Uso de canetas emagrecedoras exige treino de força e proteína
A médica cardiologista Ludhmila Hajjar, professora titular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), alertou nesta sexta-feira (25) que o tratamento farmacológico da obesidade com análogos de GLP-1 requer acompanhamento multidisciplinar rigoroso, ingestão proteica planejada e treino de força contínuo. A manifestação ocorreu em análise publicada no jornal O Globo, na qual a especialista destacou o risco de perda acelerada de tecido muscular e deficiências nutricionais em pacientes que reduzem drasticamente a ingestão alimentar diária.
Segundo Hajjar, substâncias como semaglutida, liraglutida e tirzepatida transformaram a abordagem da obesidade como uma condição de saúde crônica, mas não devem ser encaradas como soluções isoladas. “A caneta é uma ferramenta, não um tratamento”, afirmou a médica, frisando que a perda rápida de peso sem estímulo aos músculos compromete a capacidade funcional do organismo.
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Riscos do déficit calórico severo e carências nutricionais
Dietas excessivamente restritivas durante a administração desses fármacos, em especial as rotinas que impõem consumo diário inferior a uma faixa entre 800 e 1.000 calorias, elevam as chances de fraqueza motora, desequilíbrio eletrolítico e carências vitamínicas. Quando o paciente aproveita o corte de apetite provocado pelo remédio para passar o dia ingerindo quantidades mínimas de comida, o organismo consome as reservas musculares para suprir a demanda energética.
“A pergunta certa não é quão pouco consigo comer, mas qual o menor déficit capaz de produzir uma perda segura e sustentável”, declarou Ludhmila Hajjar. Sem a ingestão mínima necessária de nutrientes, ocorrem náuseas, constipação, fadiga e perda funcional acentuada.
Metas diárias de proteína e preservação muscular
Para blindar o organismo contra o catabolismo muscular, as diretrizes clínicas indicam a necessidade de estruturar refeições com foco em proteínas de alto valor biológico e realizar exercícios com sobrecarga de maneira regular. Estudos clínicos apontam que entre 25% e 35% do peso corporal perdido por pacientes que usam análogos de GLP-1 sem o devido acompanhamento físico corresponde a massa magra, proporção que prejudica a taxa metabólica basal e a sustentação do tratamento a longo prazo.
Os parâmetros nutricionais e esportivos apontados na avaliação médica envolvem os seguintes requisitos:
- Ingestão proteica diária: meta estabelecida entre 1,2 g e 1,6 g por quilo de peso corporal ao dia.
- Consumo mínimo absoluto: piso de pelo menos 60 g de proteína por dia para adultos em perda de peso, ajustado em casos de doenças renais prévias.
- Frequência do treino de força: musculação direcionada aos principais grupos musculares ao menos duas vezes por semana.
- Atividade aeróbica: indicada para proteger o sistema cardiovascular e o metabolismo, sem substituir os exercícios resistidos.
- Restrição calórica crítica: faixas abaixo de 800 a 1.000 calorias diárias devem ser evitadas para afastar desequilíbrios metabólicos.
Diretrizes globais e combate ao estigma da obesidade
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu critérios técnicos para a inclusão dessas substâncias nos protocolos de saúde pública. Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, comentou a relevância dos fármacos ao mesmo tempo em que delimitou o alcance da medicação no cenário internacional: “Embora os medicamentos por si só não resolvam esta crise mundial de saúde, os tratamentos com GLP-1 podem ajudar milhões de pessoas a superar a obesidade“.
Paralelamente, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO) orientam o abandono do termo popular ‘canetas emagrecedoras‘. As duas entidades médicas recomendam a nomenclatura ‘medicamentos para tratar obesidade’, estratégia voltada a desestimular o apelo meramente estético e reconhecer o caráter patológico complexo da doença.
Marcos de recomendações oficiais sobre o tratamento
- Dezembro de 2025 — A Organização Mundial da Saúde publica as primeiras diretrizes globais para o uso de agonistas de GLP-1 no manejo da obesidade em adultos.
- 1 de dezembro de 2025 — A OMS divulga formalmente que a farmacoterapia contra obesidade deve vir acompanhada por mudanças alimentares e prática contínua de atividade física.
- 25 de setembro de 2026 — Publicação de análise clínica da médica Ludhmila Hajjar detalha parâmetros de treino de força e proteína para evitar a perda excessiva de massa magra.
Cuidados no uso e recuperação do peso pós-tratamento
Como a obesidade apresenta natureza crônica e recidivante, estudos clínicos registraram que uma parcela expressiva dos pacientes retoma o peso corporal anterior após a suspensão completa do medicamento. O organismo atua para defender os estoques de gordura eliminados, elevando os sinais de fome e reduzindo o gasto energético diário.
Em razão desse mecanismo, médicos apontam que eventuais reduções ou retiradas da medicação devem ocorrer com planejamento prévio e suporte profissional. Pacientes que apresentam vômitos persistentes que impeçam a hidratação, dor abdominal intensa, icterícia ou episódios de hipoglicemia associados ao uso concomitante de insulina devem buscar atendimento médico imediato para reavaliação do quadro.

