Quando parar ou reduzir Ozempic e Mounjaro? Primeiro consenso internacional define regras

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Ozempic Foto: Ozempic - Foto: Marc Bruxelle / Shutterstock.com

Os medicamentos que revolucionaram o tratamento da obesidade entraram em uma nova fase. Após anos de discussões focadas na quantidade de peso que Ozempic, Wegovy e Mounjaro podiam eliminar, a atenção dos especialistas se volta para outra questão: como utilizar esses fármacos de forma segura a longo prazo e como identificar o momento adequado para reduzir a dosagem ou, se necessário, interromper o tratamento.

Este novo framework começou a se desenhar no início de julho, com a divulgação de um pioneiro consenso global. Esse documento foca nos cuidados nutricionais, atividades físicas e suporte psicológico para pacientes que utilizam esses fármacos da classe das incretinas.

Desenvolvido por três importantes organizações europeias — a European Association for the Study of Obesity (EASO), a European Federation of the Associations of Dietitians (EFAD) e a European Coalition for People Living with Obesity (ECPO) —, o estudo foi divulgado na renomada revista The Lancet Diabetes & Endocrinology. Ele não altera as finalidades originais dos medicamentos, mas propõe uma mudança crucial: a perda de peso deixa de ser o único objetivo central do tratamento.

A partir de agora, o foco inclui a manutenção da massa muscular, a garantia de uma dieta balanceada, o monitoramento da saúde mental e a adaptação individualizada das dosagens.

“A grande importância deste primeiro consenso está em mostrar que o tratamento não se restringe a tomar a injeção e perder peso”, afirma Fernando Valente, coordenador do Departamento de Educação em Diabetes da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e diretor do Departamento de Diabetes da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Ele destaca que o principal mérito do documento é reorientar a atenção, passando do número na balança para uma abordagem mais abrangente, priorizando a qualidade de vida do paciente e a melhoria de condições associadas, além de alertar para os perigos de um emagrecimento sem acompanhamento, como desnutrição, diminuição da massa muscular e sofrimento psíquico.

Os responsáveis pelo consenso fizeram questão de esclarecer o propósito do texto: ele não estabelece normas obrigatórias e nem substitui a avaliação médica individualizada.

Em diversos trechos, os autores reforçam que muitas das orientações resultam da combinação das melhores evidências disponíveis com a experiência clínica, ressaltando que ainda há lacunas em estudos que respondam a algumas das principais questões sobre esses tratamentos.

Monjaro e Ozempic
Monjaro e
Ozempic – Foto: JNemchinova/istockphoto.com

A dose máxima nem sempre é necessária no tratamento

Uma das premissas fundamentais do documento é que a elevação da dosagem até o limite indicado na bula não deve ser vista como uma meta automática. A resposta clínica de cada pessoa deve ser o principal fator na tomada de decisão.

Pacientes que já sentem saciedade adequada, perdem peso de forma satisfatória e toleram bem o tratamento podem não necessitar de doses mais elevadas.

O texto menciona informações da prática real que indicam perdas de peso consideráveis mesmo com dosagens menores, quando a conduta é ajustada individualmente. Valente diferencia dois tipos de pacientes para exemplificar essa lógica: aqueles que estão distantes da meta e precisam perder 30 quilos ou 30% do peso corporal geralmente se encaminham para a dose máxima; já os que desenvolveram doenças metabólicas, como diabetes, hipertensão, triglicerídeos elevados, gordura no fígado ou apneia do sono, sem um grande excesso de peso, podem se beneficiar de doses mais baixas.

“A dose máxima não é obrigatória, porque os alvos são ajustáveis individualmente”, esclarece o endocrinologista.

A proposta é focar no paciente, tratando-o de acordo com seus próprios objetivos, os resultados alcançados e os possíveis efeitos adversos, em vez de buscar uma dose ideal universal.

Identificando o momento de reduzir, pausar ou parar o tratamento

O consenso aborda uma das questões mais frequentes entre os usuários desses medicamentos: existe uma hora certa para a interrupção? A resposta é que essa decisão deve ser compartilhada entre o médico e o paciente, considerando tanto os benefícios quanto os riscos envolvidos.

