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França vs Espanha: como modelos distintos de formação moldam os craques da Copa do Mundo de 2026

Ousmane Dembéle e Lamine Yamal - x/equipedefrance
Foto: Ousmane Dembéle e Lamine Yamal - x/equipedefrance
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A criação de atletas de alto nível e a manutenção de uma identidade de jogo são objetivos cruciais que marcaram as últimas décadas do futebol na França e na Espanha. Essas duas nações, consideradas grandes “fábricas” de talentos globais, se enfrentarão na primeira semifinal da Copa do Mundo de 2026 na terça-feira, 14 de julho, às 16h, em Dallas, exibindo processos de formação notavelmente diferentes.

Como a França impulsiona a formação de seus craques

A França, que busca sua terceira final consecutiva, demonstra uma notável capacidade de exportar talentos, com um levantamento da Opta indicando que 99 jogadores do atual Mundial nasceram no país. Esse desempenho é resultado de uma vasta rede de observação dos grandes clubes, de investimentos governamentais de longa data em infraestrutura de treinamento e de um cenário de clubes menores, regionais, com elevada competência para formar atletas.

Uma parte significativa desses jogadores, que moldam o panorama futebolístico global, tem suas carreiras ligadas à região de Paris e seus arredores. A área metropolitana da capital francesa, com sua forte influência da imigração e o estabelecimento de diversas famílias, tornou-se um verdadeiro celeiro de talentos.

Kylian Mbappé, por exemplo, é um dos “produtos” mais notáveis dessa estrutura. Criado na comuna de Bondy, em Seine-Saint-Denis, a apenas dez quilômetros do centro de Paris, o atacante iniciou sua trajetória no modesto AS Bondy antes de ser descoberto e recrutado pelo renomado centro de treinamentos de Clairefontaine, de onde seguiu para a base do Monaco.

Eric Frosio, correspondente no Brasil, destaca as oportunidades e traça paralelos entre os subúrbios parisienses e as origens do futebol brasileiro. “Existem sempre quadras, chamadas de city stade, para jogos de cinco contra cinco em gramado sintético. Os jovens passam o dia todo brincando, jogando e desenvolvendo seu talento, de forma muito parecida com o que ocorre no Brasil”, explicou Frosio, sublinhando que, após essa fase inicial, o sistema francês se organiza eficientemente, com clubes locais nos subúrbios possuindo uma estrutura robusta para formar jogadores até Clairefontaine.

Clairefontaine, a mais famosa das academias ligadas ao governo e à Federação Francesa de Futebol (FFF), foi inaugurada na década de 1970 com o objetivo de preparar jovens atletas. Além de Mbappé, a instituição contribuiu significativamente para a formação de nomes como Thierry Henry, Nicolas Anelka, Hatem Ben Arfa, William Gallas e Louis Saha.

O diretor Franck Bentolila explicou que os treinamentos em Clairefontaine combinam a espontaneidade do jogo de rua com uma metodologia organizada. “Os exercícios incluem muitos duelos de um contra um ou dois contra dois. Se o atleta demonstra boa habilidade de drible e domínio, ele passa a participar de atividades de posse de bola, como um cinco contra dois. Ao receber a bola, precisa demonstrar excelente controle”, detalhou, acrescentando que a instituição tem direcionado seu foco para atletas mais jovens, acompanhando a evolução da prospecção por parte dos grandes clubes.

A estratégia espanhola com polos de excelência regional

A Espanha, que antes não figurava entre as grandes potências do futebol, conquistou uma Copa do Mundo e três Eurocopas nas últimas duas décadas, impulsionada por um modelo que estabeleceu uma identidade de jogo marcante. Essa ascensão está intrinsecamente ligada a ecossistemas robustos de formação, com destaque para La Masia, do Barcelona, que revelou uma geração de ouro nos anos 2000, incluindo o ícone argentino Lionel Messi. Além disso, centros como Lezama, do Athletic Bilbao, Zubieta, da Real Sociedad, e o do Villarreal também exercem forte influência.

No elenco atual, convocado por Luis de la Fuente, técnico que assumiu a seleção principal após uma década à frente das categorias de base, 16 dos 26 jogadores foram formados em um desses quatro clubes. Os catalães, por exemplo, contribuíram com oito atletas, entre eles Lamine Yamal, uma das grandes referências da geração atual, que completou 19 anos na véspera do jogo.

Na vitória por 2 a 1 contra a Bélgica, nas quartas de final, nove dos titulares tiveram sua formação ativa em uma dessas escolas: quatro do Barcelona (Yamal, Cubarsí, Cucurella e Dani Olmo); três da região do País Basco, onde se localizam Athletic e Real Sociedad (Unai Simón, Laporte e Oyarzabal); e dois do Villarreal (Rodri e Baena).

É importante notar que a origem geográfica nesses casos não se refere ao local de nascimento do jogador, mas sim ao centro onde ele se lançou profissionalmente. Na Espanha, é comum que jovens talentos sejam integrados cedo ao ambiente de um grande polo formador, recebendo moradia, acompanhamento escolar, treinamento técnico, tático e preparação física completos.

Existem, contudo, algumas exceções a esse processo padronizado. Dani Olmo, por exemplo, passou parte da infância e adolescência em La Masia, mas concluiu sua formação na Croácia, sendo revelado pelo Dinamo Zagreb. Em contrapartida, Aymeric Laporte, nascido na França, chegou a Lezama ainda jovem. Rodri deu seus primeiros passos no Atlético de Madrid, mas foi dispensado por questões físicas antes de ser lançado no Villarreal. Já David Raya é um produto do futebol inglês, onde joga atualmente pelo Arsenal.

Ainda assim, a maioria dos jogadores de elite emerge dos principais ecossistemas regionais, que são estabelecidos para a captação e o desenvolvimento de talentos. A Comunidade de Madri e a Andaluzia, com clubes como Sevilla e Betis, também se destacam nesse circuito reconhecido.

A UEFA reconhece o sistema da Federação Espanhola como um modelo exemplar desde as categorias de base. Esse reconhecimento se deve não apenas ao trabalho regional, mas também às competições organizadas em nível nacional, que promovem maior integração e aprimoramento dos modelos de jogo.

Albert Celades, ex-treinador da seleção espanhola sub-21, compartilhou a importância do senso de pertencimento. “Queremos que os meninos sintam a seleção como algo próprio. Dizemos que isso é deles, que esta é a casa e o time deles. Não queremos que apareçam aqui de repente e que seja algo abstrato”, explicou, ressaltando o foco na construção de uma identidade forte desde a base.

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