O programa federal Move Brasil, que oferece até R$ 30 bilhões para taxistas e motoristas de aplicativo financiarem a compra de veículos novos, foi lançado na última sexta-feira (19). A iniciativa surge como uma oportunidade crucial para as montadoras, especialmente aquelas com grandes estoques parados em pátios e portos, permitindo uma rápida liberação de veículos no mercado.
Grande parte desse volume de veículos acumulados é composta por automóveis importados, totalizando 329 mil unidades. Conforme dados da Anfavea, esse número representa um abastecimento para aproximadamente 150 dias de vendas dos modelos estrangeiros. Destes, cerca de 240 mil carros, ou seja, três quartos do total, são provenientes da China.
Em maio, o volume total de autoveículos em estoque, incluindo a produção nacional, atingiu 498 mil unidades, um aumento de 55 mil em comparação com abril. Enquanto os automóveis produzidos no Brasil tiveram uma leve queda de 173 mil para 169 mil, o número de importados cresceu significativamente, passando de 270 mil para 329 mil.
A iniciativa do governo oferece condições de financiamento atrativas, com juros abaixo da média de mercado, prazos de até seis anos e a possibilidade de cobrir 100% do valor de carros de até R$ 150 mil. Criado para modernizar a frota de transporte de passageiros, o Move Brasil também gera uma nova demanda para o setor automotivo, exatamente no momento em que fabricantes chinesas buscam escoar seus estoques antes de novas elevações no imposto de importação, programadas para 1º de julho.
É importante destacar que o acúmulo desse estoque não foi motivado pela criação do Move Brasil. As importações já vinham apresentando um forte ritmo de crescimento: entre janeiro e maio, foram emplacados 108,4 mil veículos vindos da China, representando um salto de 86,6% em relação ao mesmo período de 2025. O conjunto de todos os importados, para efeito de comparação, registrou um aumento de 17,4%.
Modelos como BYD Dolphin impulsionam concorrência no mercado nacional
O sucesso do BYD Dolphin exemplifica a convergência dessas forças de mercado. O modelo elétrico e sua versão compacta, o Dolphin Mini, são elegíveis para o financiamento, têm preço inferior ao teto de R$ 150 mil e atraem profissionais que percorrem longas distâncias, para os quais a economia com combustível é um fator decisivo.
A elevada quilometragem diária desses profissionais justifica o interesse em veículos elétricos. Um motorista de aplicativo pode rodar cerca de 6,5 mil quilômetros em um mês. Em uma estimativa, considerando o preço da gasolina a R$ 6,50 e um carro com consumo de 10 km/l, o custo mensal com combustível pode chegar a R$ 4 mil.
Para um veículo 100% elétrico, os gastos mensais com energia são consideravelmente menores, não ultrapassando R$ 1 mil. Essa diferença representa uma economia mensal de aproximadamente R$ 3 mil para o motorista.
Em maio, o Dolphin Mini continuou a liderar os emplacamentos no varejo brasileiro, com 6.478 unidades, consolidando-se como o carro mais vendido do país em 2026 dentro de sua categoria. O terceiro lugar ficou com outro modelo elétrico chinês recém-chegado, o Geely EX2, que registrou 4.250 unidades, enquanto o Dolphin ocupou a quarta posição, com 4.163 vendas.
De acordo com informações da BYD, o Dolphin GS acumulou mais de 51 mil unidades vendidas desde seu lançamento, e o Dolphin Mini já superou a marca de 86 mil veículos comercializados.
A BYD anunciou nesta segunda-feira (22) que atingiu a marca de 300 mil veículos vendidos no Brasil. A empresa levou 34 meses para comercializar os primeiros 100 mil, mais 11 meses para chegar aos 200 mil e apenas seis meses para vender os 100 mil veículos seguintes. Entre janeiro e maio de 2026, a BYD emplacou 77.447 unidades, quase o dobro do volume registrado no ano anterior, e alcançou 10,11% das vendas de automóveis em maio.
Essa expansão da BYD é impulsionada, em parte, pela importação de carros prontos da China, como o Dolphin. Outra fatia vem de kits semimontados, conhecidos como SKD e CKD, que recebem acabamento final na unidade de Camaçari, na Bahia, como é o caso do Dolphin Mini. Este modelo de produção transitório é o ponto central de um embate entre a BYD e as montadoras tradicionais já estabelecidas no país.
O debate tributário se desenvolve em duas frentes distintas. As alíquotas para veículos eletrificados importados prontos serão elevadas para 35% em julho. Já para os kits SKD e CKD, o cronograma prevê que a alíquota chegue a 35% em janeiro de 2027. A BYD busca reabrir, por um período de seis meses, as cotas de importação com alíquota zero para esses kits, um benefício que esteve em vigor até janeiro deste ano.
