Investigação sobre ‘safári humano’ na Guerra da Bósnia enfrenta entraves por falta de provas na Itália

Sarajevo

Sarajevo - frantic00/ shutterstock.com

A justiça italiana ainda não conseguiu reunir elementos suficientes para iniciar o julgamento de pessoas suspeitas no polêmico caso conhecido como “safári humano” em Sarajevo, durante o conflito na Bósnia. Uma fonte da Procuradoria da Itália confirmou a informação nesta quinta-feira (18), segundo uma agência de notícias.

O Ministério Público italiano está apurando as alegações de que, ao longo da década de 1990, um “turismo de guerra” prosperou na Bósnia. Indivíduos teriam viajado para a região para atirar contra civis durante o cerco à capital Sarajevo. De acordo com as denúncias, esses “turistas” efetuavam pagamentos que variavam entre 80 mil e 100 mil euros (aproximadamente R$ 490 mil a R$ 610 mil em valores atuais) a milícias sérvio-bósnias e a intermediários.

Cinco indivíduos foram colocados sob investigação pelos procuradores de Milão, acusados de pagar para disparar contra moradores durante o cerco de Sarajevo, ocorrido entre 1992 e 1995. Entre os investigados está um aristocrata milanês que, supostamente, teria se vangloriado em um jantar de ter participado de tiroteios contra pessoas em Sarajevo.

A apuração teve início no ano passado, após o jornalista e romancista Ezio Gavazzeni protocolar uma queixa formal. Ele detalhou alegações de que estrangeiros de alta renda se deslocavam à Bósnia com o propósito de participar de “excursões de tiro” durante o período da guerra na antiga Iugoslávia.

Apesar da seriedade da denúncia, a promotoria, no momento, dispõe apenas de indícios circunstanciais, sem provas concretas que sustentem o avanço do caso. A falta de evidências substanciais, característica de crimes ocorridos décadas atrás e envoltos em sigilo, representa um grande desafio. Uma fonte da Procuradoria italiana afirmou que, atualmente, seria inviável para os promotores solicitarem que qualquer um dos suspeitos seja levado a julgamento.

Valores impressionantes do ‘safári humano’ e o cerco na Bósnia

Para discutir o andamento do caso, o promotor de Milão Alessandro Gobbis, responsável pela investigação, e o procurador-chefe Marcello Viola, têm um encontro marcado para 29 de junho. A reunião ocorrerá com promotores belgas e bósnios na Eurojust, órgão de cooperação judiciária da União Europeia, sediado em Luxemburgo.

Sarajevo – Aleksandr Medvedkov/ shutterstock.com

A expectativa é que este encontro com as autoridades internacionais e a continuidade das investigações possam trazer novos elementos e mais clareza ao processo.

Recentemente, a polícia italiana realizou buscas na residência de um dos suspeitos, um ex-funcionário público de 66 anos, originário de Gênova e que agora reside na província de Alessandria, no noroeste da Itália. O indivíduo já havia sido interrogado nos meses anteriores, optando por exercer seu direito de permanecer em silêncio durante os depoimentos.

A ordem de busca foi emitida após a ex-companheira do suspeito relatar que ele sofria de pesadelos frequentes relacionados a atos que ele supostamente teria cometido 30 anos antes. Durante a operação, as autoridades apreenderam um silenciador e uma fotografia de um rifle de precisão na casa do homem.

Paralelamente, existe uma linha de investigação que apura a possível existência de uma rede secreta em Milão, responsável por organizar essas “excursões de tiro” nos anos 1990. Contudo, essa vertente da investigação ainda não produziu resultados significativos até o momento.

O cerco a Sarajevo, entre 1992 e 1995, resultou na morte de aproximadamente 11 mil civis, vítimas de bombardeios e tiros de franco-atiradores posicionados pelo exército sérvio-bósnio nas colinas que cercam a cidade. O conflito teve início após a declaração de independência da Bósnia em relação à Iugoslávia.

A investigação italiana foi impulsionada pela denúncia de Gavazzeni, que trouxe à tona alegações de que italianos e outros estrangeiros pagavam membros das forças sérvias-bósnias para participarem de “excursões de tiro”, por vezes denominadas “turismo de franco-atiradores”.

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