Estudo revela origem da obsessão de chatbots por Elias Thorne e faróis em narrativasPor Beatriz
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Modelos de linguagem de grande porte (LLMs) como ChatGPT, Gemini e Claude têm demonstrado uma curiosa e persistente tendência de criar histórias centradas em um personagem chamado Elias Thorne. Essa figura, que surge sem ser solicitada, já extrapolou o universo dos assistentes virtuais e agora se manifesta em livros autopublicados no Amazon, vídeos no YouTube e até em sites de notícias falsas, levantando questões sobre a formação e os vieses dessas tecnologias.
A onipresença de Elias Thorne nas narrativas de inteligência artificial
O engenheiro de software Daniel May foi um dos primeiros a notar essa peculiaridade no início de 2026, percebendo um aumento nas buscas por “Elias Thorne” no Google Trends, que coincidiu com o crescimento de termos como “faroleiro”. Ao testar diversos chatbots, May observou que, ao serem solicitados a contar uma história, muitos frequentemente iniciavam narrativas com temas similares, envolvendo faróis, relojoeiros ou exploradores. A personagem aparece sob várias profissões, desde guardião de farol e relojoeiro até bibliotecário.
Pesquisa acadêmica desvenda a recorrência do personagem nos robôs
Em maio, pesquisadores da Cornell University, Sil Hamilton e David Mimno, publicaram um estudo pré-print intitulado “Elias in the Lighthouse, Again?”. A pesquisa analisou 20.000 histórias geradas por ChatGPT da OpenAI, Claude da Anthropic e Gemini do Google, além do chatbot do Allen Institute for AI. O levantamento revelou que mais de 88% das histórias continham as mesmas 11 palavras, com pouca variação entre os modelos.
- Nomes próprios como Elias, Mara e Elara.
- Ocupações específicas como faroleiro, relojoeiro e bibliotecário.

A origem do personagem na ‘árvore genealógica’ dos modelos de linguagem
Os pesquisadores sugerem que a frequência desses temas está ligada ao processo de alinhamento e segurança dos modelos. Segundo Hamilton, o desenvolvimento atual de LLMs forma uma “árvore genealógica”, onde muitos modelos estão interligados, utilizando dados de treinamento sintetizados a partir de outros. O primeiro modelo do ChatGPT, o GPT-3.5, é considerado a raiz dessa árvore e foi usado para criar o WildChat, um conjunto de dados de treinamento que, por sua vez, foi utilizado para gerar novos conjuntos.
O WildChat contém um milhão de conversas reais com o ChatGPT, e 166 delas já incluíam o nome “Elias” em um estilo narrativo que remete aos faróis. Modelos subsequentes, treinados com o WildChat, replicaram esse estilo. Os desenvolvedores, sem perceber, perpetuaram essa “infecção” ao usar esses modelos para criar novos conjuntos de dados, agindo como um “vírus” que espalhou a história.
Elias Thorne: do chatbot para o mundo real da desinformação
A presença de Elias Thorne transcendeu o ambiente dos chatbots. Daniel May notou o nome de Elias Thorne como autor de manuais de medicina alternativa, guias de algoritmos do YouTube, livros sobre mitologia grega e até uma novela de suspense psicológico no Amazon. “Nenhum humano escreve tudo isso”, observou May, destacando o perigo de conselhos nocivos que podem surgir dessas publicações.
A proliferação de livros gerados por IA no Amazon nos últimos anos tem incluído conteúdos com desinformação e erros grosseiros, causando problemas para bibliotecários. Elias também invadiu o “slop world” do YouTube e de sites de notícias falsas. Em vídeos com ilustrações de baixa qualidade, ele aparece como um sargento-mor de 83 anos ou como um homem baleado pela esposa em um santuário de répteis. Frequentemente, é retratado como uma figura trágica, injustiçada e idosa, embora o nome também tenha sido usado em uma história humana finalista de um concurso infantil da BBC.
Alinhamento de segurança dos modelos de IA explica a preferência por narrativas ‘seguras’
A questão de por que os LLMs parecem recorrer ao tema do farol, apesar de terem acesso a toda a literatura mundial, reside na tentativa dos desenvolvedores de higienizar e alinhar as saídas dos modelos para garantir segurança. Hamilton explica que muitas histórias no WildChat não eram “seguras para o trabalho”. Isso levou os pesquisadores a levantar a hipótese de que os modelos, ao passar pelo alinhamento, acabam preferindo uma pequena fração de histórias “seguras” do WildChat, como um gargalo. Não é que as histórias de Elias sejam frequentes em termos absolutos, mas sim que são consistentemente “seguras”, tornando-as uma saída padrão para os modelos.
Os pesquisadores planejam explorar essa teoria em futuras investigações. Curiosamente, houve um Elias que se aproximou das histórias dos LLMs na vida real: Elias Allen, um relojoeiro do século XVI em Londres, além de um cientista maluco viajante do tempo na série de cards Dinosaurs Attack! dos anos 80, mostrando que o nome já tinha alguma presença cultural antes da era da IA generativa.







