 100 mil habitantes
- Alagoas: 35,9 por 100 mil habitantes
- Ceará: 34,3 por 100 mil habitantes
Na outra extremidade, as menores taxas foram registradas em:
- São Paulo: 6,6 por 100 mil habitantes
- Santa Catarina: 8,1 por 100 mil habitantes
- Distrito Federal: 10,3 por 100 mil habitantes
- Minas Gerais: 12,8 por 100 mil habitantes
- Rio Grande do Sul: 15,2 por 100 mil habitantes
Variações regionais demonstram desempenhos contraditórios
A comparação entre 2023 e 2024 revela cenário mais nuançado. Apenas dois estados tiveram crescimento relevante em suas taxas de homicídios: Maranhão, com alta de 7,6%, e Ceará, com aumento de 5,2%. São Paulo permaneceu estável. As maiores quedas ocorreram em estados tradicionalmente violentos, como Amapá (redução de 30%), Tocantins (26,7%), Sergipe (24,8%), Roraima (22,8%) e Acre (20,5%).
Em números absolutos, as maiores reduções aconteceram no Rio de Janeiro, com 772 homicídios a menos; na Bahia, com 555 a menos; no Rio Grande do Sul, com 280 a menos; em Goiás, com 229 a menos; e no Amazonas, também com 229 a menos. O Amapá, porém, destaca-se como caso isolado na série histórica de dez anos, sendo a única unidade federativa com aumento expressivo tanto na taxa de homicídios (30,2%) quanto no número absoluto de mortes (41,8%).
Homicídios ocultos crescem 88,6% em um ano
O crescimento de mortes violentas por causa indeterminada preocupa pesquisadores e especialistas em segurança. Em 2024, os homicídios ocultos — aqueles estimados mediante análise de aprendizado de máquina — aumentaram de 3.755 para 7.083, alta de 88,6%. A taxa de homicídios ocultos passou de 1,8 para 3,3 por 100 mil habitantes, crescimento de 83,3%.
Esses casos passaram a responder por 14,3% dos homicídios estimados em 2024, comparado com 7,6% no ano anterior. No acumulado entre 2014 e 2024, o país somou cerca de 55,2 mil homicídios ocultos, do total estimado de 638,8 mil no mesmo período. A diferença entre a taxa registrada e a taxa estimada chegou a 3,3 pontos em 2024, acima da média observada entre 2014 e 2017 (1,8 ponto) e da média entre 2019 e 2024 (2,8 pontos).
Segundo os pesquisadores, essa divergência indica piora recente na capacidade dos sistemas de saúde e segurança de identificar corretamente a intencionalidade das mortes violentas. O Atlas argumenta que esses dados não significam, em geral, intenção de gestores estaduais de esconder informações, mas antes problemas técnicos no compartilhamento de informações entre secretarias de saúde e de segurança pública.
Considerando homicídios ocultos, Ceará lidera disparidades
Quando se considera a taxa estimada em lugar dos registros oficiais, o ranking de estados mais violentos sofre alterações. Com essa metodologia, as maiores taxas de homicídio em 2024 foram observadas em:
- Amapá: 47,1 por 100 mil habitantes
- Ceará: 43,7 por 100 mil habitantes
- Bahia: 42,6 por 100 mil habitantes
- Alagoas: 39,8 por 100 mil habitantes
- Pernambuco: 38,6 por 100 mil habitantes
As menores taxas estimadas foram registradas em:
- Santa Catarina: 8,8 por 100 mil habitantes
- Distrito Federal: 10,9 por 100 mil habitantes
- São Paulo: 12,8 por 100 mil habitantes
- Rio Grande do Sul: 15,9 por 100 mil habitantes
- Minas Gerais: 18,5 por 100 mil habitantes
Pela taxa estimada, os maiores aumentos entre 2023 e 2024 ocorreram em Minas Gerais (25%), Ceará (23,8%), São Paulo (10,3%), Maranhão (7,8%) e Alagoas (3,6%). As maiores quedas foram registradas em Amapá (28,3%), Tocantins (22,3%), Sergipe (21,4%), Acre (20,9%) e Roraima (16,5%). Ao todo, 16 unidades da federação ficaram acima da taxa nacional estimada de 23,4 homicídios por 100 mil habitantes.
Violência concentra-se em pequeno número de cidades
O retrato municipal revela extrema concentração da violência letal em pequena parcela do território brasileiro. O Atlas analisou 5.570 municípios com informação válida em 2024. Desse total, 1.578 não registraram nenhum homicídio estimado durante o ano. A média municipal foi de 20 homicídios por 100 mil habitantes, mas em metade dos municípios brasileiros, a taxa ficou abaixo de 15,3.
Essa diferença demonstra que um grupo relativamente pequeno de cidades com índices extremamente elevados de violência puxa a média nacional para cima. Em 2024, apenas 99 municípios — equivalente a 1,8% das cidades brasileiras — concentraram 50% de todos os homicídios do país. Os 10 municípios com maior número absoluto de assassinatos foram responsáveis por 19,4% do total nacional.
O Atlas dividiu os municípios em três grupos por tamanho: pequenos (até 100 mil habitantes), médios (mais de 100 mil até 500 mil habitantes) e grandes (mais de 500 mil habitantes). Os resultados surpreendem: os municípios médios tiveram a maior taxa média de homicídios estimados, com 24,1 por 100 mil habitantes, superando os grandes municípios (23,2) e os pequenos (19,7). Isso sugere que a violência letal mais intensa não se concentra necessariamente nas maiores metrópoles, mas frequentemente em cidades de porte intermediário.
