Cientistas identificam vasta província de bacias em forma de leque sob o gelo da Antártida Oriental

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Antártida - AndTheyTravel/Shutterstock.com

Cientistas identificaram uma enorme estrutura geológica oculta sob a camada de gelo da Antártida Oriental. Composta por cerca de 30 bacias interligadas que se abrem em padrão radial a partir de um ponto próximo ao Polo Sul, a província abrange uma área de escala continental.

A descoberta, publicada na Nature Geoscience, foi liderada pelo geofísico Egidio Armadillo, da Universidade de Gênova, em colaboração internacional. Os pesquisadores batizaram a região de Província da Bacia em Forma de Leque da Antártida Oriental (EAFBP, na sigla em inglês). Ela se estende por centenas de quilômetros, delimitada a oeste pelas Montanhas Gamburtsev e a leste pelas Montanhas Transantárticas.

Formação ligada à quebra do supercontinente

A estrutura não resulta de erosão glacial aleatória, mas de um processo tectônico de extensão rotacional intraplaqueta. Esse mecanismo ocorreu antes da fragmentação do supercontinente Gondwana, provavelmente no final do Mesozoico ou transição para o Cenozoico, há cerca de 150 milhões de anos. A geometria em leque, com bacias em forma de V alinhadas radialmente, criou uma zona de fraqueza que influenciou a separação entre Antártida e Austrália.

Os cientistas observaram que as margens continentais passivas resultantes apresentam formato semicircular compatível com o padrão onshore. Falhas transversais circulares segmentam a região, e o movimento rotacional também afetou as Montanhas Transantárticas, causando rotação de cerca de 20 graus em um dos blocos.

Impacto no fluxo glacial e previsões futuras

Essa topografia soterrada não é apenas registro histórico. Como as bacias subjazem cerca de metade do manto de gelo da Antártida Oriental — o maior do planeta, com volume capaz de elevar o nível global do mar em dezenas de metros se derretesse —, elas guiam o movimento do gelo. O relevo rochoso direciona o fluxo das geleiras e a formação de trincheiras glaciares.

O que muda na prática: entender melhor essa estrutura permite modelos mais precisos de estabilidade do gelo. Isso é crucial para projeções de elevação do nível do mar, especialmente em cenários de aquecimento global, já que o leito irregular pode acelerar ou estabilizar o escoamento em diferentes setores.

Os pesquisadores combinaram dados de radar de penetração no gelo, gravidade, magnetismo e sísmica com topografia reconstruída considerando o rebote isostático — a terra sob o gelo se elevaria até um quilômetro se o manto desaparecesse. A análise revelou um padrão coerente em escala continental que passava despercebido em levantamentos anteriores.

Contexto maior na geologia antártica

A Antártida Oriental representa uma lacuna significativa na compreensão da evolução da crosta terrestre e da história de Gondwana. Com o gelo alcançando milhares de metros de espessura em alguns pontos, o continente permaneceu isolado por milhões de anos. Essa nova província ajuda a preencher lacunas sobre rifteamento continental e formação de montanhas não compressivas.

A equipe não buscava inicialmente uma estrutura em leque. O foco era reconstruir a paisagem subglacial sem o peso do gelo. A observação do padrão radial surgiu da análise integrada dos dados.

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