Diminuir a dose, atrasar um aumento previsto, realizar uma pausa temporária ou suspender a medicação podem ser medidas adequadas em certas situações. O documento elenca alguns indicadores que exigem uma nova avaliação, como náuseas e vômitos que não cessam, dificuldades em manter uma boa hidratação, perda de peso muito acelerada, incapacidade de consumir nutrientes suficientes e evidências de desnutrição.

Um cenário que demanda atenção especial é quando o consumo alimentar diário permanece abaixo de 800 calorias por um período prolongado.

Rodrigo Lamounier, diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso) e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), adiciona que a interrupção não significa necessariamente que algo saiu errado. A pausa pode ocorrer porque o paciente atingiu uma meta de peso satisfatória, porque a tolerância ao medicamento piorou a ponto de afetar a adesão – situação em que uma redução da dose pode ajudar a manter o tratamento – ou por uma decisão de prudência, como no caso de um idoso que já alcançou um nível de peso adequado e para quem emagrecer mais não seria benéfico.

“São medicamentos muito importantes, mas, como tudo na medicina, exigem cuidado e individualização de acordo com a evolução e o contexto de cada paciente”, pondera.

O que significa o sucesso além do peso na balança

Uma das ideias centrais do consenso é que a perda de peso nem sempre se traduz em ganho de saúde. Os especialistas apontam que parte do peso perdido durante o tratamento corresponde à massa muscular. Quando essa perda é excessiva, aumentam os riscos de fraqueza, limitações para atividades cotidianas e sarcopenia, que é a diminuição da força e da quantidade de músculos. O documento sublinha que os benefícios desses medicamentos transcendem o resultado na balança, abrangendo desde o controle da glicose e a diminuição do risco cardiovascular até a melhora da gordura no fígado e da apneia do sono.

“Pouco adianta reduzir o número na balança à custa de uma piora nutricional, de cansaço, de queda de cabelo intensa ou da incapacidade de se exercitar e viver bem —e, nos mais vulneráveis, do aumento do risco de quedas e fraturas”, afirma Valente.

Daí a proposta de reorientar a atenção: mais do que contar quilos, o médico deve acompanhar se o paciente mantém a musculatura, a capacidade física e o estado nutricional.

O papel crucial da proteína e da musculação no tratamento

Para mitigar a perda de massa magra, o consenso recomenda uma ingestão diária de aproximadamente 1 a 1,5 grama de proteína por quilo de peso ajustado, com um mínimo de 60 gramas por dia, distribuídas nas refeições. Se a alimentação não for suficiente para atingir essa meta, suplementos podem ser introduzidos, sempre após uma avaliação individualizada. A redução do apetite, comum com os medicamentos, pode, paradoxalmente, diminuir o consumo de proteínas justamente quando elas são mais necessárias, elevando o risco de baixa massa muscular.

Uma novidade importante é o destaque dado ao exercício: a prática regular de atividades de força, como a musculação, surge pela primeira vez como um pilar fundamental na estratégia de tratamento para quem utiliza agonistas de GLP-1 e fármacos análogos.

Lamounier acrescenta uma observação decisiva, principalmente para os idosos: proteína e treino de força são importantes para todos, mas ganham ainda mais relevância com o avanço da idade. Na avaliação dos resultados, a funcionalidade muscular se sobressai à quantidade de músculo.

Isso implica, por exemplo, observar a capacidade do paciente de se levantar de uma cadeira sem auxílio das mãos ou a força de preensão palmar, medida com um dinamômetro — conhecido como hand grip —, que ele descreve como um indicador de risco de mortalidade em pessoas idosas.

A importância da qualidade nutricional ao reduzir o consumo

No entanto, diminuir a quantidade de comida ingerida não equivale a uma alimentação mais saudável. O consenso adverte que a redução do apetite pode prejudicar o consumo de vitaminas, minerais e fibras, enfatizando que a dieta deve priorizar alimentos ricos em nutrientes — como frutas, verduras, legumes e grãos integrais — em vez de se limitar a um simples corte calórico.

