Equilíbrio de poder entre China e Rússia se altera com Pequim assumindo liderança
A balança de poder entre China e Rússia passou por uma significativa alteração, com a ascensão da dependência russa em meio à guerra na Ucrânia e às sanções impostas pelo Ocidente. Pequim agora exerce forte influência na ordem financeira da Ásia Central, dita as condições para um novo gasoduto e gerencia a aproximação entre Coreia do Norte e Moscou.
Conforme reportado pelo Wall Street Journal na segunda-feira, 13 de julho, a intensificação do conflito na Ucrânia acelerou uma reconfiguração de poder entre as duas nações que já vinha se desenhando.
Em maio, o presidente russo Vladimir Putin realizou sua décima quarta viagem à China para um encontro com o presidente Xi Jinping. O propósito central da visita era obter a aprovação chinesa para o projeto “Força da Sibéria 2”, um gasoduto que estava em negociação há cerca de duas décadas.
Contudo, a equipe russa, que precedeu Putin em Pequim, deparou-se com exigências severas por parte da China. Pessoas próximas às tratativas revelaram que funcionários chineses comunicaram à Gazprom, a empresa estatal de gás da Rússia, que a participação no empreendimento só ocorreria se o gás fosse comercializado por um valor inferior ao do mercado, equivalente ao preço de venda para consumo interno russo. Os chineses ainda deixaram claro que o assunto não deveria ser rediscutido sem uma modificação nas condições.
Apesar de ter retornado de Pequim com 42 acordos e uma declaração conjunta, o presidente Putin não obteve êxito na concretização do pacto referente ao gasoduto.
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Jörg Buttke, um empresário alemão com profundo entendimento das relações sino-russas, descreveu o encontro afirmando: “O presidente Xi recebeu Putin como um imperador recebe um convidado em um castelo, e depois o dispensou.”
O relacionamento bilateral evoluiu substancialmente desde a primeira reunião em 2013. Fontes que acompanharam as discussões daquele período recordam que o presidente Xi, recém-empossado na presidência da China, elegeu a Rússia para sua primeira viagem internacional e referiu-se a Putin como seu “modelo a ser seguido”.
Essa postura indicava a alta consideração de Xi pela habilidade de Putin em governar uma economia baseada em recursos naturais, enquanto mantinha o status de líder de uma potência mundial.
Pequim não possui incentivos para acelerar as tratativas do gasoduto. A previsão é que o consumo chinês de gás importado alcance seu ponto máximo por volta de 2035, e a execução do projeto “Força da Sibéria 2” demandaria entre cinco e seis anos. Adicionalmente, a China pode adquirir gás de múltiplas nações, o que diminui a necessidade de ampliar sua dependência do suprimento russo.
O gasoduto “Força da Sibéria” em operação foi estabelecido somente em maio de 2014, após 15 anos de discussões. Esse acordo veio dois meses depois da anexação da Crimeia pela Rússia, momento em que Moscou, diante da escassez de financiamento ocidental, foi compelida a aceitar preços menores da China. O novo empreendimento de gasoduto visa direcionar para o mercado chinês o gás anteriormente destinado à Europa. A falha nesse acordo seria um revés significativo para a estratégia de Putin de substituir o mercado europeu pela China.
Contudo, a ausência de um consenso imediato não indica um desmoronamento na colaboração estratégica entre os dois países. Pequim ofereceu suporte à economia russa durante o conflito, adquirindo petróleo bruto com desconto e provendo insumos e suporte financeiro essenciais para o setor de defesa. O Ministério das Relações Exteriores chinês assegurou que os presidentes desenvolveram “um alto nível de confiança mútua e profunda amizade”. O Kremlin, por sua vez, refutou a ideia de subordinação russa, insistindo na paridade da relação.
Os indicadores econômicos, no entanto, expõem uma notável discrepância entre as duas nações. Em 2013, a China respondia por cerca de 10% do volume comercial total da Rússia, cifra que atualmente se aproxima de 40%. Enquanto Pequim absorve aproximadamente um terço das exportações russas, a contribuição da Rússia para o comércio global chinês permanece inferior a 4%. Este desequilíbrio evidencia uma crescente assimetria de poder, onde a economia russa se torna cada vez mais dependente do gigante asiático, afetando sua autonomia estratégica a longo prazo.
A ascendência chinesa se estendeu também ao âmbito financeiro. A Rússia aprovou a proposta de adotar o yuan como divisa central no Banco de Desenvolvimento da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), entidade que busca funcionar como um banco regional para o desenvolvimento na Ásia Central.
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Por mais de dez anos, Moscou resistiu a essa iniciativa, motivada pela inquietação com a expansão da influência chinesa na Ásia Central, mas reverteu sua posição diante do agravamento de seu isolamento financeiro.
Com a efetivação do banco, há uma perspectiva de que nações da antiga esfera soviética, como Cazaquistão e Uzbequistão, fortaleçam seus laços com a China.
O presidente Xi Jinping age com prudência ao abordar publicamente essa assimetria de poder. Em uma foto de maio, durante a visita dos dois líderes a uma exposição sobre as relações sino-russas em Pequim, um retrato ampliado de Xi o mostrava visivelmente maior que Putin. Diplomatas chineses explicaram que o arranjo não visava desqualificar o líder russo. O Wall Street Journal interpretou a situação como um sinal de que Xi demonstra respeito em público, enquanto busca vantagens nas conversas a portas fechadas.
Outra área onde Pequim manifesta apreensão quanto à expansão da influência russa é a Coreia do Norte. A China receia que a colaboração militar entre Pyongyang e Moscou, incluindo a partilha de tecnologia, possa impulsionar as capacidades nucleares e submarinas norte-coreanas.
Tal cenário tem o potencial de comprometer a estratégia chinesa de afastar Coreia do Sul e Japão dos Estados Unidos, aprofundando as fissuras nas relações entre essas nações.
Putin planejava visitar Pyongyang logo após sua viagem a Pequim, depois de ser reeleito em 2024, mas, sob solicitação da China, alterou a rota para o Vietnã. O líder russo atendeu à demanda chinesa para evitar que os três países China, Rússia e Coreia do Norte fossem vistos como um bloco autoritário coeso.
Pessoas com conhecimento da situação informaram que Putin sugeriu, mais tarde, uma cúpula trilateral confidencial envolvendo China, Rússia e Coreia do Norte, porém a proposta foi recusada por Pequim.
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Em contraste, o presidente Xi esteve em Pyongyang em junho, marcando sua primeira visita em sete anos. Analistas interpretaram essa ação como um esforço de Pequim para reiterar seu papel como o principal guardião da Coreia do Norte, e não Moscou.
Apesar de a China sustentar a meta de longo prazo de desnuclearizar a península coreana, a nação optou por não impor a desnuclearização como condição essencial para ampliar os laços com a Coreia do Norte.
Pequim igualmente intensifica seus contatos com burocratas e membros da elite que podem liderar a Rússia após a era Putin. Alexander Gabuev, diretor do Centro Carnegie para a Rússia e Eurásia, prognosticou que é altamente provável que a Rússia se torne, no futuro, uma nação significativamente mais dependente da China, enxergando Pequim como um referencial para sua própria modernização.


