A BYD defende que uma transição mais gradual ajudaria a manter os preços acessíveis enquanto a empresa amplia sua capacidade de produção em Camaçari. Por outro lado, a Anfavea, o Sindipeças e outras montadoras instaladas no Brasil argumentam pela restauração das tarifas como forma de incentivar mais etapas de produção local e a compra de componentes de fornecedores brasileiros.
Nesta terça-feira (23), a questão será levada ao Gecex, o comitê da Câmara de Comércio Exterior responsável por decidir sobre mudanças tarifárias. À Folha de São Paulo, a Anfavea sinalizou a possibilidade de acionar a Justiça caso o governo renove o benefício que favorece a BYD.
A Anfavea também faz uma distinção entre essa disputa e o programa Move Brasil voltado para carros leves. De acordo com o InvestNews, a associação não participou da elaboração da linha de crédito para taxistas e motoristas de aplicativo. A entidade, no entanto, esteve envolvida no desenvolvimento da parte do programa destinada a caminhões e ônibus, segmentos que enfrentam retração no mercado.
Nos primeiros cinco meses do ano, os emplacamentos de caminhões caíram 15,1% e os de ônibus, 16,3%, enquanto a produção de caminhões recuou 16,7%. Em contraste, o setor de automóveis apresentou crescimento: as vendas aumentaram 21,5%, totalizando 874,2 mil unidades, e a produção avançou 9,9%. Em maio, veículos elétricos e híbridos já representavam 19,5% dos emplacamentos de veículos leves.
A linha de financiamento para motoristas, portanto, injeta crédito subsidiado em um mercado que já demonstrava uma trajetória de crescimento.
Condições e requisitos para acessar o financiamento Move Brasil
Podem solicitar o financiamento os motoristas de aplicativo com cadastro ativo há pelo menos 12 meses e um mínimo de 100 viagens na mesma plataforma, além de taxistas e cooperativas. O veículo a ser financiado deve ser zero-quilômetro, ter valor de até R$ 150 mil e constar na lista aprovada pelo Ministério do Desenvolvimento, que inclui modelos flex, híbridos e elétricos.
Conforme as regras atuais, os contratos de financiamento devem ser formalizados até 15 de setembro de 2026, prazo vinculado à vigência da medida provisória que instituiu a linha de crédito. O programa poderá ser encerrado antes do prazo caso os recursos disponíveis se esgotem.
As montadoras participantes devem estar habilitadas no programa Mover, oferecer serviços de assistência técnica e conceder um desconto mínimo de 5% sobre o preço sugerido do veículo. A regulamentação não exige que cada unidade seja fabricada no Brasil, o que possibilita o financiamento de carros importados ou semimontados.
O crédito pode cobrir até 100% do valor do veículo, com prazo de pagamento de até 72 meses (seis anos) e carência de seis meses. A taxa de juros final é limitada a 12,6% ao ano, um valor significativamente menor em comparação com a média de 27% dos financiamentos automotivos convencionais.
Os R$ 30 bilhões representam o teto máximo da linha de crédito, não uma previsão de desembolso garantido. Um estudo do Itaú BBA estima que esse montante seria suficiente para financiar aproximadamente 250 mil carros, número próximo às 264,7 mil unidades leves emplacadas no país em maio.
O efetivo volume de financiamentos será determinado pelas instituições financeiras. Embora o BNDES administre os recursos, os bancos credenciados mantêm a responsabilidade de analisar a renda, o endividamento, o histórico de crédito e as garantias dos solicitantes. Dessa forma, um motorista pode atender aos critérios governamentais, mas ter seu pedido de crédito negado por uma instituição bancária.
Impacto do programa nas empresas de locação de veículos
O programa tem potencial para reconfigurar o mercado de locação de automóveis. Cálculos do JP Morgan indicam que o serviço Zarp, da Localiza, focado no aluguel para motoristas de aplicativo, representa 7% da frota total da companhia. Parte desses clientes pode comparar os valores da mensalidade do aluguel com as prestações subsidiadas do Move Brasil e, eventualmente, optar pela compra do próprio veículo.
Ao adquirir um carro, o motorista forma patrimônio, mas assume os custos de seguro, manutenção, impostos, pneus e a desvalorização do veículo. No modelo de aluguel, parte desses encargos está embutida na mensalidade, e há a flexibilidade de devolver ou substituir o carro.
Em comunicado, a Localiza informou que oferece benefícios para os motoristas de aplicativo que já são clientes do Zarp. Entre as vantagens, estão descontos no aluguel para contratos de longa duração e a possibilidade de compra do veículo alugado pelo motorista após 12 meses de contrato, com um desconto de 20% sobre o valor da tabela FIPE.

