Barcelona celebra conclusão da Torre de Jesus na Sagrada Família, mas obra secular de Gaudí avança em controvérsia

Sagrada Família

Sagrada Família -StockMediaSeller/Shutterstock.com

Turistas e moradores em Barcelona não conseguem evitar fixar o olhar para o alto ao contemplar a imponente Sagrada Família, um marco arquitetônico da Espanha. Os olhos dos visitantes são imediatamente conduzidos pelas linhas surreais e sinuosas que compõem as torres esculturais, culminando no topo de cada agulha.

Essa observação agora atinge um novo patamar de altura. Com mais de 144 anos de trabalhos ininterruptos, a cruz que coroa a torre principal, conhecida como “Torre de Jesus”, foi instalada em fevereiro, prometendo fazer da igreja a estrutura religiosa mais elevada do mundo, com 172,5 metros.

Interrupções devido a conflitos, questões políticas e desafios de financiamento marcaram o progresso da majestosa, porém incompleta, Sagrada Família por décadas na paisagem barcelonesa. Agora, a aguardada torre final teve sua revelação.

O Papa Leão XIV, o 11º pontífice desde o início dos trabalhos, presidiu uma missa solene e uma cerimônia no dia 10. Embora diversas partes da estrutura principal ainda demandem anos para serem finalizadas, o ano de 2026 havia sido estabelecido como meta para a conclusão efetiva da torre. A data de 10 de junho, que marca o término da Torre de Jesus, a última das 18 torres, também coincide com o centenário da morte de Antoni Gaudí, o visionário arquiteto responsável pelo projeto.

A Sagrada Família se destaca como uma obra-prima de cor, arte e complexidade geométrica. Mais que um emblema religioso, o edifício reflete o profundo respeito de Gaudí pela natureza e sua maestria em engenharia avançada.

Um exemplo vívido da complexidade deste empreendimento é a peça final do quebra-cabeça arquitetônico: a cruz no ponto mais alto da Torre de Jesus, que brilha em um branco intenso sob o sol espanhol. Com a altura equivalente a um prédio de cinco andares e um peso estimado de 100 toneladas, sua instalação foi um processo elaborado que durou vários meses.

De acordo com o gerente de projeto, o arquiteto mexicano Mauricio Cortes, a intenção de Gaudí era que a cruz resplandecesse durante o dia e iluminasse o contorno da cidade à noite. Assim como seus antecessores, Cortes precisou equilibrar dois grandes obstáculos: manter-se fiel à concepção original de Gaudí e, ao mesmo tempo, cumprir os rigorosos requisitos técnicos, incluindo a necessidade de que a torre fosse relativamente leve.

A fabricação da cruz ocorreu na Alemanha, de onde foram enviadas para a Espanha 14 peças pré-fabricadas em concreto e aço inoxidável. A escolha do aço inoxidável, um material pouco convencional na época de Gaudí, foi fundamental para diminuir o peso total da estrutura sem comprometer a resistência exigida.

Após chegarem a Barcelona, as peças foram cuidadosamente transportadas por guindaste para uma oficina montada a aproximadamente 60 metros acima do nível do solo, logo acima da nave principal da basílica.

Antes da cerimônia de conclusão, Cortes conduziu uma equipe em uma visita guiada pelo edifício, comentando que, naturalmente, “os tempos mudaram, e a tecnologia e os regulamentos avançaram”. Mesmo diante dessas mudanças, ele manifesta confiança de que a obra permanece leal à visão original de Gaudí para a Sagrada Família. “Acho que certamente está bem próxima do exterior (como planejado por Gaudí)”, acrescentou. “Há mais espaço para interpretação no interior, já que Gaudí não especificou os detalhes.”

Torre principal da Sagrada Familia – X/sagradafamilia

A arquitetura sagrada que desafia os céus da Catalunha

Do ateliê, localizado em um ponto estratégico e elevado, é possível ter uma visão panorâmica não apenas de toda a cidade de Barcelona, mas também de detalhes dos elementos arquitetônicos que coroam as edificações.

Era uma perspectiva que Gaudí sabia que jamais presenciaria em vida. Desde o momento em que assumiu o comando do projeto, após a saída do arquiteto Francisco de Paula Villar devido a um desentendimento com a construtora, Gaudí tinha consciência de que não veria a obra finalizada. A escala e a complexidade do empreendimento tornavam isso praticamente impossível para uma única vida.

