Um homem de 48 anos tornou-se o primeiro paciente no mundo a ser submetido a uma cirurgia cerebral com suporte de inteligência artificial (IA) em tempo real, em um procedimento realizado em 28 de agosto de 2026. Durante a intervenção, a equipe médica conseguiu extirpar com sucesso um tumor localizado na hipófise, uma área sensível do cérebro.
Segundo os cirurgiões do University College London Hospital, Rhys Hibbert, pai de dois filhos residente em Bedfordshire, no Reino Unido, corria o risco de perder a visão se a operação não fosse realizada.
Na cirurgia, um sistema de IA fez a análise das imagens do procedimento em tempo real, fornecendo direcionamentos aos cirurgiões para desviar de vasos sanguíneos e nervos cruciais do cérebro, que eram invisíveis a olho nu.
A tecnologia assistiu os cirurgiões na remoção segura da maior parte do tumor. Hibbert comentou sobre a experiência: “Do ponto de vista da segurança do paciente, vejo claramente os benefícios. Não existem placas de sinalização dentro da nossa cabeça”.
Como o tumor impactou a visão de Rhys Hibbert
Até cerca de 18 meses atrás, Hibbert mantinha uma vida ativa e saudável, com caminhadas diárias no horário do almoço. Foi durante uma dessas caminhadas que ele sofreu um desmaio e começou a ter convulsões na rua.
Um exame de imagem posterior revelou um tumor benigno de 11 milímetros em crescimento na hipófise, uma glândula do tamanho de uma bolinha de gude situada na base do crânio. Essa glândula é responsável pela produção de hormônios essenciais para diversas funções corporais, incluindo crescimento, metabolismo e regulação da pressão e temperatura.
O desafio era a proximidade da glândula com as artérias carótidas, que transportam sangue para o cérebro, e os nervos ópticos, diretamente conectados à visão. À medida que o tumor crescia e pressionava esses nervos, o campo de visão periférica de Hibbert foi se estreitando progressivamente.
Os desafios de saúde enfrentados pelo paciente
Mesmo sem uma necessidade imediata de cirurgia, Hibbert começou a sentir um cansaço extremo, tonturas e a tropeçar em objetos. Ele mencionou a importância de suas rotinas: “Durante os 18 anos de casamento, sempre levantei da cama e preparei uma xícara de café para minha mulher. E eu não ia deixar que esse tumor me impedisse de fazer isso”.
Para ele, as consequências mais profundas da doença foram emocionais e psicológicas. Hibbert acrescentou que, apesar da generosidade de muitas pessoas em oferecer ajuda, “você não quer ser um peso para os outros”.
Quando os cirurgiões apresentaram a ele a chance de ser o primeiro paciente a participar de uma cirurgia desse tipo com o auxílio da IA, Hibbert aceitou sem hesitação. Ele questionou: “Se os pacientes não estiverem dispostos a participar de pesquisas, como os médicos poderão aprender e como a medicina poderá avançar?”.
A contribuição da inteligência artificial no procedimento cirúrgico
O procedimento cirúrgico utilizou um endoscópio, uma câmera fina acoplada a uma haste, inserido pelo nariz até a base do crânio. Na área do tumor, os médicos enfrentaram um obstáculo significativo: a lesão estava próxima, mas obscurecida por camadas ósseas e uma membrana resistente.
Identificar o ponto mais seguro para iniciar a remoção era uma tarefa de alta complexidade, dada a delicadeza da região e a variação anatômica entre indivíduos.
As estatísticas de complicações eram consideráveis. Havia uma chance entre 25% e 50% de que o tumor não fosse totalmente removido e um risco de 0,5% a 2% de lesão de um vaso sanguíneo importante.
Nesse momento crucial, a ferramenta de IA entrou em ação. Em uma tela secundária, o sistema analisava as imagens da cirurgia em tempo real, monitorando os instrumentos e indicando as áreas com maior probabilidade de conter vasos sanguíneos e nervos. A ferramenta também assinalava os locais mais seguros para a remoção do tumor.
O funcionamento da IA é parecido com o de sistemas de reconhecimento facial em celulares. Contudo, em vez de identificar rostos, essa IA foi treinada para reconhecer estruturas anatômicas vitais que frequentemente permanecem ocultas durante as operações.
No Reino Unido, um cirurgião costuma realizar, em média, entre dez e 20 operações desse tipo anualmente. Para cada procedimento, os médicos se baseiam em exames pré-cirúrgicos para compreender a anatomia particular de cada paciente.
Pesquisadores treinaram e validaram o sistema de IA usando centenas de vídeos de cirurgias de remoção de tumores da hipófise. Em cada gravação, os vasos sanguíneos e nervos foram contornados meticulosamente para fornecer dados ao sistema, auxiliando-o a aprender a identificar as estruturas mais importantes. O professor Hani Marcus, que participou da operação, explicou: “Ele foi treinado com mais cirurgias do que a maioria dos cirurgiões vê ou realiza ao longo de toda a carreira e pode funcionar como um segundo par de olhos especializado”.
Uma distinção relevante em relação a outras ferramentas experimentais de IA é a capacidade deste sistema de operar em tempo real.
O futuro da IA na medicina: um “ChatGPT para cirurgiões”
Apesar do uso da tecnologia, a equipe responsável pela cirurgia enfatiza que a IA não toma decisões de forma autônoma. A ferramenta serve como um suporte para os médicos, que mantêm controle total sobre o procedimento.
No entanto, a ambição dos pesquisadores vai além. Em longo prazo, a equipe planeja desenvolver uma espécie de “ChatGPT para cirurgiões”: uma ferramenta que possa atuar como “outro especialista na sala” e oferecer orientações quando solicitada.
Marcus disse que os médicos poderiam consultar o sistema para solicitar assistência durante uma operação ou simplesmente desconsiderar suas recomendações se discordassem delas.
A tecnologia recebeu financiamento do National Institute for Health and Care Research (Instituto Nacional de Pesquisa em Saúde e Cuidados) e do Google, sendo desenvolvida por pesquisadores da University College London (UCL).
A equipe dedicou anos testando e aprimorando a ferramenta em laboratório. Após os resultados iniciais obtidos nesta cirurgia real, os pesquisadores agora se concentram em um estudo mais amplo.
Recuperação notável após a cirurgia cerebral
A cirurgia de Hibbert foi realizada há oito semanas. Desde então, ele percebeu uma melhora gradual em sua visão. “Quando abri os olhos depois da cirurgia, parecia que tinha recuperado uma visão de 360 graus eu não enxergava com tanta clareza havia um ano”, relatou.
Segundo o paciente, a visão continua a melhorar a cada dia. “Também recuperei minha energia, e todos os efeitos colaterários que eu sentia antes da cirurgia desapareceram. Isso me devolveu a vida.”
James Frith, ministro da Inovação em Saúde do Reino Unido, expressou satisfação pelo fato de Hibbert ter passado por uma “cirurgia que mudou sua vida”, como parte de uma pesquisa financiada pelo governo. Ele afirmou: “A IA precisa de mecanismos de segurança adequados e sempre vamos garantir que a segurança seja levada a sério. Mas também vamos garantir que aproveitemos as oportunidades que ela oferece”.
