Casos de demência são raros entre indígenas da Amazônia, revela pesquisa
Pesquisadores internacionais identificaram que a baixa prevalência de demência entre os povos indígenas Tsimané e Mosetén, que atinge menos de 2% dessas comunidades na Amazônia boliviana, decorre principalmente da menor sobrevida após o diagnóstico, e não de uma proteção absoluta contra a síndrome. O levantamento longitudinal foi publicado em 15 de setembro de 2026 na revista científica Alzheimer’s & Dementia.
Os dados mostram que os indivíduos diagnosticados com o declínio cognitivo apresentam um risco de mortalidade mais de seis vezes superior ao verificado entre membros das comunidades que mantêm a cognição normal. Essa dinâmica encurta o tempo de vida após o início dos sintomas e reduz a quantidade total de pacientes vivos observados nas aldeias.
Taxa de incidência é próxima à de países desenvolvidos
A equipe médica acompanhou 730 adultos indígenas Tsimané e Mosetén que não apresentavam sinais de demência no início da avaliação. Ao longo de um período com mediana de acompanhamento de 4,7 anos, as equipes registraram 22 novos casos da síndrome.
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O índice de incidência ficou estabelecido em 7,40 casos por 1.000 pessoas-ano, com intervalo de confiança de 95% entre 4,87 e 11,24. Os autores classificaram o resultado como apenas moderadamente inferior ou comparável às taxas registradas em populações dos Estados Unidos e do norte da Europa, sobretudo nas faixas etárias abaixo dos 80 anos.
“O achado surpreendente foi que não houve grandes diferenças na incidência de demência. Isso nos desafia a identificar os fatores de risco para o desenvolvimento de demência na população Tsimané”, afirmou Margaret Gatz, autora principal da pesquisa e professora de psicologia e gerontologia na Universidade do Sul da Califórnia, em tradução livre.
Indicadores clínicos e comparações epidemiológicas
A constatação epidemiológica diferencia a incidência, que mede o surgimento de novos quadros clínicos no decorrer do tempo, da prevalência, que calcula a proporção total de pessoas que vivem com a condição em determinado momento. Em territórios sem estrutura hospitalar intensiva, a evolução fatal acelerada reduz a fatia de doentes crônicos.
- População inicial avaliada sem declínio mental: 730 adultos indígenas.
- Novos diagnósticos confirmados durante a pesquisa: 22 casos.
- Tempo mediano de seguimento entre exames: 4,7 anos.
- Incidência observada: 7,40 diagnósticos por 1.000 pessoas-ano.
- Prevalência consolidada nas aldeias: abaixo de 2%.
- Prevalência em idosos com 65 anos ou mais nos Estados Unidos: entre 8% e 11%.
- Risco de mortalidade pós-diagnóstico: superior a 6 vezes em relação a indivíduos cognitivamente saudáveis.
A sobrevida de duas a três vezes menor na comparação com as médias norte-americanas ajuda a manter a proporção total de doentes reduzida nas aldeias, apesar de novos quadros surgirem regularmente na velhice.
Alterações vasculares superam marcadores tradicionais de Alzheimer
Ao examinarem os exames de imagem e laboratoriais dos participantes afetados, os pesquisadores notaram características cerebrais que se distanciam do perfil clássico do mal de Alzheimer. O comprometimento cerebral esteve associado à variante genética APOE ε4, à detecção de cálcio na aorta torácica e a concentrações elevadas de neurofilamento de cadeia leve no plasma.
Por outro lado, biomarcadores típicos da patologia amiloide e tau fosforilada não apresentaram associação estatística relevante com os episódios de declínio cognitivo registrados.
“Na maioria dos Tsimané com comprometimento cognitivo ou demência, o padrão de atrofia no cérebro não é típico da doença de Alzheimer. Pelo contrário, existem alterações indicativas de contribuições vasculares para o comprometimento cognitivo e a demência”, declarou a professora Margaret Gatz, em tradução livre.
O estudo contou ainda com a coordenação de Hillard S. Kaplan, professor na Universidade Chapman e autor sênior do artigo, e de Benjamin C. Trumble, professor na Arizona State University e codiretor do Projeto de História de Vida e Saúde Tsimané.
Para Benjamin C. Trumble, o resultado evidencia que a taxa geral de pessoas que chegam a manifestar o problema segue em patamar baixo em relação ao padrão ocidental. “(Este estudo) mostra que não apenas o número de pessoas com demência é muito baixo nesta população, o que poderia ser explicado pela mortalidade, mas também que o número de pessoas que chegam a desenvolver demência é baixo. Isso significa que não se trata apenas de as pessoas não sobreviverem muito tempo após desenvolver demência; algo sobre o estilo de vida Tsimané resulta em taxas de demência menores do que as que vemos nos Estados Unidos”, disse o pesquisador, em tradução livre.
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Histórico de pesquisas nas comunidades do rio Maniqui
Em 2022, o mesmo consórcio acadêmico divulgou levantamento transversal na revista Alzheimer’s & Dementia envolvendo 623 adultos com 60 anos ou mais. Naquela oportunidade, os médicos constataram prevalência de 1,2% entre os Tsimané e de 0,6% entre os Mosetén.
Os Tsimané residem em áreas próximas ao rio Maniqui e mantêm estilo de vida centrado na agricultura de subsistência, caça e pesca, consumindo poucos produtos ultraprocessados. Já os Mosetén compartilham raízes linguísticas e históricas semelhantes, mas possuem maior proximidade e integração com centros urbanos bolivianos.
Trabalhos anteriores das instituições envolvidas apontavam que ambas as comunidades apresentavam reduzida atrofia cerebral e artérias coronárias preservadas, o que era atribuído à alta carga diária de esforço físico e aos hábitos alimentares locais.
Mecanismos genéticos sob investigação
A ciência ainda não confirmou se a variante genética APOE ε4 age nestas etnias pelos mesmos caminhos biológicos vistos na forma tradicional da doença de Alzheimer ou se sua influência decorre de processos imunológicos e regulação de lipídios associados a infecções parasitárias endêmicas na floresta tropical boliviana.
O monitoramento da saúde cognitiva e cardiovascular das duas etnias continua em andamento pelos grupos de pesquisa das universidades norte-americanas e bolivianas parceiras.

