Brasil pode registrar seis ondas de calor intensas até dezembro por efeito El NiñoPor Maria
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De acordo com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o Brasil enfrentará pelo menos seis ondas de calor até o final do ano. Embora historicamente o fenômeno El Niño se concentrasse em áreas específicas, as projeções atuais indicam que ele afetará simultaneamente todo o território nacional. Há a possibilidade de que o número de ocorrências seja superior, considerando que o último evento de El Niño provocou nove ondas de calor.
É crucial entender que uma onda de calor difere de um dia isolado de altas temperaturas. Esse evento é caracterizado por um período mínimo de três dias consecutivos em que tanto as temperaturas máximas quanto as mínimas permanecem significativamente acima da média habitual, sem qualquer alívio do calor intenso.
As projeções meteorológicas sinalizam a iminência de um “Super El Niño”, com potencial para se tornar um dos mais severos já documentados. Este fenômeno deverá causar calor e seca prolongados, embora também possa gerar chuvas torrenciais em outras áreas do país. Contudo, a expectativa de altas temperaturas é universal, abrangendo todas as regiões do Brasil.
Essa estimativa resulta de um estudo aprofundado que analisou registros de temperatura ao longo de 47 anos, focando no comportamento do El Niño em períodos anteriores.
Mabel Calim Costa, doutora em ciências do Sistema Terrestre e pesquisadora de ondas de calor no Cemaden, responsável pela análise, indicou que a frequência desses eventos pode aumentar com a intensificação do El Niño. Ela explicou que, “essa é uma média, mas vimos no último El Niño o país viver nove ondas de calor, com dias extremamente quentes. Com as temperaturas dos oceanos subindo, pode ser que o cenário seja ainda mais intenso e isso traz consequências para o país.”

Aumento da frequência e abrangência das ondas de calor em território nacional
Os levantamentos apontam para dois aspectos preocupantes: a ocorrência de ondas de calor está se tornando mais frequente e a sua extensão territorial está se ampliando. Tal cenário implica não apenas em períodos de maior aquecimento, mas também na impossibilidade de encontrar refúgio do calor intenso em qualquer parte do Brasil.
A análise revelou uma alteração significativa no padrão de comportamento das ondas de calor nas últimas duas décadas. Enquanto nas décadas de 1980 e 1990 os eventos de calor extremo eram incomuns e restritos a certas áreas, como o Nordeste, a situação mudou drasticamente a partir de 2010, e de forma mais intensa após 2020. Agora, as ondas de calor não só se tornaram mais recorrentes, mas também passaram a cobrir uma porção maior do país, atingindo o Brasil inteiro simultaneamente, em vez de ficarem localizadas.
A pesquisadora Mabel Calim Costa explicou que “a gente percebe que a onda de calor passa a afetar todo o país e isso é uma questão porque estamos falando de calor adicional em áreas já quentes e em áreas que também não tem resiliência para enfrentar temperaturas tão altas.”
Frequentemente, o elemento desencadeador desses fenômenos é a formação de zonas de alta pressão atmosférica que permanecem estacionadas sobre uma determinada região por vários dias. Esses sistemas agem como um bloqueio, impedindo a formação de nuvens e a ocorrência de chuvas, ao mesmo tempo em que retêm uma massa de ar quente e seco no local.
A ausência de nuvens para sombrear e de chuva para refrescar o ambiente leva ao esgotamento da umidade do solo. Esse processo, por sua vez, eleva ainda mais o aquecimento e tem o potencial de agravar condições de seca já estabelecidas. A especialista destacou que a mudança observada ao longo das décadas não reside no gatilho em si, mas na temperatura ambiente preexistente. Com um planeta mais quente, cada evento de alta pressão resulta em picos de calor mais severos do que os registrados em períodos anteriores.
Mabel Calim Costa contou que “as mudanças climáticas estão avançando e o mundo está mais quente. Isso reflete na intensidade das ondas e podemos ver um cenário ainda mais forte este ano.”
Entre 2023 e 2024, foi atingido o ápice da série histórica, com nove ondas de calor documentadas de agosto a dezembro, o maior total desde 1979. Esse número superou em mais de duas vezes a média nacional de quatro registros. Globalmente, o período foi o mais quente já verificado. No Brasil, mais de 6 milhões de indivíduos suportaram no mínimo 150 dias de calor extremo em 2024, conforme dados exclusivos.
A data exata para o início da primeira onda de calor ainda não foi determinada. No entanto, as projeções para o mês de setembro indicam um mapa climático predominantemente laranja ou vermelho, sinalizando temperaturas acima da média em praticamente todo o Brasil, com variações que podem atingir até 3°C acima dos padrões habituais.
Principais impactos do calor extremo na população e no meio ambiente
As altas temperaturas contribuem para a intensificação da seca. A menor presença de nuvens resulta em maior evapotranspiração – fenômeno no qual o solo e a vegetação perdem água para a atmosfera – diminuindo a umidade do solo e exacerbando as condições de estiagem.
Dados do Índice Integrado de Seca, elaborado pelo Cemaden para o governo federal, revelam que 157 municípios brasileiros já se encontram em estado de seca severa. A maior parte dessas localidades está situada nas regiões Norte e Nordeste, com Tocantins liderando o número de casos (50) e a Bahia em seguida (18).
Ana Paula Cunha, pesquisadora e especialista em secas, afirmou que “as regiões mais afetadas vão ser o Norte e o Nordeste, já estamos vendo isso com registros de chuva inferior ao esperado nessas regiões.”
Além disso, o calor extremo eleva a probabilidade de incêndios. Um estudo colaborativo entre o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC/INPE), o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) categoriza os municípios brasileiros quanto ao risco de fogo. Essa classificação é feita cruzando informações sobre atividade humana, como a incidência de focos de calor, com variáveis climáticas, incluindo temperaturas elevadas, chuvas escassas e a duração de períodos de estiagem.
Os resultados desse levantamento indicam que 560 municípios atualmente se encontram em estado de alerta alto para incêndios, abrangendo uma área superior a 3 milhões de quilômetros quadrados. Esse território corresponde a mais de 35% da extensão nacional, com a região compreendida entre a Amazônia e o Pantanal sendo a mais suscetível.
A situação de risco representa uma das prioridades para o Ministério do Meio Ambiente. No primeiro semestre de 2026, a Amazônia teve a menor área com indícios de desmatamento detectados por satélite em dez anos, conforme informações do Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), do Inpe. Em resposta, um gabinete de crise foi estabelecido em maio para mitigar os efeitos do El Niño, com a mobilização de mais de 4,6 mil brigadistas federais em todo o Brasil para intensificar o combate a incêndios.
Adicionalmente, os efeitos do El Niño se estendem à economia. Os preços dos alimentos podem sofrer elevações para os consumidores brasileiros, com um pico previsto para até seis meses depois dos impactos climáticos gerados pelo fenômeno. Conforme o levantamento, produtos in natura, incluindo carnes e hortaliças, são os mais propensos a registrar aumentos. Em uma fase intensa do El Niño, os valores desses itens podem subir 19,9%, enquanto a despesa com alimentação em casa pode crescer 6,32%.







