Pequeno tumor cerebral leva adolescente a engordar 40 quilos em apenas seis meses e revela doença rara de Cushing

Comparação de imagens de Gustavo de Oliveira: março de 2024 (à esquerda) e dezembro de 2025 (à direita) - Arquivo Pessoal

Comparação de imagens de Gustavo de Oliveira: março de 2024 (à esquerda) e dezembro de 2025 (à direita) - Arquivo Pessoal

O corpo de Gustavo de Oliveira, um adolescente de 16 anos apaixonado por muay thai e torcedor do Athletico-PR, passou por uma transformação veloz e radical, mesmo em uma fase de intenso desenvolvimento físico.

No início de 2025, o jovem pesava menos de 70 quilos, mas, ao final do mesmo ano, sua balança registrava impressionantes 113 kg.

Por trás dessa alteração abrupta, os médicos descobriram um minúsculo tumor benigno localizado na base do crânio, que desorganizava completamente a produção de cortisol, um hormônio vital para o funcionamento adequado do organismo.

A identificação da massa tumoral ocorreu de uma maneira quase acidental, mudando o rumo da investigação médica.

Lesão no tornozelo levou à inesperada descoberta da doença

A recepcionista Silmara de Oliveira, mãe de Gustavo, começou a notar que algo estava errado com a saúde do filho em junho de 2025.

O adolescente apresentava dores de cabeça por vários dias, o que levou a mãe a verificar sua pressão arterial com um aparelho doméstico, em Curitiba.

O resultado indicou que a pressão estava alterada, gerando preocupação na família.

“Acreditamos que o equipamento poderia estar com defeito”, contou Silmara, “mas, ao mesmo tempo, ele já vinha com aumento de peso e um apetite voraz, chegando a consumir três pratos por refeição.”

Mesmo após consultas com diversos médicos e nutricionistas, e com ajustes na alimentação, a situação não melhorava, apesar de Gustavo manter uma rotina de exercícios intensa, com três aulas semanais de muay thai.

“Quanto mais nos dedicávamos à dieta, mais ele continuava a engordar”, ressaltou a mãe.

A saúde de Gustavo se deteriorou progressivamente até que um acontecimento inesperado o levou de volta ao médico: em setembro de 2025, ele sofreu uma lesão no tornozelo durante um treino de muay thai.

Como a região ficou bastante arroxeada, sua mãe decidiu levá-lo a um pronto-socorro para avaliação.

“Ele realizou uma radiografia, mas nenhuma fratura foi identificada”, lembrou Silmara.

Contudo, a médica do pronto-socorro, observando o estado geral de saúde de Gustavo, solicitou que mãe e filho retornassem no dia seguinte para uma investigação mais aprofundada.

Confirmação de uma doença rara após exames aprofundados

A família foi então encaminhada ao Hospital Pequeno Príncipe, uma instituição de referência em pediatria localizada no Paraná.

Gustavo relembrou o quanto sua condição física estava comprometida naquele período, antes do diagnóstico.

“Não conseguia caminhar na rua, nem realizar atividades básicas, porque sentia que ia desmaiar, faltava ar”, descreveu ele sobre a gravidade dos sintomas.

No hospital, Gustavo passou por uma série abrangente de exames para que os médicos pudessem confirmar ou descartar as possíveis causas de seu quadro.

Finalmente, cerca de um mês depois, em meados de outubro, os profissionais de saúde descobriram a origem do mistério que afligia o adolescente.

Gustavo foi diagnosticado com a doença de Cushing, uma condição clínica considerada extremamente incomum.

Dados globais apontam para a ocorrência de um novo caso da doença em apenas uma a cada um milhão de crianças por ano, o que torna seu diagnóstico um desafio significativo para a medicina devido à raridade e à complexidade dos sintomas.

“Quando os médicos nos deram o diagnóstico, tudo fez sentido, parecia que a história toda se encaixava”, recordou Silmara.

Entenda os mecanismos da doença de Cushing e seus impactos

Doença de Cushing (doença endócrina) – ibreakstock/ Istockphoto.com

Basicamente, a doença de Cushing é desencadeada pela formação de um tumor benigno na hipófise, uma glândula situada na base do cérebro, responsável pela produção do hormônio ACTH.

O ACTH, por sua vez, tem a função de estimular as glândulas suprarrenais, localizadas acima dos rins, a produzir outro hormônio fundamental: o cortisol.

Em pacientes com a doença de Cushing, o que ocorre é uma produção excessivamente elevada de cortisol no organismo.

“Esse volume excessivo de cortisol gera múltiplas alterações no paciente. Como observado no caso de Gustavo, há um ganho de peso considerável, inchaço, o rosto adquire um formato mais arredondado e ocorre acúmulo de gordura no tronco”, explicou o neurocirurgião Carlos Mattozo, do Hospital Pequeno Príncipe.

