Call of Duty: Modern Warfare 4 estreia com invasão norte-coreana e análises sobre risco real de guerra

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Call of Duty WWII - Reprodução Foto: Call of Duty WWII - Reprodução

O jogo Call of Duty: Modern Warfare 4 estreou em 23 de outubro de 2026 retratando uma invasão em larga escala da Coreia do Norte contra a Coreia do Sul. Desenvolvido pela produtora Infinity Ward e publicado pela Activision e pela Microsoft, o título provocou debates políticos na capital Seul e análises militares sobre a viabilidade real de um conflito armado na Península Coreana.

Na campanha, a narrativa acompanha o início dos combates por meio de ataques de mísseis contra o sul da península, sob o ponto de vista de jovens recrutas sul-coreanos em patrulha de rotina, incluindo o soldado Park, enquanto o personagem Capitão Price persegue Makarov. O trailer da obra registrou 22 milhões de visualizações no dia em que foi divulgado, em maio de 2026, e acumulou 61 milhões de exibições ao todo.

Debate político em Seul sobre Call of Duty: Modern Warfare 4 e a chance real de invasão

Call of Duty WWII - Reprodução
Foto: Call of Duty WWII – Reprodução

A repercussão do lançamento chegou ao parlamento sul-coreano neste sábado (24). O deputado independente Han Dong-hoon recomendou publicamente que o presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung, jogasse Call of Duty: Modern Warfare 4. Para o parlamentar, a obra demonstra “que tipo de devastação acontece quando a preparação para a defesa fica aquém do necessário”, enquanto integrantes do partido sul-coreano People Power Party (Partido do Poder Popular) citaram o jogo para criticar a postura do governo diante de Pyongyang.

Apesar do enredo fictício, avaliações de inteligência apontam baixa probabilidade de uma ofensiva nos moldes apresentados pela franquia. Um relatório publicado em 2023 pela Comunidade de Inteligência dos Estados Unidos — grupo que reúne agências federais americanas do setor — indicou que o governo norte-coreano provavelmente usaria seu arsenal balístico e nuclear para exercer influência regional e dissuasão, e não para iniciar uma guerra total.

Markus Garlauskas, ex-oficial de Inteligência Nacional dos Estados Unidos para a Coreia do Norte e atual membro do centro de estudos Conselho do Atlântico, em Washington, avalia que uma eventual agressão de Pyongyang ocorreria em “escala limitada”, combinando disparos de mísseis e ameaças de escalada nuclear.

Comparativo militar entre Coreia do Norte e Coreia do Sul no cenário de Modern Warfare 4

Uma tentativa de invasão terrestre enfrentaria obstáculos operacionais e tecnológicos. A Coreia do Sul detém o quinto exército mais avançado do mundo, superioridade aérea e o apoio de soldados americanos estacionados em seu território. O professor Fyodor Tertitskiy, da Divisão de Estudos Internacionais da Universidade da Coreia, em Seul, declarou que “eu teria cautela ao menosprezar as vantagens da Coreia do Sul no poderio aéreo”.

Por outro lado, a Coreia do Norte mantém vantagem numérica em tropas, tanques, peças de artilharia e mísseis, além de possuir armas atômicas — ao lado da China, são os dois únicos países do leste asiático com armamento nuclear, dentro de um grupo global estimado em nove nações. Os dados de defesa das duas Coreias apresentam contrastes diretos:

  • Orçamento de defesa da Coreia do Sul: estimado em cerca de US$ 43 bilhões (R$ 216 bilhões) anuais, valor superior a toda a economia norte-coreana;
  • Orçamento de defesa da Coreia do Norte: estimado em cerca de US$ 1,6 bilhão (R$ 8 bilhões) anuais;
  • Efetivo militar norte-coreano: estimado em 1,2 milhão de soldados;
  • Efetivo militar sul-coreano na ativa: cerca de 450 mil soldados em 2025, uma redução em relação aos 563 mil registrados pelo Ministério da Defesa em 2019 devido à baixa taxa de natalidade do país;
  • Tropas aliadas: cerca de 28,5 mil soldados dos Estados Unidos permanecem estacionados em território sul-coreano;
  • Frota aérea norte-coreana: estimada por Seul em 2018 em cerca de 810 aeronaves de combate, composta majoritariamente por modelos da era soviética, incluindo caças MiG-29 adquiridos há décadas.