Nos municípios pequenos, além dos 1.578 sem homicídios estimados, 139 não registraram homicídios oficialmente mas apareceram com homicídios ocultos. Outros 2.139 tiveram taxas inferiores a 10 por 100 mil habitantes. Na outra ponta, 477 municípios pequenos registraram taxas iguais ou superiores a 50 por 100 mil. Entre os municípios médios, 11 tiveram taxas acima de 60 homicídios por 100 mil habitantes, enquanto 56 ficaram abaixo de 10. Entre os municípios grandes, seis cidades tiveram taxas abaixo de 10 por 100 mil.
Cidades nordestinas dominam ranking dos mais violentos
Entre os 336 municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes, as taxas de homicídio estimado variaram de 2 a 87,2 por 100 mil habitantes em 2024. Ao todo, 46 municípios desse grupo tiveram taxas acima de 40 homicídios por 100 mil habitantes. Outros 62 ficaram abaixo de 10. Além disso, 194 municípios apresentaram taxas inferiores à referência nacional de 23,4 homicídios por 100 mil habitantes.
As cidades com mais de 100 mil habitantes que registraram as maiores taxas de homicídio estimado foram:
- Maranguape (CE): 87,2 por 100 mil habitantes
- Jequié (BA): 79,4 por 100 mil habitantes
- Maracanaú (CE): 74,1 por 100 mil habitantes
- Itapipoca (CE): 74 por 100 mil habitantes
- Caucaia (CE): 72,9 por 100 mil habitantes
Entre os 20 municípios mais violentos desse grupo, 17 estavam no Nordeste, dois no Norte e um no Centro-Oeste. A Bahia respondeu por 10 cidades no ranking, e o Ceará por cinco. Na outra extremidade, as menores taxas entre municípios com mais de 100 mil habitantes foram registradas em:
- Jaraguá do Sul (SC): 2 por 100 mil habitantes
- Brusque (SC): 2,6 por 100 mil habitantes
- Santa Bárbara d’Oeste (SP): 3,2 por 100 mil habitantes
- Lavras (MG): 3,6 por 100 mil habitantes
- Bragança Paulista (SP): 3,8 por 100 mil habitantes
Os 20 municípios com menores taxas estavam todos no Sudeste e no Sul: 15 no Sudeste e cinco no Sul. A taxa média dos 20 municípios mais violentos foi de 64,7 homicídios por 100 mil habitantes, enquanto a dos 20 menos violentos ficou em 4,9, uma diferença de 13,2 vezes.
Capitais registram variação de 9,7 a 52,7 homicídios por 100 mil
Entre as capitais brasileiras, em 2024, as taxas de homicídio estimado variaram de 9,7 a 52,7 por 100 mil habitantes. A média foi de 26,6. Das 27 capitais, 14 tiveram taxa acima da referência nacional de 23,4. Salvador liderou o ranking negativo com taxa de 52,7 por 100 mil habitantes. As maiores taxas foram registradas em:
- Salvador: 52,7 por 100 mil habitantes
- Maceió: 45,9 por 100 mil habitantes
- Macapá: 45,6 por 100 mil habitantes
- Recife: 45,5 por 100 mil habitantes
- Fortaleza: 42,2 por 100 mil habitantes
As menores taxas ocorreram em:
- Florianópolis: 9,7 por 100 mil habitantes
- Distrito Federal: 10,9 por 100 mil habitantes
- Curitiba: 13,2 por 100 mil habitantes
- Goiânia: 14,7 por 100 mil habitantes
- São Paulo: 15,3 por 100 mil habitantes
O Atlas chama atenção para o peso desproporcional de homicídios ocultos em algumas capitais do Centro-Sul. Em São Paulo, foram estimados 1.539 homicídios ocultos, o equivalente a 84,7% dos homicídios estimados na capital. Em Belo Horizonte, foram 441 homicídios ocultos, ou 65,2% do total estimado. Também apresentam peso relevante de homicídios ocultos o Rio de Janeiro, com 17% do total estimado; Fortaleza, com 16,1%; e Natal, com 15,9%.
Metodologia utiliza aprendizado de máquina para estimar casos ocultos
O Atlas utiliza dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde. O número oficial de homicídios considera óbitos causados por agressão, intervenção legal e operações de guerra. O problema, segundo o relatório, reside no fato de que nem sempre a causa básica de uma morte violenta é identificada. Quando isso acontece, o caso pode ser classificado como morte violenta por causa indeterminada, não como homicídio.
Para estimar os homicídios ocultos, os pesquisadores analisam características das vítimas, como idade, sexo, estado civil, escolaridade e município de residência, além de informações sobre a ocorrência, incluindo instrumento utilizado, data e local do incidente. A partir dessa análise, o modelo calcula a probabilidade de uma morte violenta sem causa determinada ter sido, na verdade, um homicídio. Essa abordagem permite maior compreensão do cenário de violência real no país, distinguindo entre subnotificação e redução genuína de crimes.
Segundo o Atlas, as diferenças entre homicídios registrados, homicídios estimados e dados policiais decorrem, na maior parte das vezes, de problemas técnicos no compartilhamento de informações entre secretarias de saúde e de segurança pública de diferentes estados. O relatório afirma que essas diferenças não significam, em geral, intenção de gestores estaduais em esconder dados, mas antes refletem desafios estruturais no sistema de informação criminal nacional.

