Abelhas revelam segredos evolutivos para proteger lavouras e biomas do clima
Pesquisas conduzidas há mais de 15 anos com incentivo da Fapesp revelam como as características anatômicas e genéticas das abelhas são fundamentais para o equilíbrio dos ecossistemas. A compreensão desses pequenos polinizadores, que remonta a milhões de anos, pode ser a chave para fortalecer lavouras e biomas contra os efeitos das mudanças climáticas, em um estudo que culminou em 21 de agosto de 2026.
Com o rápido declínio desses insetos vitais, cientistas se dedicaram a uma análise aprofundada, investigando tanto o passado quanto as projeções futuras das populações de abelhas. O objetivo era entender como os traços físicos (fenótipos) e genéticos (genótipos) desses animais contribuíram e ainda podem contribuir para a manutenção da biodiversidade global.
Dois grupos de pesquisadores uniram forças, somando mais de uma década e meia de trabalho de campo e expedições que percorreram mais de 30 países. Essa colaboração transdisciplinar permitiu cruzar dados genéticos com observações morfológicas em uma escala sem precedentes.
Desvendando a jornada evolutiva das abelhas
Um dos pilares do estudo concentrou-se na morfologia de espécies de abelhas-sem-ferrão (Meliponini), utilizando também amostras extintas que foram preservadas em âmbar. Essa análise permitiu aos cientistas observar em detalhe a evolução das formas desses insetos ao longo do tempo geológico.
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Paralelamente, o segundo grupo realizou um extenso mapeamento e catalogação de 394 caracteres anatômicos, extraídos de 116 espécies. Essas espécies foram estrategicamente selecionadas para representar as principais ramificações das grandes famílias de abelhas existentes no planeta.
A combinação desses dados fenotípicos e genotípicos abrangeu tanto espécies contemporâneas de diversas partes do mundo quanto exemplares de um passado muito distante. Eduardo Almeida, coordenador do Laboratório de Biologia Comparada e Abelhas (LBCA) da FFCLRP-USP e orientador das pesquisas, ressalta a importância dessa abordagem integrada.
Ele afirmou: “a genética e a morfologia caminham juntas, uma complementando as lacunas que a outra deixa. Quando olhamos apenas para o genoma, não enxergamos a beleza das formas e dos comportamentos. É a morfologia que nos abre a janela para entender o processo de formação da diversidade biológica.”
Segredos de milhões de anos revelados para a ciência
Com a vasta quantidade de informações coletadas, os pesquisadores conseguiram identificar semelhanças notáveis entre a abelha dominicana (Proplebeia dominicana), um fóssil preservado em resina por cerca de 18 milhões de anos, e as abelhas-sem-ferrão que hoje habitam os Neotrópicos. Essa comparação ofereceu um elo crucial para a compreensão evolutiva.
A pesquisa também confirmou a estreita relação entre a tribo Melikertini e as abelhas-sem-ferrão modernas, validando o posicionamento da abelha dominicana na árvore evolutiva neotropical. Essas descobertas reescrevem parte da história da evolução das abelhas na região.
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Os Neotrópicos, que compreendem grande parte da América Central e do Sul, são um epicentro de megadiversidade, onde a coevolução entre insetos polinizadores e plantas é intensa e vital. Entender a trajetória evolutiva das abelhas nessa área oferece pistas sobre como a biodiversidade pode ser mantida em outras partes do mundo, funcionando como um laboratório natural para a ecologia global.
O impacto da evolução das abelhas na biodiversidade atual
Todas as informações anatômicas e genéticas coletadas revelaram que as similaridades evolutivas entre as abelhas não são meras coincidências. Na verdade, essas aproximações podem indicar diretamente como as abelhas moldaram e influenciaram a biodiversidade local ao longo de milênios.
Um exemplo claro dessa influência foi a observação do desenvolvimento rápido de um aparelho bucal alongado em algumas espécies de abelhas. Essa adaptação anatômica específica permitiu que esses insetos frequentassem e polinizassem tipos particulares de plantas, direcionando a evolução conjunta de ambos.
Estudos ambientais recentes indicam que cerca de 40% das espécies de abelhas e borboletas estão sob ameaça de extinção globalmente. Essa estatística alarmante sublinha a urgência de compreender a adaptabilidade evolutiva desses polinizadores, visto que sua perda representa uma crise iminente para a segurança alimentar e a estabilidade ecológica.
Com a riqueza de dados obtidos, os paleontólogos e biólogos agora possuem ferramentas mais precisas para investigar uma série de fenômenos intrigantes. Entre as questões a serem exploradas estão:
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- Os motivos por trás do desenvolvimento de ferrões proeminentes em algumas espécies.
- O rastreamento e a compreensão de comportamentos excepcionais de polinização até as origens evolutivas dos animais.
- A identificação de espécies de abelhas que são mais resilientes ou eficazes em polinizar culturas específicas.
Contribuições práticas para lavouras e biomas
O conhecimento aprofundado desses comportamentos e características físicas e genéticas das abelhas é crucial para desenvolver estratégias de conservação mais eficazes. Essa compreensão pode desvendar as melhores formas de aplicar a biologia das abelhas em diferentes contextos.
A Pesquisa Fapesp indica que esses animais têm o potencial de impulsionar a produtividade de lavouras agrícolas e desempenhar um papel essencial na proteção e conservação de ecossistemas. Isso é particularmente relevante no cenário atual de mudanças climáticas, onde a resiliência ambiental é cada vez mais necessária.
O declínio global das populações de abelhas não afeta apenas a biodiversidade, mas tem um impacto econômico direto e bilionário na agricultura mundial, que depende fortemente da polinização. Ao identificar padrões de sucesso evolutivo e adaptação, a pesquisa oferece um roteiro prático para mitigar perdas futuras e fortalecer sistemas agrícolas sustentáveis, garantindo alimentos e a saúde dos biomas.

