Além do envelhecimento dos equipamentos, o Exército Popular Coreano opera sob uma estrutura de comando rígida e centralizada, desenhada para evitar golpes contra a liderança do país. Segundo Tertitskiy, muitas decisões das unidades exigem aprovação prévia de autoridades políticas ou de segurança, o que reduz a agilidade e a autonomia dos comandantes no campo de batalha. Em contrapartida, analistas apontam que Pyongyang pode ter adquirido experiência prática em guerra moderna, especialmente no emprego de drones, após enviar cerca de 16 mil soldados para lutar ao lado da Rússia na guerra na Ucrânia, conflito no qual muitos militares norte-coreanos morreram ou ficaram feridos.

Vulnerabilidade de Seul a 38 km da fronteira e o risco de guerra termonuclear

A geografia impõe desafios diretos à defesa sul-coreana caso o cenário de Call of Duty: Modern Warfare 4 se concretize. A capital Seul está localizada a uma distância de 38 a 50 km ao sul da zona desmilitarizada, e sua região metropolitana, que engloba a cidade de Incheon e a província de Gyeonggi, concentra mais da metade da população nacional. Essa proximidade faz com que a capital seja “vulnerável e muito difícil de ser evacuada”, afirmou Tertitskiy.

Bruce Klingner, ex-analista da CIA (agência de inteligência americana) e da Agência de Inteligência de Defesa e atual pesquisador da Fundação Maureen e Mike Mansfield, em Washington, destacou o poder de fogo convencional posicionado na fronteira. “A Coreia do Norte detém artilharia em massa destacada perto da zona desmilitarizada, que poderia ser disparada contra Seul sem se movimentar”, disse o pesquisador. Ele acrescentou que “Pyongyang também conta com centenas de milhares de mísseis e alguns deles podem se esquivar das defesas antimísseis aliadas.”

De acordo com Klingner, um ataque desencadearia uma “reação militar transnacional” com a participação das forças dos Estados Unidos, o que poderia atrair a China e a Rússia, países que mantêm tratados militares com Pyongyang. Nesse cenário, Tertitskiy alertou que o confronto geraria “uma possibilidade real não só de guerra nuclear, mas também termonuclear”, referindo-se às bombas de hidrogênio, que utilizam a fusão nuclear além da fissão e têm potencial destrutivo superior ao das bombas atômicas lançadas sobre o Japão em 1945.

Histórico da Guerra da Coreia de 1950 e a mudança constitucional de Kim Jong-un

A premissa de invasão explorada no jogo da Activision tem precedente histórico na península, que foi dividida após o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Em 25 de junho de 1950, a Coreia do Norte, apoiada pelo bloco soviético durante a Guerra Fria (1947-1991), invadiu o Sul, aliado dos Estados Unidos. As tropas do Norte capturaram Seul em três dias e recuaram as forças sul-coreanas e da Organização das Nações Unidas (ONU) até um perímetro defensivo na cidade portuária de Busan, no sudeste, até que o general americano Douglas MacArthur (1880-1964) reverteu o avanço com um desembarque em Incheon em setembro de 1950, provocando a entrada da China no conflito no mês seguinte.

Os combates deixaram pelo menos 3 milhões de mortos e foram suspensos em 27 de julho de 1953 com um armistício assinado por Coreia do Norte, China e Comando da ONU, mas recusado pela Coreia do Sul. Sem um tratado de paz definitivo, o acordo estabeleceu a zona desmilitarizada de 4 km de largura e manteve as duas nações tecnicamente em guerra há mais de 70 anos.

A tensão diplomática aumentou em janeiro de 2024, quando o líder supremo norte-coreano, Kim Jong-un, declarou ao Parlamento que abandonou a meta histórica de reunificação pacífica e alterou a Constituição para classificar a Coreia do Sul como “adversário primário e invariavelmente o principal inimigo”. Diante das críticas de que Call of Duty: Modern Warfare 4 transforma um conflito real em entretenimento, Fyodor Tertitskiy, que é cidadão sul-coreano naturalizado e seria convocado ao exército em caso de guerra, defendeu o impacto da obra: “Seja ele incorreto ou não, o jogo fará muitas pessoas pensarem na nossa península”.

Carolina Costa é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2019. Formação: Administração

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