ONG revela mutilação de tubarões vivos por pescadores para comércio de barbatanasPor Carolina Costa
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Uma prática cruel e ilegal de mutilação de tubarões vivos, antes de atirá-los de volta ao mar, tem sido documentada ao longo da costa da África Ocidental. A denúncia, feita pela ONG Environmental Justice Foundation (EJF) em relatório publicado na quinta-feira, 16 de julho de 2026, destaca que a ação contribui para a diminuição das populações e alimenta o lucrativo comércio de barbatanas com a Ásia.
A rota das barbatanas para a Ásia
A análise da EJF revela que, a bordo de atuneiros, principalmente chineses e taiwaneses, os pescadores realizam o corte das barbatanas de tubarões ainda vivos. Após a remoção, os animais mutilados são devolvidos ao oceano, onde sua chance de sobrevivência é mínima. As valiosas barbatanas, por sua vez, têm como principal destino o porto de Dacar, no Senegal. De lá, o material é despachado para a Ásia, onde são utilizadas na preparação de sopas, um prato considerado uma iguaria.
Proibições globais e o porto senegalês
Embora a prática de cortar as barbatanas e descartar o corpo do tubarão, muitas vezes vivo, seja amplamente proibida por diversas convenções internacionais e regulamentações em vários países, a África Ocidental se tornou um ponto crítico. Dacar, um dos portos de pesca mais movimentados da África, é apontado no relatório da EJF como um centro de desembarque ilegal dessas barbatanas. A presença de dezenas de barcos atuneiros de bandeira chinesa e taiwanesa tem contribuído para a continuidade dessa atividade ilícita nos últimos anos.
- Das 130 embarcações autorizadas pelos órgãos reguladores de pesca de atum, 71 atracaram em Dacar durante o período analisado.
- Os depoimentos indicaram que 41 navios praticavam o corte das barbatanas.
- Destes, 24 desembarcaram o material ilegal no porto senegalês.
O levantamento da ONG Environmental Justice Foundation
O estudo da Environmental Justice Foundation concentrou-se nas frotas de pesca de atum com palangre da China e Taiwan, duas das maiores a operar em alto-mar no Atlântico. Os pesquisadores entrevistaram 124 pescadores de origem indonésia e filipina que trabalharam nessas embarcações entre os anos de 2020 e 2025. Os achados incluem:
Dificuldades na fiscalização e regras do setor
O Senegal é membro da Comissão Internacional para a Conservação do Atum Atlântico (ICCAT), órgão que regulamenta a pesca de atum e espécies afins na região. A ICCAT proíbe o transporte de certas espécies de tubarão e estabelece que o peso total das barbatanas a bordo não deve exceder 5% do peso total dos tubarões. Esta regra visa justamente desencorajar a prática de finning. No entanto, o chefe de pesquisa oceanográfica da EJF, Callum Nolan, sugere que o número real de ocorrências é provavelmente maior, pois os dados do relatório incluem apenas menções explícitas durante as entrevistas.
Relatos de pescadores sobre a operação ilegal
Um dos pescadores entrevistados pela EJF, Jamaludin, de 29 anos, da Indonésia, compartilhou sua experiência a bordo de um atuneiro chinês entre 2018 e 2020. Ele relatou que a tripulação desmembrava tubarões diariamente no mar, com o navio frequentemente carregando mais barbatanas do que carcaças inteiras.
A descarga das barbatanas era feita de forma discreta, muitas vezes à noite, para evitar a fiscalização. Outros depoimentos no relatório confirmam a preferência pelo período noturno, quando a presença de inspetores no porto é menor. Cheikh Ndiaye, inspetor da Direção de Proteção e Fiscalização da Pesca do Senegal, reconheceu a dificuldade e a importância de “ter o maior número possível de observadores internacionais” para combater a atividade.







