A Apple anunciou na quinta-feira (25) o reajuste nos valores de seus iPads e MacBooks. A empresa justificou a medida afirmando que não seria mais possível blindar os consumidores contra a escalada dos preços de memória e chips de armazenamento, um fenômeno impulsionado pela expansão acelerada dos data centers da indústria de inteligência artificial.
Essa decisão, contudo, não atinge o iPhone, carro-chefe da companhia e principal gerador de receita. No entanto, o preço inicial do MacBook Neo, seu laptop mais acessível — criado para competir com modelos Windows de baixo custo e Chromebooks —, saltará de US$ 599 para US$ 699, poucos meses após seu lançamento.
O aumento de preços evidencia que mesmo a gigante da tecnologia, reconhecida por sua robusta cadeia de suprimentos e seu valor de mercado incomparável, não consegue escapar da inflação dos componentes. Essa alta nos custos de memória já impacta negativamente as projeções de vendas para smartphones e computadores pessoais no mercado global.
Nos últimos meses, fabricantes de memória como a Micron direcionaram sua produção para atender prioritariamente as encomendas de empresas de chips de IA, como a Nvidia. Essa estratégia garantiu lucros recordes a elas, mas gerou uma escassez de suprimentos para os produtores de eletrônicos, forçando-os a repassar os custos aos consumidores.
Em comunicado, a Apple afirmou que jamais havia presenciado uma elevação tão acentuada e veloz nos valores de um componente. A empresa declarou: “Até agora, conseguimos proteger nossos clientes desses aumentos, mas chegamos a um patamar em que precisamos começar a elevar os preços de diversos produtos, incluindo os anunciados hoje para o iPad e Mac.”
No site oficial, os preços atualizados mostram que o MacBook Air, com 512 gigabytes de armazenamento, subiu de US$ 1.099 para US$ 1.299. Já o MacBook Pro, equipado com 1 terabyte, passou de US$ 1.699 para US$ 1.999. O iPad Air, com 128 gigabytes, teve seu custo elevado de US$ 599 para US$ 749, entre outras alterações divulgadas.
Além dos computadores e tablets, a Apple também elevou os valores das duas versões do seu alto-falante inteligente HomePod e do decodificador Apple TV. As ações da empresa registraram uma queda de quase 5%, enquanto as da concorrente Dell despencaram mais de 8% no mercado financeiro.
Analistas de mercado apontaram que outros fabricantes de dispositivos podem ser obrigados a aplicar reajustes de preços ainda mais expressivos que a Apple. A gigante de Cupertino, devido aos seus laços consolidados com fornecedores, tem sido mais protegida do impacto total da alta de custos.
Ben Bajarin, CEO da consultoria tecnológica Creative Strategies, avaliou que o cenário para o mercado de memória é bastante complexo e permanecerá estruturalmente desafiador em um futuro próximo.
Em abril, a Apple já havia informado que seus estoques existentes contribuíram para manter as margens brutas acima das projeções de Wall Street. No entanto, a empresa alertou que o aumento dos custos de memória começaria a afetar o mercado até o final de maio, com uma previsão de leve redução na lucratividade.
Em teleconferência com analistas no fim de abril, o CEO Tim Cook ressaltou a expectativa de “custos de memória significativamente mais elevados”.
O executivo também declarou que, para os cenários em que não era possível detalhar informações além de junho, era certo que, a partir do trimestre de junho, os custos com memória teriam um impacto progressivamente maior nos negócios da companhia.
A Apple não divulgou quais outras medidas, além do reajuste de preços, foram adotadas para enfrentar o encarecimento dos componentes de memória. A empresa apenas reforçou na quinta-feira: “Sabemos que esta não é uma notícia bem-vinda e estamos trabalhando incansavelmente para encontrar soluções.”
Analistas de mercado preveem que a Apple também elevará os preços do iPhone nos próximos meses. Eles sugerem que o recente aumento nos valores de outros produtos pode motivar alguns potenciais consumidores a antecipar suas compras antes de novos reajustes.
“O iPhone não escapará, seu aumento de preço está a caminho”, afirmou Nabila Popal, diretora sênior de pesquisa da IDC. Ela acrescentou que foi “incrivelmente estratégico” da Apple divulgar esses aumentos antes do lançamento do iPhone no outono, garantindo que as notícias no lançamento se concentrem no valor dos novos aparelhos, e não nos reajustes de preços.
Os preços da memória RAM dinâmica, essencial em quase todos os gadgets modernos, apresentaram uma escalada impressionante. Dados da empresa de pesquisa de mercado TrendForce indicam que houve um aumento de até 98% no primeiro trimestre de 2026 e uma expectativa de nova alta entre 58% e 63% no trimestre atual. Esse cenário tem sido apelidado por especialistas de “RAMageddon”, evidenciando a gravidade da situação.
Essa intensa valorização, nomeada por alguns especialistas como “RAMageddon”, decorre de um forte crescimento na construção de data centers de inteligência artificial. Empresas como a Nvidia têm fechado contratos de longo prazo com fabricantes de memória, que se apressam para expandir sua capacidade de produção.
A Micron anunciou na quarta-feira ter garantido US$ 22 bilhões em compromissos de longo prazo de clientes. Essa movimentação demonstra a urgência das empresas em assegurar seu fornecimento de memória em um mercado volátil.
A expectativa é que o encarecimento dos componentes impacte fortemente as vendas de dispositivos neste ano. A IDC, por exemplo, projeta a maior queda anual já registrada no mercado de smartphones, de quase 14%, e um recuo de 11,3% para o mercado de PCs. O MacBook Neo, lançado em março, que inicialmente impulsionou as projeções de vendas da Apple para o trimestre de junho e fez analistas revisarem estimativas, agora perde uma vantagem crucial. Com o novo preço, ele fica US$ 100 mais caro que o laptop XPS 13, de US$ 699, lançado pela Dell para concorrer diretamente, e supera os valores de alguns Chromebooks da Lenovo e da Asus.

