Entenda a ligação entre o fenômeno El Niño e os eventos extremos de ventania e enchentes no Brasil

Por 8 min de leitura
Ventania, ventos fortes, mar agitado - Jeremy Cuer/ Istockphoto.com Foto: Ventania, ventos fortes, mar agitado - Jeremy Cuer/ Istockphoto.com

Ventanias intensas no Rio de Janeiro e em São Paulo, inundações e um tornado no Rio Grande do Sul, fenômenos observados em 30 de julho de 2026, compartilham uma característica: todos representam eventos extremos do clima.

Com o aumento da temperatura atmosférica acima dos níveis habituais, especialistas em meteorologia indicam que a ocorrência desses fenômenos tende a crescer, um cenário que o El Niño, esperado para ser muito forte nos próximos meses, pode agravar.

Contudo, especialistas alertam que a forte ventania registrada em São Paulo e no Rio de Janeiro não possui ligação direta com o El Niño, desmentindo uma declaração anterior do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Cavaliere.

O coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden, José Marengo, disse que “diretamente não está ligado, porque o que provocou a ventania em São Paulo e no Rio de Janeiro foi a chegada de uma frente fria”.

Marengo detalhou que “esses locais estavam com temperaturas muito altas e a chegada dessa frente provocou um choque térmico muito forte, o que trouxe o que a gente chama de frente de rajada”.

Entre os meteorologistas, o consenso é de que qualquer conexão entre o El Niño e os recentes eventos climáticos extremos é, no máximo, indireta.

Marcelo Seluchi, coordenador no Cemaden, afirmou que “o El Niño está confirmado, mas ele mal começou, está longe de estar no máximo. No Sudeste esse tipo de vento na estação seca é super raro”.

A seguir, veja mais detalhes sobre os fatores que provocaram as ventanias, chuvas e o tornado.

Como o El Niño influencia os padrões climáticos globais

O El Niño é um fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, especificamente na região equatorial. Ele ocorre periodicamente, a cada dois a sete anos, e provoca mudanças na circulação atmosférica, modificando os regimes de chuva e temperatura em várias partes do globo.

César Soares, meteorologista da Climatempo, explicou que o El Niño contribui para que as temperaturas fiquem acima da média, mesmo em períodos atípicos, o que potencializa a ocorrência e persistência de eventos climáticos extremos.

No entanto, os impactos mais marcantes do fenômeno no Brasil são esperados apenas a partir da primavera, período em que o El Niño deve intensificar sua atuação.

Historicamente, este fenômeno modifica o regime de chuvas e temperaturas no território brasileiro, resultando em:

  • Elevação do volume de chuvas na região Sul, com aumento do risco de ocorrências extremas;
  • Diminuição das precipitações no Norte e em algumas áreas do Nordeste;
  • Maior imprevisibilidade no regime de chuvas para o Sudeste e Centro-Oeste;
  • Incidência mais elevada de ondas de calor.

Apesar da variação entre La Niña, neutralidade e El Niño, pesquisadores reforçam que o aquecimento global permanece como o fator primordial por trás das transformações climáticas. O El Niño, nesse contexto, atua como um catalisador, exacerbando a frequência e a intensidade dos eventos extremos impulsionados pelas mudanças globais.

Análise das causas para ventanias, chuvas e tornado recentes

Meteorologistas esclarecem que, embora todos sejam eventos climáticos extremos, cada um dos fenômenos observados nos últimos dias — as ventanias, chuvas intensas e o tornado — teve origens distintas.

Em relação às ventanias em São Paulo e no Rio de Janeiro:

Os ventos, que superaram os 120 km/h e resultaram em fatalidades, queda de árvores, destelhamento de imóveis, interrupção de energia elétrica e paralisação de transportes em São Paulo e no Rio de Janeiro, foram potencializados por um acentuado contraste entre duas massas de ar com propriedades distintas.

Essa grande variação de temperatura e umidade criou condições favoráveis para o desenvolvimento de ventos intensos e estruturados, um fenômeno meteorológico denominado frente de rajada.

Em síntese, três elementos contribuíram para a intensificação da ventania:

  • O calor e a baixa umidade do ar que prevaleciam na região Sudeste;
  • A chegada de uma massa de ar mais fria e úmida, trazida pela frente fria;
  • A grande diferença de temperatura e umidade entre as massas de ar envolvidas.

