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Ex-atletas e treinadores alertam sobre a pressão dos pais no tênis juvenil

Emma Raducanu - emma.raducanuu/Instagram
Foto: Emma Raducanu - emma.raducanuu/Instagram
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O percurso de se tornar um atleta de tênis de elite pode começar muito cedo, transformando o esporte de uma simples brincadeira em uma jornada de dedicação intensa já na infância. Aos nove anos, Ellie-Rose Griffiths, por exemplo, deixou a escola para se dedicar integralmente aos treinos, marcando a transição do tênis de um passatempo para o centro de sua vida.

A ex-jogadora juvenil, que chegou a ser a número um e competiu ao lado de grandes nomes do tênis britânico como Katie Boulter, Emma Raducanu e Harriet Dart, abandonou as quadras aos 19 anos, exausta e sem o prazer inicial pelo esporte.

Ao refletir sobre sua experiência aos 27 anos, Griffiths lembra não apenas da intensidade do tênis, mas também da grande pressão envolvida, apontando especificamente para o comportamento de um grupo que, em sua visão, poderia agir de maneira mais construtiva.

A figura do “pai empurrão” não é novidade no tênis, um esporte que promete fortunas em premiações no topo da elite. Casos como os pais de Jelena Dokic, Mary Pierce e Bernard Tomic são exemplos bem documentados de incidentes no nível profissional, que revelam como a expectativa pode sair do controle.

Esse comportamento, contudo, tem suas raízes na base, no tênis juvenil.

“É comum ver pais gritando com crianças o tempo todo no tênis”, relata Griffiths, que, apesar de ter pais que a apoiaram, observou muito disso no ambiente do esporte. Sua crítica não se dirige à sua família, mas ao que presenciou.

“Existe uma falta de entendimento sobre como eles deveriam agir, sobre como poderiam realmente ajudar seus filhos a se desenvolverem como atletas”, acrescenta a ex-jogadora.

A situação pode escalar e fugir completamente do controle.

“Já tivemos situações em que, infelizmente, precisamos chamar a polícia porque o comportamento dos pais estava excessivamente descontrolado”, revela Chris Johnson, técnico principal do Sutton Coldfield Tennis Club, onde atua há 36 anos.

“Eles não escutam, acham que podem fazer o que quiserem, não respeitam os árbitros; a situação pode ficar bem feia”, descreve Johnson, sobre os conflitos que surgem nas competições juvenis.

Ambos, Griffiths e Johnson, enfatizam que tais atitudes não são isoladas e que o próprio ambiente competitivo do tênis contribui para que os pais ajam dessa forma, gerando um ciclo de pressão.

Por que a cultura do tênis incentiva esse comportamento e quais mudanças são necessárias?

A prática do tênis pode ser bastante desgastante para os pais, tanto em termos de tempo quanto de recursos.

Eles precisam organizar o transporte para os treinos, custear o acompanhamento técnico e navegar por um complexo sistema de desenvolvimento de jogadores. Em alguns casos, é necessário até providenciar aulas particulares, especialmente se o filho deixou o ensino regular para se dedicar exclusivamente ao esporte.

“A gente entra em uma espécie de roda-viva”, comenta John, pai de Harrison, um promissor jogador de 11 anos, que vive em Derbyshire. “É um compromisso de 12 meses por ano, com quadras cobertas e descobertas”, explica a rotina exaustiva.

As crianças podem começar a praticar tênis em uma versão adaptada do esporte a partir dos quatro anos. O programa de desenvolvimento de talentos da Lawn Tennis Association (LTA) apoia jogadores a partir dos sete anos, visando prepará-los para, quem sabe, se tornarem campeões de Grand Slam.

As competições são organizadas por faixa etária, começando com categorias para crianças de oito anos ou menos.

Nesses torneios, os resultados e classificações obtidos são um dos principais meios de os jovens atletas serem notados no cenário do tênis.

Então, em que momento o esporte começa a ser levado a sério demais?

“No instante em que eles começam a disputar a primeira competição”, afirma Johnson.

Questionado se essa visão está correta, o treinador é enfático:

“Absolutamente não.”

“Muitos adultos não conseguem lidar com a pressão de um esporte individual, e então esperam que crianças pequenas sejam capazes de fazê-lo”, observa Johnson, destacando a disparidade de expectativas.

Steve Whelan, um técnico de St Albans com quase três décadas de experiência, concorda que o sistema atual atribui muita importância à vitória em idades precoces.

“Isso apenas cria uma corrida para o fundo do poço, porque os pais estão em busca de classificações e rankings”, declara ele, criticando a mentalidade competitiva excessiva.

Whelan costuma dizer aos pais: “Eles não são jogadores de tênis. São crianças que jogam tênis, e há uma grande diferença entre as duas coisas”, tentando reorientar a perspectiva.

A LTA informou ter realizado uma “revisão abrangente” de seu sistema de classificação e ranqueamento em 2018, com o objetivo específico de “abordar a questão de impor pressão excessiva a crianças em idades muito jovens”.