Emagrecer com muita rapidez também tem seus custos, alerta Valente: um ritmo excessivo pode levar à anemia e favorecer a formação de cálculos na vesícula, além de aumentar o risco de pancreatite — embora grandes estudos clínicos não demonstrem um aumento significativo desse risco em comparação ao placebo.

Ainda assim, o documento não defende que todos os pacientes sejam acompanhados por nutricionistas ou submetidos a uma bateria extensa de exames. Propõe um modelo escalonado, que reserva o acompanhamento mais intensivo para os casos considerados vulneráveis, como idosos, pessoas com histórico de cirurgia bariátrica ou de transtornos alimentares, quem emagrece muito rápido e aqueles que já tiveram desnutrição.

Para esses grupos, explica o médico, exames como hemograma completo, além da avaliação de ferro, zinco, vitaminas do complexo B (incluindo B12 e tiamina), ácido fólico e vitamina D, fazem sentido. Uma ingestão alimentar abaixo de 1.200 calorias diárias, acrescenta, já é um indicativo da necessidade de uma avaliação mais detalhada.

Transformações na relação pessoal com a alimentação

Além das considerações metabólicas, o documento dedica um capítulo completo aos impactos psicológicos desses medicamentos. Pela primeira vez, um consenso internacional incorpora o conceito de “food noise”.

“É o pensamento persistente e intrusivo em relação à comida, da pessoa que pensa o tempo todo em comer; os medicamentos reduzem esse ruído ao atuar nas áreas de recompensa do cérebro”, descreve Valente.

Os autores relatam que esse efeito auxilia o paciente a se alimentar em resposta à fome física, em vez de ser guiado por estímulos emocionais ou sociais.

Essa mudança, contudo, possui um lado inverso. Muitos pacientes encontram dificuldades em reestruturar hábitos e estratégias emocionais quando a comida deixa de ocupar o lugar central que tinha em suas vidas.

“Muitos usam a comida como muleta emocional ou ritual social; ao perder esse apoio, podem viver uma crise de identidade e angústia”, pondera o endocrinologista. Quando esse vínculo emocional com a comida se rompe, o acompanhamento psicológico deve ser acessível, especialmente para aqueles com histórico de transtornos alimentares, ajudando o paciente a desenvolver novas formas de lazer e conexão social que não envolvam a alimentação.

Lamounier destaca a outra face dessa vigilância. Embora o consenso ressalte o alívio psicológico que geralmente acompanha o tratamento, ele lembra que é fundamental verificar, individualmente, se a medicação não está provocando um efeito contrário em sintomas de ansiedade e depressão.

“Não adianta perder peso e o sofrimento mental aumentar”, resume, enfatizando que, embora os estudos geralmente não mostrem essa piora, uma avaliação individualizada é sempre necessária ao longo de todo o tratamento.

Estratégias para evitar o reganho de peso

Entre as questões que o tratamento ainda busca equacionar está o que ocorre após a interrupção da medicação.

“O reganho de peso não é incomum, porque o corpo interpreta a perda como uma ameaça, reduz o gasto energético e aumenta o apetite”, explica Valente.

Sem o medicamento para neutralizar esse mecanismo de adaptação e sem uma orientação de suporte adequada, a tendência é que os quilos perdidos retornem.

O endocrinologista aponta, contudo, um conjunto de táticas para diminuir esse risco: manter a prática de exercícios físicos para sustentar o gasto energético, ajustar a alimentação com quantidades adequadas de proteína, carboidratos complexos e gorduras insaturadas (evitando as saturadas e os ultraprocessados), adotar novos hábitos comportamentais e preservar a regularidade das consultas, seja com o médico ou com uma equipe multidisciplinar.

Em algumas situações, discute-se a continuidade do tratamento farmacológico em uma dose mais reduzida ou a troca por uma medicação mais acessível, visando a gestão a longo prazo.

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