Pedro Camarinha, especialista em Mudanças Climáticas e Desastres, esclarece que a frente de rajada é um componente comum no avanço de frentes frias que se originam no Sul e se deslocam pelo Sudeste.

Ele analisa que “essa frente de rajada é bem recorrente nas frentes frias mais intensas. Só que isso não é muito comum nessa época do ano, é bem raro. Normalmente, nos períodos de transição, a partir de setembro, outubro, novembro, a gente tem isso mais bem configurado”.

Sobre as chuvas intensas e o tornado no Rio Grande do Sul:

Recentemente, várias localidades do Rio Grande do Sul emitiram alertas devido aos temporais que assolaram o estado.

Uma potente frente fria foi a causa das fortes chuvas, raios, granizo e rajadas de vento que atingiram grande parte da região.

Contudo, neste caso específico, meteorologistas confirmam uma ligação já existente com o El Niño.

Seluchi explicou que a persistência das chuvas por diversos dias consecutivos é, em particular, um efeito atribuído ao fenômeno.

Ele comentou que “durante anos do El Niño, os ventos de alto nível ficam mais estáveis e fortes em uma determinada região e ela passa pelo Sul do Brasil. Isso contribui para a alteração no regime de chuvas na região”.

César Soares complementou que as temperaturas elevadas durante o período de El Niño elevam a frequência de temporais no Sul, o que também favorece a formação de tornados.

Nesta mesma semana, um tornado impactou a região noroeste do Rio Grande do Sul, provocando danos em pelo menos três cidades.

Previsões para a atuação do El Niño neste ano

O fenômeno El Niño já está estabelecido no Oceano Pacífico e a expectativa é que ele ganhe força rapidamente nos próximos meses, elevando o risco de ondas de calor, períodos de seca, chuvas intensas e outros eventos extremos em diversas partes do mundo.

Este alerta foi emitido no início de julho pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência da ONU com a responsabilidade de monitorar o clima.

As projeções dos maiores centros de meteorologia apontam para um aquecimento significativo das águas do Pacífico equatorial, principalmente nas áreas central e leste do oceano.

Em certas regiões utilizadas para observar o fenômeno, a temperatura da superfície do mar pode exceder em mais de 2°C a média histórica.

De acordo com a agência oceânica e atmosférica norte-americana (NOAA), os modelos atuais mostram que o índice Niño-3.4, principal indicador para o monitoramento do fenômeno, já atingiu +1,2°C, o que reforça a convicção de que este episódio será classificado como muito forte.

A previsão é que o El Niño continue a se fortalecer durante o segundo semestre deste ano, com seu pico esperado entre os meses de novembro e fevereiro.

Celeste Saulo, secretária-geral da OMM, afirmou que “o El Niño já está em curso e deve se fortalecer rapidamente, transformando-se em um evento forte”.

Ela também alertou que o fenômeno aumenta as probabilidades de secas e chuvas torrenciais, além de ondas de calor tanto em regiões continentais quanto nos oceanos.

A real intensidade do El Niño, entretanto, dependerá do grau de aquecimento do Pacífico Equatorial nos próximos meses e, crucialmente, da forma como a atmosfera reagirá a esse aquecimento.

Para que o fenômeno atinja sua potência máxima, não basta apenas o aquecimento do oceano; é fundamental que o sistema oceano-atmosfera interaja de maneira integrada e contínua.

Desde 2006, uma série de eventos de El Niño tem contribuído progressivamente para as alterações climáticas globais, em um planeta que já se encontra mais aquecido do que em épocas anteriores.

Mesmo em sua intensidade fraca ou moderada, esses eventos ocorrem em um ambiente global já mais quente, elevando o risco de fenômenos extremos, como períodos de seca, inundações e ondas de calor. Exemplos incluem:

  • 2006–2007: El Niño com intensidade fraca a moderada.
  • 2009–2010: El Niño de intensidade moderada.
  • 2014–2016: El Niño muito forte, conectado a registros históricos de calor e eventos extremos mais frequentes.
  • 2018–2019: El Niño fraco a moderado, com duração mais curta e impactos menos abrangentes.
  • 2023–2024: El Niño forte, considerado um dos mais potentes já documentados, associado a novos recordes de temperatura.

Bruna Santos é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve e colabora para o portal desde 2024. Formação: Professora.

Notícias relacionadas