Alerta de tráfico humano: morte de jovem e prisão de mineira no Camboja acendem preocupaçãoPor Carolina Costa
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A morte de um jovem brasileiro em circunstâncias misteriosas e a prisão de uma arquiteta mineira no Camboja estão revelando a complexidade e a brutalidade das redes de tráfico humano na Ásia. Gabriel Oliveira, 24 anos, faleceu em julho de 2025, e seu corpo só foi repatriado ao Brasil um ano depois, em julho de 2026, enquanto Daniela Marys, 37 anos, cumpre pena em uma prisão superlotada no país asiático. Ambos os casos, que ganharam destaque no cenário nacional em 25 de agosto de 2026, expõem um padrão de aliciamento e exploração que vitima brasileiros com promessas de emprego e ganhos financeiros, mas os submete a condições análogas à escravidão.
Os mistérios em torno da morte de Gabriel Oliveira no Camboja
Gabriel Oliveira, um jovem com experiência em tecnologia da informação, partiu do Brasil com a esperança de um emprego promissor em Bancoc, na Tailândia, que incluía hospedagem, alimentação e passagens aéreas. A proposta visava ajudá-lo a construir uma vida melhor e auxiliar seus pais na compra da casa própria em Igarapé, Minas Gerais. No entanto, sua jornada tomou um rumo inesperado quando, após desembarcar na capital tailandesa, foi levado de van para uma cidade desconhecida no Camboja.
Após a chegada ao Camboja, o contato de Gabriel com a família tornou-se superficial e restrito aos locais onde dormia, com o jovem afirmando que estava sempre acompanhado por outras pessoas. O último contato com seus pais ocorreu em 5 de julho de 2025. Dez dias depois, a família foi informada pelo Itamaraty sobre seu falecimento. A empresa que supostamente o empregara apresentou a versão de que a morte foi causada por uma explosão de micro-ondas, uma explicação sem qualquer evidência, gerando ainda mais desconfiança e incertezas sobre o que realmente aconteceu.
A luta da família para repatriar o corpo do filho
A notícia da morte de Gabriel foi seguida por uma série de dificuldades para seus pais, Leniêr Quirino e Daniel de Araújo Vieira. Funcionários de uma funerária em Phnom Penh, capital do Camboja, chegaram a preparar a cremação, uma opção oferecida devido ao alto custo de repatriação. Contudo, a família recusou, pois precisava da certeza de que o corpo era de seu filho.
A busca pela repatriação se arrastou por cerca de um ano, exigindo uma batalha jurídica para que o governo arcasse com os custos, pedido que foi negado. A família conseguiu levantar cerca de R$ 52 mil por meio de uma vaquinha virtual para custear o traslado. O caso de Gabriel Oliveira foi um dos mais complexos acompanhados pela Clínica de Trabalho Escravo e Tráfico de Pessoas da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), que prestou assistência à família e buscou apoio governamental. A coordenadora da clínica, Lívia Miraglia, expressou o impacto emocional do caso, onde o “melhor desfecho” significava apenas trazer o corpo de um jovem para ser enterrado.
A realidade de Daniela Marys na prisão cambojana
Paralelamente ao caso de Gabriel, a arquiteta mineira Daniela Marys, 37 anos, encontra-se detida na cadeia de Banteay Meanchey, em Sisophon, no Camboja, após também ter sido vítima de tráfico humano. Em relato por telefone, Daniela descreveu a superlotação da prisão, que abriga 130 pessoas em um espaço projetado para 63. As condições sanitárias são precárias, com um buraco no chão servindo como vaso sanitário e banhos realizados com caneca em um tanque, onde também se lava a louça.
Ainda em contato com a família, Daniela precisa pagar por toda a alimentação e itens de higiene pessoal. Ela foi presa após uma batida policial encontrar três comprimidos de drogas no banheiro de seu quarto em Poipet, uma cidade conhecida por seu histórico de tráfico humano. A arquiteta defende que as substâncias foram “plantadas” após sua recusa em participar de um esquema criminoso. “É tudo muito complicado, tudo muito demorado. Eu tenho mais oito meses ainda [de pena]. É uma vida”, disse ela.
Como funcionam as redes de tráfico humano no país asiático
O Camboja tornou-se, em 2025, o principal destino de vítimas brasileiras registradas sob o Protocolo Operativo Padrão de Atendimento, segundo dados do Ministério da Justiça. A localização estratégica de cidades como Poipet, na fronteira com a Tailândia, oferece um ecossistema que favorece a instalação de redes criminosas. Com a fronteira fechada durante a pandemia, muitos cassinos, antes voltados ao público tailandês, passaram a ser usados como centros de operações de golpes online.
- Promessas enganosas: Ofertas de emprego com altos salários em tecnologia da informação, muitas vezes com tudo pago (passagens, hospedagem, alimentação).
- Rotas clandestinas: Vítimas são levadas inicialmente para a Tailândia e, em seguida, transportadas ilegalmente para cidades remotas no Camboja.
- Isolamento e controle: Os contatos com a família são monitorados ou limitados, e os trabalhadores vivem sob vigilância constante e, em muitos casos, grades e tortura.
- Coerção a golpes: Vítimas são forçadas a participar de esquemas criminosos, como o “Golpe da Polícia Federal”, onde se passam por agentes para fraudar outras pessoas.
- Violência e ameaças: A recusa em cooperar resulta em abusos mentais, ameaças e, como no caso de Daniela, a possibilidade de serem incriminados.
Perspectivas e o papel das autoridades nos casos de brasileiros
Daniela Marys foi sentenciada a dois anos e meio de prisão, mas teve a pena reduzida em seis meses após recurso, com expectativa de libertação em março de 2027. Há ainda a esperança de que um pedido de transferência seja atendido para que ela cumpra o restante da pena no Brasil. O Itamaraty informou que acompanha o caso, prestando assistência consular à arquiteta e sua família, monitorando audiências e realizando visitas.
Para a irmã de Daniela, Lorena Costa Oliveira, apesar do desespero de quase um ano e meio de prisão, a família enxerga na estabilidade do caso e na previsão de saída um “livramento”. A situação de Gabriel e Daniela ressalta a importância de conscientizar sobre os riscos de ofertas de emprego no exterior que parecem “boas demais para ser verdade” e de fortalecer os mecanismos de apoio e proteção a brasileiros em situação de vulnerabilidade em outros países.