Atualmente, os jogadores só podem ser ranqueados nacionalmente contra seus pares a partir da categoria sub-11. As crianças mais novas, de oito anos para cima, são organizadas em competições com base em seu desempenho recente, conhecido como “rating”.

Em relação ao comportamento dos pais, a LTA reconhece que, como em qualquer esporte, “existem ocasiões em que uma pequena minoria de pais não segue os padrões de comportamento esperados”. A entidade reguladora planeja lançar em breve uma nova iniciativa, chamada Fair Play, para promover atitudes parentais positivas e oferecer suporte aos treinadores.

O impacto financeiro e emocional nos pais que investem no tênis juvenil

Para os pais, a pressão não se restringe apenas ao aspecto emocional; ela também se manifesta de forma significativa no âmbito financeiro.

“Os custos só aumentam: aulas, viagens, passagens aéreas, taxas de torneios…”, explica um dos pais, descrevendo a crescente carga orçamentária.

Griffiths quantifica o investimento necessário, que pode ser exorbitante.

“Se você quer treinar quatro horas por dia com um técnico, isso custa mil libras por semana, quatro mil libras por mês… É mais do que o salário de muitas pessoas”, ela detalha, evidenciando a dimensão do encargo financeiro.

A LTA afirma que “apoia jogadores juniores talentosos oferecendo acesso a treinadores e instalações de nível internacional em sua rede de Centros Regionais de Desenvolvimento de Performance”.

A entidade governamental também concede bolsas a jovens jogadores em sua jornada de desenvolvimento que enfrentam barreiras financeiras para treinar, viajar ou competir, por meio de sua fundação.

Contudo, Griffiths observa que o apoio financeiro dos pais para levar seus filhos ao próximo nível pode influenciar o comportamento.

“O apoio financeiro vem das vitórias e das derrotas”, ela explica.

“Se meu filho vence, talvez consigamos mais financiamento; se perde, talvez não – então não queremos que percam”, Griffiths contextualiza a lógica por trás da pressão financeira.

Johnson percebe essa mudança de expectativa.

“Eles quase esperam um retorno sobre o investimento, e não deveria ser assim”, pondera o treinador, criticando a mercantilização do desenvolvimento esportivo.

“Não se espera que uma criança de dez anos tenha um emprego, mas o esporte acaba se tornando isso”, afirma Griffiths, ilustrando a seriedade com que a atividade é tratada.

Essa perspectiva é compartilhada pelo australiano Todd Ley, que já foi considerado o melhor jogador júnior do mundo e, aos 12 anos, tornou-se o atleta mais jovem a ser contratado pela agência global de esportes IMG, antes de abandonar o esporte aos 17.

Ele treinou na academia Nick Bollettieri, na Flórida, onde nomes como as irmãs Williams, Andre Agassi e Maria Sharapova estavam associados ao programa, mostrando o nível de excelência e competitividade do ambiente.

Jogadores juvenis como Andy Murray e Juan Martin Del Potro eram alguns dos adversários com quem ele se comparava, indicando a alta exigência do cenário.

Ley relata que o tênis rapidamente se tornou uma atividade absorvente, transformando-se de “diversão em emprego”, e ele acabou “odiando” o tênis, um sentimento que ainda persiste.

Seu pai, Max, atuava como seu técnico e empresário, e na perspectiva de Ley, o tênis vinha em primeiro lugar para o pai, com o filho em segundo.

“Realisticamente, era tênis do café da manhã até a hora de dormir”, lembra Ley, que detalhou suas experiências no livro “Smashed: Tennis Prodigies, Parents and Parasites”.

“Muito rapidamente, a criança não é vista como uma pessoa. Eles são uma mercadoria e um estoque”, critica Ley, sobre a desumanização do jovem atleta.

Ley acredita que o sucesso precoce no tênis pode gerar incentivos que levam famílias, treinadores e o próprio sistema a intensificar ainda mais o ritmo e o investimento, cada vez mais cedo.

“Se você tem resultados muito bons logo no início, terá uma jornada mais fácil e conseguirá melhores empresas de gestão e patrocinadores”, explica ele, sobre as vantagens que impulsionam essa busca.

“Desde muito cedo, a competição se torna sobre quem pode fazer mais.”

“As pessoas esquecem completamente que estão lidando com crianças”, conclui Ley, alertando para a perda da perspectiva infantil no meio da corrida por sucesso.

Ex-jogadores de tênis relembram o papel dos pais na jornada esportiva

Nem todos os ex-jogadores se incomodam com a intensidade dos pais, ou pelo menos não em retrospecto. Emma Raducanu, por exemplo, já descreveu seus pais como “muito exigentes” quando era mais jovem.

Em uma entrevista ao Times em 2024, ela mencionou: “Vi algumas pessoas ótimas com quem joguei nas categorias de base, que tinham pais muito mais permissivos, que diziam: ‘tudo bem se você perdeu’, e esses jogadores não praticam mais tênis, então não culpo meus pais por isso”, mostrando uma visão pragmática sobre o papel da disciplina.