É amplamente conhecida a história de que, ao ser questionado sobre a data de conclusão, Gaudí teria respondido: “O cliente não tem pressa”. Ele se referia a Deus, e não à construtora ou aos fiéis de Barcelona.

Gaudí, natural da Catalunha, viveu o bastante para presenciar a finalização da primeira torre. Contudo, ele jamais poderia prever os inúmeros obstáculos que atrasariam o projeto após seu falecimento em 1926.

Dez anos após a morte de Gaudí, a Espanha foi tomada pelo caos. Em julho de 1936, anarquistas atearam fogo ao subsolo da Sagrada Família e invadiram o ateliê do arquiteto, resultando na destruição de muitas plantas e maquetes de gesso. Felizmente, nem todo o material foi perdido.

Grande parte das informações perdidas foi recuperada por meio de discípulos e colaboradores de Gaudí, que haviam documentado seus planos em livros, artigos, esboços e fotografias. Mais importante ainda, conforme o atual arquiteto-chefe, Jordi Fauri, Gaudí transmitiu uma filosofia de design específica aos seus sucessores. Embora tecnologias modernas como softwares de modelagem digital e robôs industriais tenham sido empregadas nas construções mais recentes, os princípios fundamentais permaneceram intocados.

Outro grande desafio sempre foi assegurar o financiamento. A Sagrada Família, concebida como uma “igreja da expiação”, depende exclusivamente de doações e das taxas de entrada, que passaram a ser cobradas desde a sua abertura ao público em 2010, para manter o ritmo das obras. Este modelo de custeio, baseado integralmente em contribuições voluntárias e no turismo, distingue-a de muitas catedrais históricas europeias, frequentemente financiadas por monarquias ou amplos fundos eclesiásticos.

A fragilidade desse sistema ficou evidente quando a pandemia de COVID-19 provocou um colapso na indústria do turismo, causando uma queda drástica na arrecadação de ingressos. No entanto, o fluxo de visitantes se recuperou rapidamente desde então, com quase 5 milhões de pessoas visitando o templo apenas no último ano.

Novos desafios e uma polêmica aguardam a finalização da fachada da Glória

Embora a Sagrada Família possa aparentar um estado de conclusão, a realidade é que a obra está longe de ser finalizada. Com a Torre de Jesus agora erguida (a previsão de conclusão do interior é apenas para 2028), as atenções se voltam para uma de suas entradas principais, a “Fachada da Glória”.

Sendo a última das três decorações de fachada planejadas por Gaudí e considerada a entrada principal, sua construção tem gerado tensões significativas com os moradores que vivem do outro lado da rua.

O cerne da questão reside no projeto de instalação de uma grande escadaria. Como a entrada principal fica a cerca de 4 metros acima do nível da rua, a Fundação do Comitê de Construção da Sagrada Família propôs uma imponente estrutura que conectaria o edifício à via pública, permitindo a passagem de pedestres por baixo. Este plano demandaria um espaço considerável e poderia, potencialmente, implicar na demolição de um prédio de apartamentos em frente, motivo pelo qual muitos comerciantes e residentes locais se opõem veementemente à proposta.

Alicia Busquets, que reside nas proximidades há três décadas, é uma das pessoas diretamente afetadas.

“Existe alguém que possa garantir que minha casa não será demolida em dois anos?”, questiona Busquets, expressando a incerteza que paira sobre a comunidade.

Segundo Salvador Barroso, líder de um grupo de moradores impactados pela proposta, muitos compartilham das mesmas preocupações e reclamam da ausência de informações claras sobre o cronograma da obra. Enquanto isso, a comissão responsável pela construção mantém que precisa primeiramente chegar a um acordo com a prefeitura antes de debater o assunto com os moradores.

Embora essa controvérsia provavelmente não ofusque os eventos desta semana, ela serve como um lembrete contundente de que a Sagrada Família permanece inacabada, e o destino daqueles que vivem à sua sombra por tanto tempo ainda está por ser resolvido.

“Estamos num beco sem saída”, afirmou Barroso. “Há todo tipo de rumores e todo tipo de coisa sendo dita, mas a realidade é que nada é certo. Com a visita do Papa a poucos dias de distância, é como uma panela de pressão.”

Veja Também