Estilo de vida pode prevenir demência, revelam pesquisas recentes
Uma questão frequentemente ouvida por Kristine Yaffe em sua clínica de memória revela uma angústia comum: “Eu faço tudo certo, mas por que tenho a doença de Alzheimer?”. Essa indagação sublinha a complexidade da demência, onde esforços dedicados para diminuir os riscos não oferecem uma garantia de imunidade à doença.
Yaffe, neurologista e especialista em demência da Universidade da Califórnia, em São Francisco, enfrenta a difícil tarefa de explicar que, apesar de adotar todas as medidas preventivas disponíveis, não há como assegurar que alguém evitará a condição.
Esta realidade reflete um desafio significativo em sua área de estudo. Inúmeras pesquisas identificaram diversas escolhas de estilo de vida que podem reduzir o risco de demência, como uma alimentação equilibrada, atividade física regular e estimulação cognitiva e social. Fatores menos óbvios, como o tratamento de perdas visuais e auditivas e, possivelmente, a vacinação contra herpes-zóster, também foram associados a um risco menor. Contudo, a dificuldade reside em determinar o impacto real de cada uma dessas ações na redução do risco.
Não faltam esforços para desvendar essa questão. Cresce o número de ensaios clínicos ambiciosos que investigam o efeito de intervenções no estilo de vida. Estes estudos oferecem auxílio intensivo para melhorar a dieta, a rotina de exercícios, as conexões sociais e a saúde cardiovascular e cerebral dos participantes. Exemplos incluem o estudo FINGER, realizado na Finlândia com cerca de 2.650 pessoas, e o estudo POINTER, que custou milhões de dólares nos Estados Unidos. Essas e outras pesquisas indicam que programas de estilo de vida podem impulsionar o desempenho cognitivo.
Entretanto, tais intervenções intensivas demonstram uma ajuda apenas ligeira, resultando em um benefício modesto em alguns testes de memória. Nenhuma dessas abordagens conseguiu reduzir a incidência de demência, e há críticos que apontam os altos custos e a dificuldade de implementação em larga escala desses programas.
Neste mês, novos estudos clínicos, incluindo desdobramentos do FINGER na Holanda e em 12 países da América Latina, devem divulgar seus resultados. Além disso, a Organização Mundial da Saúde publicará suas novas diretrizes para a redução do risco de demência em 16 de julho. A busca por métodos eficazes de redução de riscos é vital para pesquisadores, médicos e a população em geral, especialmente considerando a previsão de um aumento drástico no número de pessoas com demência nas próximas décadas.
Alguns especialistas expressam ceticismo quanto ao impacto significativo das intervenções no estilo de vida, enquanto outros defendem que qualquer diminuição no declínio cognitivo justifica o investimento. Outra preocupação levantada é a excessiva ênfase na responsabilidade individual, negligenciando fatores cruciais que influenciam o risco, como a poluição do ar e o acesso à educação e a alimentos saudáveis, que estão, em grande parte, fora do controle pessoal. “Este é um problema social”, enfatiza Edo Richard, neurologista do Centro Médico da Universidade Radboud, na Holanda, argumentando que o foco tem sido demasiadamente individualista.
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Compreendendo a complexidade da prevenção de doenças cognitivas
O número de indivíduos afetados por demência, com a doença de Alzheimer sendo a forma mais predominante, está projetado para saltar de 57 milhões em 2019 para 153 milhões até 2050, conforme o Estudo Global da Carga de Doenças, que compila dados sobre problemas de saúde. Em 2021, mais de 60% das pessoas com demência residiam em nações de baixa e média renda, onde a prevalência da doença cresce mais rapidamente, em parte devido à maior expectativa de vida.
No que tange aos fatores de risco, a Comissão Lancet, um grupo de especialistas reunidos pela revista The Lancet em 2015, produziu a mais completa síntese de evidências. Henry Brodaty, pesquisador de demência no Centro para o Envelhecimento Cerebral Saudável da Universidade de Nova Gales do Sul, na Austrália, descreve o relatório como a “Bíblia” para a área.
O relatório mais recente da comissão, divulgado em 2024, identificou 14 fatores de risco para demência que, diferentemente da idade ou genética, podem ser modificados. Esses incluem falta de atividade física, hipertensão, obesidade, diabetes, tabagismo, depressão, traumatismo cranioencefálico, poluição do ar, baixa escolaridade, isolamento social, perda auditiva, perda de visão não tratada, colesterol LDL elevado e consumo excessivo de álcool (superior a duas garrafas de vinho por semana).
Ao calcular a proporção de casos de demência que poderiam ser atribuídos a cada um desses 14 fatores e somá-los, o grupo estimou que 45% dos casos globalmente seriam, em teoria, preveníveis.
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Este cálculo ambicioso baseia-se em observações populacionais. Para um indivíduo, a eliminação desses fatores não garante uma redução de 45% no risco pessoal de demência, e não há certeza de que haverá uma diminuição significativa. Adicionalmente, a exposição a alguns desses riscos, como a inatividade física ou o consumo de álcool, pode ter ocorrido por décadas. Não se sabe se a alteração desses hábitos na meia-idade pode reverter os danos já estabelecidos.
Ademais, as evidências demonstram que mudar hábitos de saúde é um desafio considerável. “É difícil alterar o estilo de vida das pessoas, especialmente quando se trata de evitar um risco que pode estar a 20 ou 30 anos de distância”, observa Richard.

