O chefe da Nasa, Jared Isaacman, defendeu nesta quarta-feira a formação da tripulação da terceira missão do programa Artemis, que visa retornar humanos à Lua, composta inteiramente por homens. O anúncio de uma equipe 100% masculina provocou questionamentos e críticas sobre eventual interferência política, uma vez que, desde o retorno à Casa Branca, o presidente Donald Trump determinou que agências federais acabassem com iniciativas ligadas a diversidade e inclusão.
Isaacman, no entanto, destacou em postagens nas redes sociais que a escolha da tripulação “não tem relação com decisões políticas”. “O Escritório de Astronautas seleciona a equipe que oferece à missão a maior chance de atingir seus objetivos”, declarou, explicando que aspectos como perfil, experiência e disponibilidade dos astronautas guiam o processo.
A terceira fase do programa Artemis III envolverá testes com a espaçonave Orion e manobras de encontro e acoplamento com módulos de pouso lunar. A missão não incluirá viagem à superfície da Lua.
A tripulação anunciada na terça-feira conta com os astronautas americanos Randy Bresnik, Andre Douglas e Frank Rubio, além do italiano Luca Parmitano, o primeiro europeu a integrar uma missão Artemis.
Promessa de diversidade
A Nasa havia prometido levar à Lua uma mulher e uma pessoa negra. No ano passado, porém, a agência removeu de algumas páginas na internet menções a esse compromisso e, de modo mais amplo, à diversidade. Isso não significa necessariamente que a promessa tenha sido descartada, mas ela deixou de ser citada de forma explícita.
Isaacman afirmou que quem manifesta essa preocupação talvez não conheça bem o processo de formação das tripulações e recordou que já existem astronautas em treinamento específico para a Lua que se adequariam melhor a futuras missões de alunissagem.
‘Testemunha passiva’
Em fevereiro, a Nasa anunciou que, em vez de seguir para a Lua como previsto inicialmente para a Artemis III, a missão funcionaria como voo de teste para demonstrar a capacidade de encontro e acoplamento com pelo menos um módulo de pouso lunar em órbita baixa da Terra. Essa alteração prepara o terreno para duas tentativas de pouso lunar pela Nasa em 2028, nas missões Artemis IV e V.
Apesar do otimismo, especialistas demonstram ceticismo em relação à viabilidade de cumprir o prazo até 2028.
Acho que eu e a maioria das pessoas diríamos que não é uma data realista disse ao New York Times Casey Dreier, chefe de política espacial da Sociedade Planetária.
Segundo Dreier, o envolvimento de empresas privadas, como a Blue Origin e a SpaceX, permite realizar o plano de retorno à Lua a um custo bem inferior ao da era Apollo — mas também coloca as ambições lunares da agência em grande medida dependentes das decisões de dois bilionários, Elon Musk e Jeff Bezos.
É muita potência e muita esperança depositadas em apenas duas pessoas para fornecer uma capacidade que é realmente essencial para um objetivo nacional afirmou ele. A Nasa é uma testemunha passiva do seu próprio destino.
Nem a SpaceX nem a Blue Origin concluíram o desenvolvimento de um módulo de pouso lunar. Os foguetes destinados a levar esses módulos à Lua ainda não estão prontos: a Starship da SpaceX registrou falhas repetidas em voos de teste, e o New Glenn da Blue Origin explodiu e danificou a única plataforma de lançamento da empresa em maio. Essas situações podem atrasar a meta da Nasa de pousar na Lua em 2028. Fatores externos, como condições climáticas ruins ou paralisações governamentais, também podem interferir no cronograma.
“É irrealista”, escreveu Phil McAlister, ex-diretor da divisão espacial comercial da Nasa, em um e-mail. “Ao mesmo tempo, não vou dizer que é impossível.”
Pousar na Lua sempre representou um desafio, mesmo em missões não tripuladas. Em 2023, a Rússia tentou seu primeiro pouso lunar desde os anos 1970, mas a espaçonave colidiu com a superfície. Uma espaçonave japonesa, que carregava dois veículos exploradores, aterrissou de cabeça para baixo na Lua em 2024. A Intuitive Machines, empresa privada sediada em Houston, pousou um veículo que tombou de lado no ano passado.
A China, por sua vez, obteve sucesso notável com pousos lunares. Enviou veículos exploradores à superfície em 2013 e 2019, e coletou amostras de poeira lunar do lado visível em 2020 e do lado oculto em 2024. O país planeja levar humanos à Lua até 2030.

