Ciência

Luz ultravioleta revela tecidos moles em fóssil de réptil

Fóssil de Osteolaemus tetraspis, crocodilo
Fóssil de Osteolaemus tetraspis, crocodilo - ecologiste/ Shutterstock.com

Pesquisadores da Espanha revelaram a presença de tecidos moles, cartilagens respiratórias e padrões de camuflagem preservados há cerca de 125 milhões de anos no esqueleto fóssil do crocodilomorfo Montsecosuchus depereti. O resultado foi alcançado por meio da aplicação de radiação ultravioleta sobre a rocha calcária que abriga o exemplar, em Sabadell, na comunidade autônoma da Catalunha.

A investigação foi conduzida por uma equipe liderada pelo paleontólogo Oscar Castillo-Visa, do Institut Català de Paleontologia Miquel Crusafont. O especialista explicou que o método óptico viabilizou a detecção de estruturas biológicas que permaneceram ocultas aos olhos humanos por mais de um século. “A luz UV nos permite ver detalhes que, de outra forma, permaneceriam completamente ocultos na rocha”, afirmou Castillo-Visa, em tradução livre.

Faixas na cauda indicam camuflagem original

crocodilo
Foto: crocodilo – Tony Campbell/Shutterstock.com

Ao submeter o espécime à radiação ultravioleta, os cientistas notaram que a cauda exibia um padrão regular de faixas transversais claras e escuras. A equipe interpretou a marcação como indício de um padrão de camuflagem disruptiva, recurso visual que quebra o contorno do animal contra o fundo do habitat aquático. Se a presença de melanina for atestada por análises laboratoriais, o exemplar se tornará o registro fóssil mais antigo de padrão de coloração conhecido dentro da linhagem Crocodylomorpha, grupo que abriga os crocodilianos viventes e seus parentes extintos.

A pesquisa detalhou que a morfologia externa do Montsecosuchus depereti exibia traços incomuns quando comparada aos répteis atuais. O fóssil não possui a quilha vertical acentuada na cauda nem as escamas carenadas nas patas, ostentando um corpo mais liso. Pequenas escamas localizadas no pescoço, nas laterais do tronco e nos membros apresentaram indícios de estruturas sensoriais tegumentares, elementos que permitiam captar oscilações na água e variações de toque antes de se espalharem por todo o corpo.

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Cartilagens torácicas comprovam vida na água

No tórax do réptil, a radiação ultravioleta fez brilhar cartilagens torácicas não ossificadas ligadas a costelas e processos uncinados. Essas peças moles ajudam a sustentar a mecânica ventilatória dos pulmões e confirmam que a anatomia pulmonar da linhagem já havia desenvolvido especializações mecânicas no período geológico Barremiano, no início do Cretáceo Inferior. Castillo-Visa apontou o significado evolutivo da preservação: “Esses traços indicam que, apesar de ser um animal primitivo, ele já estava muito bem adaptado a um estilo de vida semiaquático”, declarou o autor, em tradução livre.

Dimensões e características do exemplar

  • Comprimento aproximado em estudo: 50 centímetros
  • Extensão catalogada em acervo: 570 milímetros
  • Registro oficial do holótipo: espécime MGB-512
  • Revestimento da pele: escamas epidérmicas de formatos variados sem crista alta na cauda

Trajetória secular do fóssil catalão

O animal morreu nas águas de um lago pré-histórico e foi coberto por camadas finas de sedimento que deram origem a rochas de calcário, ambiente propício para conter a degradação de tecidos moles. Esse tipo de preservação em répteis fósseis é raro e costuma ficar restrito a linhagens de talatossúquios estritamente marinhos. O achado do Montsecosuchus depereti ocorreu no Geoparque Mundial da Unesco Orígens e passou por diferentes etapas de classificação taxonômica ao longo de mais de um século.

Cronologia da descoberta e da identificação

  • 1 de janeiro de 1902: o engenheiro de minas e geólogo Lluís Marià Vidal descobre o fóssil na Pedrera de Meià, na província de Lleida
  • 1 de janeiro de 1915: Lluís Marià Vidal publica a descrição da espécie sob a denominação Alligatorium depereti
  • 1 de janeiro de 1990: revisão paleontológica oficializa a criação do gênero Montsecosuchus para o exemplar
  • 13 de junho de 2026: pesquisadores publicam o estudo sobre tecidos moles no periódico Zoological Journal of the Linnean Society
  • 18 de junho de 2026: centros de pesquisa da Espanha e da Catalunha divulgam os dados da análise com luz ultravioleta

Pesquisa aguarda exames químicos da pigmentação

O estudo contou com a colaboração dos paleontólogos Jesús Serrano e Albert Sellés, do Institut Català de Paleontologia Miquel Crusafont, e de Phil R. Bell, da Universidade de New England, localizada na Austrália. O fóssil holótipo permanece guardado no acervo do Museu de Ciències Naturals de Barcelona.

A equipe informou que a confirmação definitiva de que as faixas claras e escuras na cauda representam pigmentos de melanina original ainda necessita de validação por espectrometria e microscopia química avançada, etapas previstas para os próximos desdobramentos do projeto.

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