O especialista revelou que, em quase três décadas de prática médica, ele havia tratado apenas quatro pacientes com essa rara enfermidade.

O tratamento mais comum para esses casos é a intervenção cirúrgica, que visa a remoção do tumor da hipófise.

Gustavo confessou que a notícia de que precisaria passar por uma cirurgia o deixou apreensivo e desanimado.

“Porque, ao se falar em cirurgia cerebral, a gente imagina que a cabeça será aberta ao meio para retirar o tumor”, expressou o jovem, descrevendo seu receio inicial.

A boa notícia, contudo, é que a cirurgia para tratar a doença de Cushing é minimamente invasiva, sem a necessidade de incisões externas; todo o procedimento é realizado pelas narinas, com o auxílio de câmeras de fibra ótica e instrumentos delicados.

“Há um osso localizado atrás do nariz, o esfenoide. Ele é oco, o que permite perfurá-lo para acessar diretamente a região da glândula hipófise”, detalhou o Dr. Mattozo sobre o método.

Processo de cirurgia e a fase de recuperação do adolescente Gustavo

A cirurgia de Gustavo foi realizada em dezembro de 2025, teve uma duração aproximada de duas horas e foi considerada um grande sucesso pelos médicos.

Segundo a equipe médica responsável pelo acompanhamento, o adolescente demonstrou boa evolução, apresentando alguns efeitos colaterais esperados, como prostração e leves dores de cabeça, além de uma desregulação temporária nos níveis de cortisol.

“Antes do procedimento, as glândulas suprarrenais de Gustavo estavam sob um estímulo anormal que causava a produção excessiva de cortisol. Ao removermos o tumor, esse estímulo foi interrompido, levando o organismo a um desequilíbrio e a uma queda abrupta na produção do hormônio”, explicou o Dr. Mattozo.

Atualmente, Gustavo continua realizando exames e tratamentos de reposição hormonal para que seu corpo possa restabelecer o equilíbrio ideal entre a hipófise e as glândulas suprarrenais.

O período de excesso de peso e cortisol elevado deixou sequelas em sua saúde, afetando principalmente o fígado, os olhos, o coração e a pressão arterial.

No primeiro semestre de 2026, o adolescente já conseguiu perder cerca de 15 quilos, um indicativo positivo de sua recuperação.

Em relação à doença de Cushing, ele é classificado como um paciente em remissão, o que significa que o tratamento foi eficaz na contenção da enfermidade.

Na prática, isso implica a necessidade de acompanhamento médico anual para monitorar e prevenir um possível retorno do tumor, evitando uma nova intervenção cirúrgica.

Desafios e a demora comum para o diagnóstico da doença

Para o Dr. Mattozo, histórias como a de Gustavo servem como um importante alerta para que os profissionais de saúde mantenham a vigilância e questionem diagnósticos que, à primeira vista, possam parecer óbvios.

“Como professor universitário, instruo meus estudantes a aprofundarem seus estudos e a considerarem sempre diversas possibilidades de doenças por trás dos sintomas apresentados”, comentou o médico.

“No caso da doença de Cushing, estima-se que os pacientes aguardem, em média, dois anos para receber o diagnóstico correto. Durante esse tempo, eles são submetidos a terapias que não produzirão resultados”, complementou o neurocirurgião, destacando os riscos da demora.

Silmara reiterou que essa situação de atraso no diagnóstico poderia facilmente ter ocorrido com seu próprio filho, agravando seu quadro de saúde.

“Se ele não tivesse tido essa lesão no tornozelo, talvez não teríamos descoberto a doença até hoje”, especulou a mãe, ressaltando a importância do incidente.

“E essa descoberta foi possível graças à médica que demonstrou um olhar mais abrangente. Ela poderia ter apenas cuidado da perna dele e ignorado o restante”, acrescentou a mãe, valorizando a atenção da profissional.

Para alguns indivíduos, o longo intervalo entre o surgimento dos sintomas e a confirmação do diagnóstico pode ser fatal, pois o ganho de peso, as alterações na pressão e os danos a órgãos vitais, como o fígado, podem levar a complicações graves, incluindo ataques cardíacos.

Por essas e outras razões, Gustavo decidiu compartilhar abertamente sua jornada com a doença, na esperança de conscientizar e auxiliar outras pessoas que possam estar enfrentando condições semelhantes.

“Desejo que outros não precisem passar pelo que eu passei e consigam tratar o tumor antes que os sintomas de ganho de peso e pressão alta se agravem ainda mais”, concluiu o adolescente.

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