Cientistas calculam que o cometa interestelar 3I/Atlas tem uma origem de até 12 bilhões de anos

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Cometa 3I/Atlas- Giovanni Cancemi/Shutterstock.com

Cometa 3I/Atlas- Giovanni Cancemi/Shutterstock.com

Novas análises sugerem que o cometa interestelar 3I/Atlas pode ter uma idade impressionante, datando de aproximadamente 10 a 12 bilhões de anos. Sua composição, única, difere de qualquer outro material observado até agora no Sistema Solar, conforme detalhado em uma pesquisa publicada na revista Nature.

Este corpo celeste provavelmente representa o objeto mais antigo já registrado em trânsito pelo nosso sistema estelar, explicou Martin Cordiner, cientista planetário e astroquímico do Centro de Voo Espacial Goddard da NASA, localizado em Greenbelt, Maryland, nos Estados Unidos. Cordiner é um dos principais pesquisadores envolvidos neste estudo recente.

Descobertas sobre a composição química incomum do 3I/Atlas

A pesquisa indica que o cometa 3I/Atlas se originou em um ambiente drasticamente mais frio, com temperaturas de cerca de -243 graus Celsius. Esse cenário difere substancialmente das condições prevalentes durante a formação da Terra e de outros corpos do nosso Sistema Solar, que ocorreu há aproximadamente 4,5 bilhões de anos.

Com um diâmetro estimado em 2,6 quilômetros, este objeto astronômico atravessou imensas distâncias após ser ejetado de seu sistema planetário de origem por mecanismos ainda em investigação.

“Nunca havíamos observado um corpo celeste com as características do 3I/Atlas anteriormente”, afirmou Cordiner, ressaltando a singularidade da descoberta.

Para investigar suas propriedades, os pesquisadores utilizaram o Telescópio Espacial James Webb, medindo as proporções de isótopos – variações de elementos químicos como hidrogênio e carbono – presentes no cometa.

As proporções dos isótopos de hidrogênio serviram como indicadores da temperatura e dos níveis de radiação no ambiente primordial onde o 3I/Atlas se formou. Já os isótopos de carbono forneceram insights valiosos sobre a composição da nuvem de gás interestelar que, por sua vez, deu origem ao cometa e ao seu sistema planetário hospedeiro.

Notavelmente, a água do cometa apresentou uma concentração de deutério — um isótopo de hidrogênio — aproximadamente 30 vezes superior à encontrada em cometas que orbitam o nosso Sistema Solar. As proporções de seus isótopos de carbono, por sua vez, divergiam significativamente das detectadas tanto em objetos do nosso sistema quanto em nuvens interestelares e discos protoplanetários próximos. Essa composição singular o estabelece como uma verdadeira “cápsula do tempo”, oferecendo pistas sobre as condições do universo em seus primórdios e sobre a formação planetária em ambientes drasticamente distintos do nosso.

Cordiner sugeriu que o 3I/Atlas é, muito provavelmente, um fragmento remanescente do processo de formação de planetas que ocorreu em torno de outra estrela distante.

“As informações obtidas através do Telescópio James Webb indicam que o ambiente de origem do sistema planetário hospedeiro do 3I/Atlas era bem diferente do nosso próprio Sistema Solar”, explicou Cordiner. Ele acrescentou que esse local “provavelmente era mais frio, com menor abundância de metais, e sujeito a uma radiação mais intensa de raios ultravioleta e cósmicos.”

O cometa 3I/Atlas se destaca por sua riqueza em moléculas orgânicas, que incluem elementos essenciais como carbono, hidrogênio, nitrogênio, oxigênio e enxofre. Conforme Cordiner, essa característica “demonstra que, mesmo com uma origem em um local frio e distante, os componentes voláteis cruciais para o desenvolvimento da vida, como a conhecemos, eram abundantes naquele disco planetário remoto em formação.”

A cronologia da formação do cometa 3I/Atlas

A análise da composição de carbono no 3I/Atlas sugere que sua formação ocorreu há aproximadamente 12 bilhões de anos, em um período de grande atividade de formação estelar em sua galáxia de origem. Para contextualizar, o Universo teve seu início com o Big Bang há cerca de 13,8 bilhões de anos.

Embora os pesquisadores pensem que o cometa possa ter se formado na Via Láctea, sua idade avançada não exclui a possibilidade de uma origem em outra galáxia.

“Eu costumava acreditar que as distâncias entre as galáxias eram excessivamente grandes, mas, de fato, um objeto interestelar de alta velocidade poderia alcançar nosso sistema em apenas um bilhão de anos, vindo de galáxias vizinhas como as Nuvens de Magalhães”, comentou Cordiner.

O cometa 3I/Atlas pode ter sido expelido de seu sistema estelar original devido a intensas interações gravitacionais com planetas, embora a hipótese de uma colisão também seja avaliada como um possível mecanismo.

Anteriormente, outros dois objetos interestelares foram identificados em trânsito pelo nosso sistema solar: o cometa 1I/’Oumuamua, avistado em 2017, e o 2I/Borisov, descoberto em 2019.

Atualmente, o 3I/Atlas segue em direção à órbita de Saturno. A previsão é que ele ultrapasse a órbita de Plutão em 2029 e, por volta de 2035, cruze a fronteira externa do Sistema Solar, continuando sua jornada.

Apesar da proliferação de teorias conspiratórias que associam o 3I/Atlas a possíveis naves alienígenas, os cientistas mantêm a convicção de que ele se trata de um objeto natural.

“Enquanto a comunidade científica permanece sempre receptiva a novas compreensões, tomamos extremo cuidado na avaliação das evidências para todas as hipóteses”, declarou Cordiner. Ele concluiu afirmando que “neste caso particular, os indícios foram inequívocos desde o princípio, apontando para a observação de um objeto com características de cometa, e essa interpretação foi consistentemente validada por observações posteriores.”

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