Kyle Edmund, ex-número um britânico, relata que, embora seus pais não fossem “empurradores”, eles o incentivavam a aprimorar aspectos como atitude e ética de trabalho, fatores cruciais para o sucesso.

Ele conta que certa vez disse ao pai que queria desistir, e o pai simplesmente respondeu: “Ok, então vamos parar”. Naquele momento, Edmund percebeu que, na verdade, amava o jogo e estava disposto a se esforçar para alcançar o sucesso, demonstrando que a decisão partiu dele.

“Definitivamente, há momentos em que você vê que o pai quer mais, e é aí que eu acho que se torna tóxico”, ele disse à BBC Sport. “Tem que vir do filho ou da filha realmente querer fazer isso”, enfatizando a importância da motivação intrínseca.

“E eu acho que a melhor maneira é quando os pais oferecem um sistema de apoio incrível para estar lá por eles e incentivá-los a melhorar e ter ambição”, complementa Edmund, sobre o modelo ideal de suporte parental.

A transição gradual da diversão para a seriedade na formação de jovens tenistas

Para muitos pais, a mudança na dinâmica do tênis acontece de forma imperceptível e progressiva.

Rob, que observa seu filho em uma sessão de treino em grupo, silenciosamente e à distância, comenta: “Seu filho começa indo a uma sessão divertida de sábado de manhã e, antes que perceba, tudo se tornou muito sério em uma idade muito jovem”, descrevendo a rápida transformação.

“Você começou a jogar algo por causa da alegria de praticá-lo, e isso deveria ser o mais importante. Mas, dentro do sistema, é fácil esquecer isso”, lamenta Rob, sobre a perda do prazer em meio à competitividade.

Ramesh, outro pai, reflete com arrependimento sobre as jornadas de seus filhos mais velhos no tênis, admitindo que deu muita importância aos resultados. Agora, ele instrui seu filho mais novo a “esquecer a vitória ou a derrota”, priorizando a experiência sobre o placar.

Griffiths não critica seus próprios pais. Ela ressalta que sua mãe, uma mãe solo criando três filhos, foi fundamental para todas as suas conquistas e para seu desenvolvimento no esporte.

“Minha mãe admitiria que não era perfeita”, diz Griffiths, com honestidade.

“Mas não havia apoio disponível para ela saber como ser a melhor mãe no tênis”, ela contextualiza a falta de orientação para os pais.

“Eles são, em última análise, a segunda pessoa mais importante nesta jornada”, Griffiths enfatiza o papel crucial dos pais na trajetória dos jovens atletas.

Liya Jacob, que tem dois filhos tenistas, afirma que a maioria dos pais tenta agir da maneira correta.

“Sou médica, sou coach de vida e me considero bastante inteligente emocionalmente, mas até eu me vi, em algumas ocasiões, caindo em comportamentos pouco úteis”, confessa Jacob, mostrando a dificuldade mesmo para profissionais.

“Não é que tenhamos pais ruins por aí. Os pais não têm um guia para ajudá-los a lidar com os desafios do esporte”, argumenta ela, indicando a necessidade de suporte estruturado.

Junto com Griffiths e Johnson, ela criou um curso online chamado Winning Parents (Pais Vencedores), destinado a ajudar os pais a entenderem como podem apoiar seus filhos antes, durante e após as partidas.

A Dra. Jacob observa que os pais frequentemente se enquadram em dois padrões de comportamento.

“Um deles é o excesso de ajuda”, ela explica. “O que vejo muitos pais fazerem é treinar demais da lateral da quadra ou interferir durante as partidas”, descrevendo uma forma comum de superproteção.

Outro padrão é que as pessoas podem se tornar excessivamente críticas em relação aos filhos.

“As crianças muitas vezes descrevem o pavor da viagem de carro para casa depois de um desempenho ruim, depois de maus resultados. Os pais não pretendem criar esses ambientes, mas isso pode facilmente acontecer sob pressão”, alerta Jacob, sobre as consequências não intencionais.

A LTA declara que oferece “uma gama de recursos aos pais para educá-los e informá-los sobre cada etapa da jornada esportiva”.

Online, eles mantêm o Programa de Apoio aos Pais, desenvolvido por especialistas acadêmicos renomados. O programa aborda o papel dos pais em competições, a comunicação antes, durante e após as partidas, e a gestão das demandas emocionais da competição.

Apesar de todos os desafios enfrentados, Griffiths ainda mantém o carinho pelo jogo.

Ela afirma que o tênis lhe proporcionou habilidades que moldaram sua vida para além do esporte, mas acredita que os pais precisam de auxílio para compreender o poder que exercem.

“Quero que os pais vejam que o tênis é um caminho incrível para desenvolver o caráter de seu filho se você o fizer de forma favorável”, ela pontua, destacando o potencial positivo.

“Pode prejudicar o caráter de seu filho se você o fizer da maneira errada”, Griffiths conclui, enfatizando a responsabilidade dos pais na formação integral dos jovens tenistas.

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