Detalhes e resultados do estudo FINGER na Finlândia
Apesar das dificuldades, nas últimas duas décadas, pesquisadores têm se dedicado a quantificar o quanto a modificação dos hábitos de saúde pode auxiliar. Em 2009, cientistas finlandeses lançaram o estudo FINGER, um ensaio clínico randomizado e controlado. O objetivo era verificar se um esforço intensivo para aprimorar o estilo de vida poderia reduzir o declínio cognitivo e o risco de demência. A Finlândia já possuía experiência em estudos pioneiros de intervenção que resultaram na diminuição dos riscos de doenças cardiovasculares e diabetes.
Sob a liderança de Miia Kivipelto, geriatra clínica do Instituto Karolinska em Estocolmo, a equipe do FINGER recrutou pessoas com idades entre 60 e 77 anos que apresentavam fatores de risco para demência, como pressão alta ou baixo nível de escolaridade. Os participantes foram então divididos aleatoriamente em um grupo de intervenção e um grupo de controle.
Durante dois anos, o grupo de intervenção seguiu um programa intensivo de sessões de saúde. Nutricionistas ofereceram apoio para a melhoria da alimentação, enquanto fisioterapeutas orientaram exercícios aeróbicos e de força personalizados em academias. Os participantes também trabalharam com psicólogos e utilizaram treinamento computadorizado para otimizar a memória e outras funções mentais, além de serem acompanhados por médicos para monitorar peso e pressão arterial. O convívio social também foi um benefício, já que algumas sessões foram em grupo. O grupo de controle, por sua vez, recebeu orientações de saúde padrão e algum acompanhamento.
Para avaliar o impacto dessa “intervenção multidimensional no estilo de vida”, os pesquisadores analisaram o desempenho dos participantes em uma bateria de testes neuropsicológicos que avaliavam habilidades como memória e velocidade de processamento. O principal resultado medido foi a mudança no “escore Z”, que permite expressar a soma dos escores dos testes em unidades de desvio padrão. Um aumento de um ponto no escore Z indica que a média dos participantes melhorou em um desvio padrão, um avanço significativo.
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Os resultados, divulgados em 2015, indicaram que, após dois anos, a mudança média na pontuação Z foi de 0,20 para o grupo de intervenção e 0,16 para o grupo de controle. A neuroepidemiologista Alina Solomon, coautora do estudo pela Universidade da Finlândia Oriental, em Kuopio, expressou surpresa com a melhora em ambos os grupos, possivelmente devido à prática nos testes cognitivos durante o ensaio.
Contudo, essa melhora conjunta dificulta a interpretação dos resultados. O grupo de intervenção apresentou uma melhora 0,04 maior que o grupo de controle (equivalente a 25% de melhora relativa), o que foi estatisticamente significativo. A equipe do FINGER destaca essa porcentagem em seu site, juntamente com outros resultados favoráveis para o grupo de intervenção, como pequenas melhorias na velocidade de processamento e um risco reduzido de declínio cognitivo. Kivipelto justifica que expressar a melhora em percentual relativo é uma prática padrão, e que os efeitos em sua área de pesquisa são geralmente pequenos, comparando-os aos de novos medicamentos para Alzheimer que também produzem efeitos modestos na função cognitiva.
No entanto, alguns pesquisadores utilizam termos mais incisivos para descrever o efeito de 0,04 nos testes cognitivos. Richard o classifica como “uma diferença muito pequena”, e Hussein Yassine, que estuda nutrição e demência na Universidade do Sul da Califórnia, em Los Angeles, o descreve como “mínimo”. Para ilustrar, a melhora de 0,04 na função cerebral implica em uma probabilidade de aproximadamente 54% de que uma pessoa do grupo de intervenção tenha uma pontuação mais alta nos testes cognitivos do que uma do grupo de controle, sendo que sem a intervenção, essa probabilidade seria de 50%.

Estudos internacionais replicam abordagens de estilo de vida
Diversos outros ensaios clínicos têm avaliado intervenções similares, com resultados modestos e variados. Em 2017, Kivipelto fundou a rede mundial FINGERS, que atualmente engloba equipes em 73 países. Mariagnese Barbera, coordenadora científica do projeto FINGER na Universidade da Finlândia Oriental, afirma que, em estudos de grande porte com intervenções intensivas, efeitos pequenos, mas significativos, são consistentemente observados.
Um estudo que recebeu atenção ao ser publicado no ano passado foi o POINTER, que testou a metodologia FINGER nos Estados Unidos. Pesquisadores, incluindo Kivipelto, designaram aleatoriamente cerca de 2.000 pessoas entre 60 e 79 anos com fatores de risco para demência a um de dois grupos. Um grupo recebeu uma intervenção “estruturada”, que consistiu em 38 encontros com especialistas ao longo de dois anos, em um programa voltado para aumentar a prática de exercícios físicos e aprimorar a dieta, a cognição e a saúde cardiovascular. O grupo de controle, por sua vez, participou de uma intervenção menos intensiva e autoguiada, que incentivava mudanças no estilo de vida, mas contava com apenas seis encontros.
Mais uma vez, ambos os grupos registraram melhorias em uma bateria de testes cognitivos. O grupo que recebeu a intervenção estruturada apresentou uma melhora ligeiramente superior em comparação ao grupo autoguiado. Os pesquisadores estimaram que essa diferença na pontuação, em relação ao declínio cognitivo esperado para a idade, retardou o envelhecimento cognitivo em um a dois anos.
Contudo, nem todos os pesquisadores estão convencidos pela estimativa da equipe POINTER sobre o retardo do envelhecimento cognitivo. Dada a pequena diferença entre os grupos testados, Yaffe, que liderou um ensaio de intervenção personalizada chamado SMARRT com resultados modestos na pontuação cognitiva, sugere uma interpretação alternativa: “francamente, é que nenhum funcionou”.
















